Antes tenho de fazer a barba, disse ele, não quero ir ao hospital com uma barba de três dias, por favor, vá chamar o barbeiro, mora na esquina, é o senhor Manacés.
Mas não temos tempo, senhor Pessoa, replicou a zeladora, o táxi já está na porta, seus amigos já chegaram e estão à sua espera na entrada.
Não importa, respondeu ele, sempre há tempo.
Ajeitou-se na poltronazinha onde o senhor Manacés habitualmente lhe fazia a barba e pôs-se a ler as poesias de Sá-Carneiro.
O singelo início da novelinha “Os três últimos dias de Fernando Pessoa”, do italiano Antonio Tabucchi (Rocco, tradução de Roberta Barni, 1996), talvez não seja memorável para qualquer um. É para mim. E o que vem em seguida não é menos: no hospital, Pessoa é visitado por um séquito de heterônimos antes de morrer.
5 Comentários
Tabucchi é um dos meus escritores mais queridos. Tenho diversos livros dele aqui na estante – curiosamente, não tenho nem li esta novela, mas sei que é uma obra-prima. Gosto muito do “Afirma Pereira”. Gosto também, bastante, do Tabucchi contista.
“Noturno indiano” é outra pequena obra-prima do Tabucchi — que aliás está a merecer, como diria o Pessoa, uma coluna do Sergio Rodrigues. Abs, Vitor
Poxa, pela quantidade pífia de comentários, imagino que quase ninguém conhece o Tabucchi…
Essa mesma sensibilidade, esse encantamento com o humano, é tão lindo quanto outro, que Tabucchi revela em um conto curto, ‘Los Volatiles de Fra Angelico’ (li em espanhol), em livro (de contos) com o mesmo título. Impecável, emocionante. Quem encontrar, compre sem medo.
Sou amigo pessoal de seu filho – Michelle Tabucchi. Este livro é fantástico. Talvez seja ele o italiano mais apaixonado pela lingua portuguesa.