O gênio americano Edgar Allan Poe inventou praticamente sozinho a literatura de mistério e um bom pedaço da ficção científica, além de ter se tornado pai e mãe do gênero policial ao criar um detetive voltado para a pura dedução, Dupin, que torna Sherlock Holmes pouco mais que um discípulo esforçado.
Tudo bem, mas será que isso nos autoriza a imaginar que Poe concebeu o estranho enredo de sua própria morte, de modo a deixar um último mistério – insolúvel – para a posteridade? Ou essa idéia não passa de romantismo, fruto da inclinação que nós, leitores, temos por borrar as fronteiras entre vida e obra dos autores que admiramos?
O fato é que Poe foi visto gozando de boa saúde em Baltimore, em 1849, até sumir de circulação. Passou cinco dias desaparecido, e sobre o que fez nesse tempo nada se conseguiu apurar. Quando finalmente o descobriram num hotelzinho-taberna chamado Ryan’s, estava de cama, em estado lastimável, e morreu logo depois. Tinha 40 anos. Charles Baudelaire, seu fã, nunca duvidou de suicídio. Será? A história está no livro The Poe’s shadow (“A sombra de Poe”), de Matthew Pearl, que acaba de sair na Inglaterra, e do qual o Telegraph publica um trecho (acesso livre, em inglês).
6 Comentários
Sergio, acho que é isso, assim como milhares acreditam que “Elvis Presley nao morreu”, para todos nos, reles mortais, quando diante de genios nao QUEREMOS ACREDITAR QUE ELES SE FORAM e de uma maneira simples, doente e abandonado em um hotel. o Hotel é uma metafora de que ele nao encontrou um lugar “própio” (dele) para poder viver/descansar. E para morrer em paz. Uma vez, que nao tinha “vivido” em paz.
Assustadas noites, com olhares ressabiados para os cantos do quarto; ouvidos atentos a qualquer barulho inusitado;abajur aceso para espantar o medo…. não importa como morreu, importa como viveu e as maravilhas que escreveu!
Li alguns contos dele, são interessantes.
O autor usa do inconsciente e da histeria, que era muito comum na época.
Alguém se lembra de um conto de Poe em que um cientista, ou curioso, pede a um condenado à guilhotina para que pisque após ter sua cabeça rolada, para se certificar de que o cérebro ainda pensava depois disso… Não me lembro do título, se alguém puder refrescar minha memória….
Muito intrigante, Sérgio. Tenho uma publicação que diz assim: ” Após uma visita a N…. e R….para dar algumas palestras, ele foi encontrado inconsciente numa rua de B…., e levado a um hospital, onde ficou internado por cinco dias, com febre alta, tremores e delírios….Edema cerebral, indicava o diagnóstico publicado no breve obituário.
Me encanta sua viva inteligência:
” A profundidade se encontra nos vales em que a procuramos, e não no cume das montanhas onde ela se acha….Dirigir a uma estrela um rápido olhar, examiná-la oblíquamente, voltando para ela as partes exteriores da retina (mais sucetíveis às ligeiras impressões da luz que as interiores), é contemplar a estrela de maneira diferente, é apreciar melhor o seu brilho, brilho que diminui à medida que voltamos nossa visão em cheio para ela”.
(Os Crimes da Rua Morgue)
Nossa, saudades de Poe, que reli recentemente, numa análise de traduções. Vou voltar a ele.
Nossa, Letícia, não lembro – com certeza não li, vou pesquisar.