Duas notícias recentes no “Guardian” (em inglês, acesso gratuito) são mais que suficientes para, com o auxílio de algumas gotas de predisposição apocalíptica, fazer o sujeito calcular que as fronteiras entre realidade e ficção estarão definitivamente apagadas ali pela altura de setembro de 2019. A primeira nota fala do vexame sofrido pelo filósofo pop francês Bernard-Henri Levy ao dar crédito em seu último livro a um certo colega e conterrâneo quase esquecido, Jean-Baptiste Botul, que teria sido um crítico implacável de Kant. O problema é que Botul, criador do “botulismo”, nunca existiu, é só uma piada do jornalista e satirista Frédéric Pagès. O outro post informa que o jornalista grego Taki, da revista inglesa “Spectator”, escriba de certa popularidade entre os conservadores europeus, alega ter sido correspondente de J.D. Salinger, de quem teria “centenas de cartas”. “O único homem em quem confio e que jamais encontrei pessoalmente é Taki, o correspondente grego da ‘Spectator’”, teria escrito o famoso eremita numa delas (não fica claro por que Salinger achou necessário explicar ao próprio destinatário a identidade do destinatário). A “Spectator”, segundo o “Guardian”, não confirma a história do sujeito. Hoax – pegadinha, fraude – não é novidade no mundo das letras,…
“A comédia me parece ser tudo o que resta para um escritor trabalhar no mundo atual. Drama, romance, épico, tudo isso de alguma forma parece corresponder a outras épocas, a outras formas de ver o mundo.” A declaração do inglês Martin Amis, em entrevista que fiz com ele para o “Jornal do Brasil” em 2001, é categórica demais para não conter muito de exagero. Mesmo assim, nunca mais a tirei da cabeça. De vez em quando me divirto imaginando como se sairia, julgada por critério tão absoluto, a literatura brasileira contemporânea e sua irmã, a crítica, que parecem ter se esquecido por completo da lição de Machado e – num país basicamente absurdo, o que é mais absurdo ainda – tentam empurrar o humor e a ironia para fora de seus domínios, como se fossem recursos estéticos necessariamente menores. Amis, claro, é um provocador profissional. Parecia usar a mesma régua do humor, além de um certo ressentimento pelo Nobel alheio, quando declarou recentemente que o “depressivo” J.M. Coetzee “não tem talento” – o que é ridículo. Mas Amis é também um escritor inquieto e ambicioso que a meu ver, mesmo quando quebra a cara, dá um jeito de quebrá-la de…
Pode-se argumentar que, aos 82 anos de idade, a reputação literária do colombiano Gabriel García Márquez está estabelecida. Sua cotação na Bolsa de Valores Literários deverá sofrer oscilações ao longo do tempo, como a de qualquer escritor que não seja simplesmente esquecido, mas poucas vozes – como a do exilado cubano Guillermo Cabrera Infante, um desafeto político morto em 2005 – deram-se ao trabalho de lamentar seu “folclorismo e exotismo realmente desnecessários”. Cem anos de solidão é um monumento cravado na história da literatura, ponto. E, como seus três ou quatro principais livros depois dele mantêm o sarrafo lá no alto, o solo sob os pés do escritor parece firme. No caso de Gabo, como o chamam os amigos próximos (e os jornalistas de qualquer distância), a reputação que falta fixar é a do homem público, a do “político” – papel que o ex-menino pobre e franzino de Aracataca passou a representar de modo praticamente profissional depois de se consolidar como celebridade planetária com o Nobel de literatura de 1982. Foi essa frente política – ou seriam fundos? – que a crítica internacional atacou com maior apetite na notável biografia autorizada que o inglês Gerald Martin publicou em 2008, após…
Não me lembro de outra época em que a imprensa literária mundial tenha se ocupado tão pouco de… literatura. No lugar dela, fala-se de: 1. Tecnologia do livro digital: iPad x Kindle x etc.; 2. Política da difusão de literatura: a Amazon brigando de foice com a editora Macmillan, que aproveitou a nova concorrência da Apple para impingir ao grande varejista um aumento no preço do livro digital, enquanto os independentes vislumbram um futuro de ligação direta entre autor e leitor em que gigantes como Amazon e Macmillan virarão pó; 3. A nova estrutura legal que necessariamente emergirá dessa confusão, com o Brasil (onde ainda é proibido copiar uma obra intelectual mesmo para uso próprio, num pen-drive) discutindo uma reforma da legislação de direitos autorais; 4. Numa apoteose de tudo isso, uma certa metafísica da literatura, a perda de status cultural da ficção, o futuro da leitura de fôlego, o potencial que o meio digital apresenta para uma literatura “aberta e colaborativa”, o papel evolutivo da necessidade humana de se enredar em narrativas e outros esoterismos do gênero. São todos assuntos fascinantes, complexos, atualíssimos, dos quais o mundo inteiro e este blog, que não é autista e também respira o…
Depois de J.D. Salinger, em rápida seqüência, vão-se o crítico literário Wilson Martins (nascido em 1921) e o escritor e jornalista argentino Tomás Eloy Martínez (1934). Está ficando cada vez mais difícil entender a filiação estética desse coletivo de bruxas. Pero que las hay, las hay.
Depois de passar décadas enterrado voluntariamente em vida, J.D. Salinger, autor de “O apanhador no campo de centeio”, está morto. Segundo comunicado da agência literária que o representa, o escritor morreu ontem “de causas naturais” e “sem dor” na casa de campo em que se isolou há meio século, em Cornish, no estado americano de New Hampshire. Salinger é praticamente o inventor do adolescente moderno – ou pelo menos seu maior porta-voz literário – na figura de Holden Caulfield, 16 anos, narrador e personagem principal de seu livro mais famoso, lançado em 1951 (disponível em português, em edição da Editora do Autor, aqui). Polêmico, “O apanhador no campo de centeio” virou um best-seller imediato, especialmente entre jovens, e vende regularmente até hoje. Seu alcance cultural transcendeu os limites da literatura para entrar no terreno do mito – a ponto de, para mencionar um exemplo maluco, o assassino de John Lennon, Mark Chapman, ter declarado que a explicação para o crime podia ser encontrada em suas páginas. Holden Caulfield se expressava de forma coloquial, era desbocado para os padrões da época e desconfiado de tudo o que se referisse ao mundo “fajuto” (phony) dos adultos. Um adolescente-mala como a ficção jamais…
O iPad, tablete da Apple anunciado ontem, está apanhando mais que o Cristo do Mel Gibson na comunidade geek. Sem multitarefa e sem entrada USB, acusam-no basicamente de ser só um iPhone gigante que, para piorar, não faz fotos e nem telefone é. Para o que vem ao caso aqui – a leitura de livros digitais – não se pode negar que é interessante o esforço investido na criação da iBookstore, a associação com grandes editoras e tal. O amadurecimento de um mercado em que absolutamente tudo está se definindo neste momento agradece. O probleminha chato é que, vamos falar sério, sem uma tela de tinta eletrônica (aquilo que o TechEBlog, na brincadeira acima, chama de matte screen, “tela fosca” – valeu, Polza!) não dá nem para se inscrever no páreo contra Kindle, Sony e similares. No meu modo de entender os leitores eletrônicos, o iPad é simplesmente outra coisa, habita outra categoria – no caso específico da leitura de fôlego, uma categoria inferior. Talvez seja mesmo o aparelho perfeito para passar os olhos em jornais e revistas à mesa do café da manhã, certo, mas livros? Nada disso significa que a possibilidade de um sucesso comercial deva ser descartada:…
Seria de imaginar que o rápido despejo da literatura das páginas das revistas comerciais fosse uma bênção para as revistas literárias, especialmente nos ambientes acadêmicos que se tornaram portos seguros para (e mecenas de fato de) escritores cujas obras não vendem o suficiente para gerar receita. Seria de esperar que os leitores leais de escritores estabelecidos promovessem um aumento na tiragem dessas pequenas revistas e que as universidades passassem a enxergá-las sob uma nova luz – não apenas como promotoras do prazer da literatura, mas como promulgadoras de uma nova era de escrita socialmente consciente nesses tempos pós-comerciais. Mas quanto menos comercialmente viável a ficção foi ficando, menos ela parecia se preocupar com seu público, que por sua vez tornou-a ainda menos comercial, até que, como uma estrela moribunda, ela parece à beira de implodir. Na verdade, a maioria dos escritores americanos parece ter esquecido como escrever sobre grandes temas – como se dar a mínima pelota para o mundo fosse algo que ficou esmagado sob a sola da bota do pós-modernismo. As reflexões amargas de Ted Genoways – editor da “Virginia Quarterly Review”, uma pequena e (cada vez menos) prestigiosa revista literária acadêmica dos EUA – merecem ser traduzidas…
Esta é para os leitores do Todoprosa que compartilham com o blogueiro a paixão pelo Kindle, um aparelho que, como se sabe, é tão brilhantemente bisonho e jurássico que não só se mantém cego, surdo e mudo diante do tumulto da internet como ostenta uma tela sem luz própria. Devemos estar mesmo na temporada dos acessórios engenhosos para leitura (pelo menos enquanto não chega o tablete da Apple, que, dizem, pode até dispensar o cidadão de ler, lendo tudo sozinho e apresentando um resumo desenhado depois): suspeito que o Kandle, abajurzinho portátil para Kindle, seja a maior invenção do planeta desde o Thumbthing. (Via Pontolit.)
Um dos segredos mais bem guardados do mundo literário é que, embora possam ser, individualmente, pessoas até adoráveis, escritores em comunidade são tão interessantes quanto dentistas em congresso.
Parece ser sério: uma empresa chamada Sarcasm, Inc. está vendendo (?) um sinal de pontuação chamado “ponto de sarcasmo”. Me lembrei do velho ponto de ironia, uma exclamação de cabeça para baixo, inventado – se não me engano – pelo Ziraldo. Não é difícil entender por que o ponto de ironia não pegou, apesar de sua aparente necessidade, confirmada a cada vez que milhares de leitores deixam de captar a piada e se enfurecem com você pelas razões erradas: avisando, perde toda a graça.
Num momento em que a humanidade está mesmerizada pela leitura eletrônica, uma surpreendente e rudimentar invenção mecânica para quem ama os livros de papel (que não, NÃO vão desaparecer): o Thumbthing, que o blog de livros da “New Yorker” chama de “revolucionário” – meio de brincadeira, mas só meio. A idéia, claro, é segurar confortavelmente o livro com apenas uma mão, mantendo abertos aqueles volumes que insistem em se fechar sozinhos, enquanto com a mão livre se executa outra ação qualquer, como adoçar o café. Como um admirador do Kindle que valoriza sua capacidade – ainda pouco louvada – de ficar “aberto” sem precisar de nenhum tipo de calço (o que acabou com meus velhos problemas para ler às refeições), respeito quem se preocupa com os aspectos mais triviais, físicos, da leitura, e fiquei contente com esse contra-ataque do mundo analógico. Ah, o fabricante lembra que a coisa funciona também como marcador. Se vai pegar, não sei, mas achei bacana. Bobagem, certamente. Mas não mais do que a maioria dos aplicativos para iPhone.
Como no romance original, nossa história acompanha dois relacionamentos: o trágico caso de amor adúltero entre Anna Karenina e o Conde Alexei Vronsky e o casamento mais esperançoso de Nikolai Levin e a Princesa Kitty Shcherbatskaya. Esses personagens vivem num mundo de inspiração punk-retrô cheio de mordomos robóticos, autômatos desajeitados e aparelhos mecânicos rudimentares. Mas quando essas máquinas revestidas de cobre começam a se revoltar contra seus senhores humanos, nossos personagens contra-atacam usando tecnologia de ponta do século 19 – e um sofisticado novo modelo de ciborgues ultra-humanos que não se parece com nada que o mundo já tenha visto. Depois que juntaram Jane Austen com zumbis, abriu-se um filão que parece longe de se esgotar: Android Karenina (obrigado, Cris), com lançamento previsto para junho, é a novidade do momento. Confesso que não sei o que fazer disso: parei de rir cinco minutos depois da primeira notícia, mas a piada não acaba. Quando será que o Brasil, sempre atrasadinho, vai pular no bonde dessa vibrante forma de vanguarda literária? Seguem algumas pautas para autores/editores intrépidos: Grande sertão: aliens – ETs gelatinosos de meio metro de altura pousam no sertão numa nave de prata e, num pacto fáustico, ensinam o tímido…
Antes de ler “Flores azuis” e “Galiléia”, eu me perguntava por que as livrarias reservam uma parte toda especial, geralmente escondidinha e acanhada, para a literatura nacional. Confesso, envergonhado, que eu via isso com alguma revolta. Um resquício de patriotismo que não saiu no banho, talvez. “Flores azuis” e “Galiléia” me deram uma explicação para este fenômeno que não é só comercial. Na verdade, tudo é muito simples: literatura brasileira, em geral, não é livro que se queira ler. É livro que se pretende estudar, analisar, discutir. Aquilo que parece um romance é, na verdade, um objeto de estudo — um livro praticamente didático. Logo, convém mesmo deixar a literatura brasileira bem separadinha daqueles livros que a gente compra porque quer lê-los à noite, antes de dormir, ou na praia. Minha sugestão é que o mercado editorial comece a lançar promoções do tipo “Compre este livro e ganhe uma tese”. Pode dar certo. Paulo Polzonoff chuta o pau do ombrellone na partida final da Copa de Literatura 2009, em que “Flores azuis”, de Carola Saavedra, derrotou “Galiléia”, de Ronaldo Correia de Brito. Disputada por livros lançados em 2008, a competição termina em 2010, mas não creio que essa morosidade crítica…
A coisa explodiu. São tantos os e-readers e tabletes sendo apresentados por estes dias no Consumer Electronics Show, em Las Vegas, que este blog, depois de acompanhar o tema do livro digital com algum interesse por tanto tempo, entrega oficialmente os pontos. Está tudo muito bom, mas vocês realmente esperam que eu me informe sobre tudo aquilo? Exerço o meu direito de Bartleby: prefiro não. Que, não por coincidência, pode ser justamente o direito fundamental que a avalanche internética tem nos feito esquecer: prefiro não. Tentarei explicar. Mas para tanto peço desculpas e cito, depois de dizer que não o faria, uma das tais engenhocas recém-lançadas, que leva o insuportável nome de “enTourage eDGe” e pode ser conferida neste vídeo. Trata-se da primeira máquina que combina e-reader com netbook – tela de tinta eletrônica de um lado, tela de cristal líquido do outro. Para que você possa, até que enfim!, ler tranquilamente seu “Guerra e paz” com o olho esquerdo enquanto, com o direito, confere emails, comenta um status ou outro no Facebook e se diverte com aquele último vídeo imperdível no YouTube. Ah, você prefere não fazer isso? Bem-vindo ao clube. Ando apaixonado pelo Kindle, e de repente fica…
A grande revista eletrônica “Words Without Borders”, a melhor fonte para literatura estrangeira em inglês, começa o ano de cara nova. Bonita e altamente navegável. Vale conferir.
Naquele primeiro post da história deste blog, para o qual criei um atalho ontem, havia um link quebrado – irremediavelmente quebrado a esta altura, soterrado nos escombros do “NoMínimo”. Trata-se de uma resenha que publiquei no já distante ano de 2004 sobre “O negro no futebol brasileiro”, de Mario Filho. Em nome da sempre interessante discussão sobre literatura & futebol, decidi republicar o texto na íntegra: Algumas mentiras, de tão repetidas, passam por verdades. Uma delas aponta o que seria uma contradição a mais da vida brasileira, entre as muitas de que o país é feito: nosso futebol, com seu incomparável apelo de massa e sua qualidade aclamada em todo o mundo, nunca produziu na literatura uma única obra à altura dessa exuberância. Trata-se de uma quase-verdade. Só é mentira, e mentira clamorosa, porque o jornalista Mario Filho lançou em 1947 – e relançou, com o acréscimo de dois capítulos, em 64 – um livro chamado “O negro no futebol brasileiro”. Não se trata apenas do “maior clássico sobre o futebol brasileiro”, como costuma ser apresentado. É o único clássico digno desse nome, a mais acabada tradução da mitologia construída por um povo – fundada ou não, sonho ou realidade,…