Digo, senhores, que os detalhes lascivos não podem ser acobertados por uma conclusão moral, caso contrário poder-se-iam contar todas as orgias imagináveis, descrever todas as torpezas de uma mulher pública, fazendo-a morrer sobre uma miserável cama de hospital. Seria permitido estudar e mostrar todas as poses lascivas! Seria ir contra todas as regras do bom senso. Seria colocar o veneno ao alcance de todos e o remédio ao alcance de poucos, caso houvesse um remédio. Quem lê o romance do sr. Flaubert? Serão homens que se ocupam de economia política ou social? Não! As páginas levianas de ‘Madame Bovary’ caem em mãos mais levianas, nas mãos de moças, algumas vezes de mulheres casadas. Pois bem! Quando a imaginação tiver sido seduzida, quando essa sedução tiver descido até o coração, quando o coração tiver falado aos sentidos, pensais que um raciocínio frio terá suficiente força contra essa sedução dos sentidos e do sentimento?
Pouco depois, Pinard tenta se defender antecipadamente da acusação de ser um filisteu, de não entender bulhufas de arte, louvando a “literatura realista” que “pinta paixões: o ódio, a vingança, o amor; o mundo somente vive disso e a arte deve pintá-las”. O problema, acrescenta, é fazer isso “sem freios, sem medidas”. Vem então uma frase de estupidez lapidar:
A arte sem regras não é mais arte; é como uma mulher que tirasse todas as roupas.
Não fica claro se, para o autor, uma mulher deixa de ser mulher ao ficar nua, mas parece bastante evidente que a perspectiva dessa visão o enchia de terror. Flaubert acabou absolvido.
Não foi, porém, em busca desse humor fácil que emana dos escândalos morais do passado que voltei ao ensaio de Siti, um dos que integram o excelente compêndio “A cultura do romance”, organizado por Franco Moretti (Cosac Naify, 2009, tradução de Denise Bottmann). Ando, feito um detetive selvagem, à procura de evidências de que o romance não está morto, a fim de apresentá-las no dia 25 de outubro ao público da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), na qual dividirei uma mesa com o crítico e escritor Lars Iyer – que sustenta o contrário. Pelo menos, é essa a versão comicamente simplificada do debate que se dará daqui a três meses. A verdade é que Iyer, professor de filosofia de uma universidade inglesa e também romancista, publicou recentemente um instigante ensaio em que sustenta só ser possível escrever hoje com a consciência de que a festa da literatura acabou. Comentei o texto aqui quando a revista “Serrote” o traduziu. Eis um trecho:
Deixe claro seu sentimento de impostura. Você não é um autor, não no antigo sentido da palavra. (…) Não há nenhum prêmio para você na literatura, claro que não, nada para sua pompa insensata. Além disso, pouquíssimas pessoas estão lendo de verdade: atente para esse fato também. Ninguém está lendo, idiota! Existem mais romancistas do que leitores. Existem livros demais…
Se a impressão hiperbólica de que “ninguém está lendo” (a literatura dita séria) é difícil de negar, o ponto vulnerável dessa visão pós-apocalíptica talvez seja o fato de que o romance já nasceu em crise – e assim voltamos ao ensaio de Walter Siti. “Entre todos os gêneros literários, o romance é o único que tem necessidade de renegar-se a si mesmo”, afirma ele, fundamentando esse juízo com uma fartura de exemplos históricos. Nascido impuro, plebeu, bastardo, acusado desde sempre de ser fútil, mentiroso, superficial, passatempo de moçoilas, o gênero só se livrou da acusação de irrelevância quando passou a ser considerado perigoso por fazer o oposto do que se acreditava que fizesse até então: em vez de mentir, contar verdades que seria melhor manter ocultas. “Como uma mulher que tirasse todas as roupas”, na formulação de Pinard.
É essa glória ambivalente – a de ser visto como moral ou politicamente perigoso, como um instrumento capaz de cutucar feridas inacessíveis a qualquer outro tipo de sonda – que, tendo ficado irremediavelmente presa ao passado, parece alimentar visões crepusculares como a de Iyer. Que essa festa acabou não se discute. Nenhum de nós, escreva o que escrever, jamais será merecedor da ira de um Pinard. Salman Rushdie foi alvo de uma ira bem maior, é verdade, e a odiosa fatwa expedida por Khomeini em 1989 encerra como uma lâmina de gelo o apêndice de Siti. No entanto, como observa o crítico, trata-se de “um documento não ocidental, e não por acaso: o maior ataque dirigido ao romance hoje em dia no Ocidente não pode ser condensado em um documento, pois se encontra no que a teoria da informação chama de ‘ruído’.” Os inimigos atuais do romance seriam, assim, a “tolerância entendida como indiferença” e “as fantasias reificadas da mercadoria”.
Faltou dizer, mas acrescento eu, que seu maior aliado é o próprio passado de vira-lata tratado a pontapés. Bichos assim são duros de matar.
4 Comentários
Bom dia Sérgio!
Sem querer ser chato, mas, já sendo, acho que na sexta linha do sexto parágrafo onde se lê: “divirei”, deva se ler: dividirei.
Infelizmente tenho que dizer que gostava mais do antigo formato do blog, um texto por semana demora muito, vou continuar contigo, mas fique registrado meu protesto.
Cara, além de escrever miseravelmente BEM, tu é um oceano de sensatez.
Daria uma perna pra assistir esse debate. =)
Caro Felipe, obrigado. Ainda não decidi se “oceano de sensatez” é exatamente elogio, mas vou considerar que sim. (-; Um abraço.
Em finais do século XVII, Jonathan Swift reclamava da quantidade de escritores que a Inglaterra produzia em comparação com seus parcos leitores. Pouco depois, século XVIII, seu amigo, Alexander Pope, fez esta mesmíssima exclamação: Existem livros demais!