SOBRE LOLITA, DE VLADIMIR NABOKOV: “‘Lolita’ é inegavelmente uma novidade no mundo dos livros. Infelizmente, uma novidade ruim. Há duas razões igualmente sérias para que o livro não mereça a atenção de nenhum leitor adulto. A primeira é que ele é chato, chato, chato de um modo pretensioso, floreado e vazio. O segundo é que ele é repulsivo.” Orville Prescott, The New York Times.
SOBRE ‘O MORRO DOS VENTOS UIVANTES’, DE EMILY BRONTË: “Como pode um ser humano ter escrito um livro como esse sem cometer suicídio antes de completar uma dúzia de capítulos é um mistério. É um misto de depravação vulgar e horrores artificiais.” Graham’s Lady’s Magazine.
SOBRE ‘ABSALÃO, ABSALÃO’, DE WILLIAM FAULKNER: “Sério, eu não sei o que dizer desse livro a não ser que ele aponta a última erupção daquele que um dia foi um talento notável, ainda que menor… Trata-se de ficção barata disfarçada sob o rebuscamento da linguagem e com uma falsa profundidade conferida pela manipulação hábil de uma série de truques técnicos excêntricos.” Clifton Fadiman, The New Yorker.
SOBRE ‘O GRANDE GATSBY’, DE F. SCOTT FITZGERALD: “O Sr. Scott Fitzgerald merece uma boa sacudidela. Eis aqui um indiscutível talento que não tem vergonha de fazer papel de bobo à vista de todos. ‘O grande Gatsby’ é uma história absurda, quer a consideremos como romance romântico, melodrama ou registro realista da vida nas altas rodas de Nova York”. L.P. Hartley, The Saturday Review.
SOBRE ‘ULISSES’, DE JAMES JOYCE: “Parece ter sido escrito por um lunático pervertido que se especializou na literatura das latrinas… James Joyce é um escritor de talento, mas em ‘Ulisses’ deixou de lado toda a decência elementar da vida para chafurdar com gosto em coisas que despertam risos escarninhos em adolescentes imbecis.” The Sporting Times.
SOBRE MADAME BOVARY, DE GUSTAVE FLAUBERT: “Monsieur Flaubert não é um escritor.” Le Figaro.
E para ninguém pensar que só resenhistas estrangeiros correm o risco de tomar sorvete com a testa, anexo aqui como faixas-bônus dois exemplos clássicos de miopia crítica doméstica, o primeiro de Álvaro Lins e o segundo, insuperável, de Sílvio Romero, o grande (sem ironia) crítico sergipano que odiava Machado de Assis. Divirtam-se:
SOBRE ‘PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM’ E ‘O LUSTRE’, DE CLARICE LISPECTOR: “Um romance não se faz somente com um personagem e pedaços de romance. Romances mutilados e incompletos são os dois livros publicados pela sra. Clarisse (sic) Lispector, transmitindo nas últimas páginas a sensação de que algo essencial deixou de ser captado ou dominado pela autora no processo da arte da ficção”. Álvaro Lins.
SOBRE O CONJUNTO DA OBRA DE MACHADO DE ASSIS: “Esse pequeno representante do pensamento retórico e velho no Brasil é hoje o mais pernicioso enganador, que vai pervertendo a mocidade. Essa sereia matreira deve ser abandonada. (…) O Sr. Machado simboliza hoje o nosso romantismo velho, caquético, opilado, sem ideias, sem vistas, lantejoulado de pequeninas frases, ensebadas fitas para efeito. Ele não tem um romance, não tem um volume de poesias que fizesse época, que assinalasse uma tendência. É um tipo morto antes do tempo na orientação nacional.” Sílvio Romero em 1885, três anos após a publicação de “Papéis avulsos” e quatro depois de “Memórias póstumas de Brás Cubas”.
17 Comentários
Bah! Muito boa a coletânea de pérolas!
Como é mesmo aquela frase: “alguém já viu por aí a estátua de um crítico?”. Pois estes aí até que mereciam uma… ehe
Sérgio,
sendo um crítico de olhar aguçado e inteligente, você faria alguma ressalva positiva aos resenhistas citados, no sentido de eles terem acertado em considerar aspectos negativos nas obras? Pergunto porque li dois livros de Chesterton e não encontrei razão para gostar deles, ficando sempre a impressão, dada sua unanimidade, de que não captei alguma coisa essencial. Abraço.
Guilherme, obrigado pelas palavras gentis. No caso desses que escolhi acho difícil livrar a cara de alguém, mas a lista da Flavorwire tem coisas com as quais concordo em parte. Com a avaliação negativa de “Psicopata americano” do Bret Easton Ellis, por exemplo. Quanto a você não gostar de Chesterton, acho normal. Qualquer papo de unanimidade é sempre furado. Um abraço.
Os criticos estão certos. Nenhum desses livros vale a pena. Tem que ser muito intransigente para não reconhecer o valor da crítica. Eles tem todo o direito de ter sua opinião e de não serem ridicularizados por isso. Se os escritores não acham bom, que paguem um espaço para publicidade, ficar só escrevendo elogio é coisa de fanboy e não de gente que pensa.
Pois é, e veja que Álvaro Lins e Sílvio Romero são dois gigantes; dois mestres do ofício da crítica literária – como já nos assinalava o nosso grande Carpeaux.
As mais ‘deliciosas’ críticas da lista foram dirigidas a Joyce e a M. de A. Não tem como não rir!
E que valor tem uma obra além do valor que se lhe atribui?
Tá vendo? É isso. Uns escrevem, outros criticam e outros ainda criticam os que criticam. E por aí vai.
E que agora venham as críticas aos críticos.
Esses críticos literários espinafrando essas obras mais do que recomendadas fizeram-me lembrar de uma revista semanal que não perde uma oportunidade para denegrir um governo de um País, aprovado por 80% da população.
O que mais me chamou a atenção, Sergio, foi que todas as críticas invariavelmente são críticas morais em algum ponto. E é aí que elas pecam, pois o senso moral muda como o vento. Acho eu…
Caro Saraiva, fora os textos sobre F.S. Fitzgerald e Faulkner, em que o julgamento moral é menos explícito, e os brasileiros, em que não enxergo sinal dele, você teve uma ótima sacada. Mas haverá crítica em que a dimensão moral está inteiramente excluída?
Lembrei dessa aqui http://fitzgerald.narod.ru/critics-eng/mencken-gg.html
Sérgio, esse Clifton Fadiman, que resenhou Faulkner para o New Yorker, era primo do dito “homem mais inteligente da história”, William James Sidis, ex-prodígio e afilhado do William James.
Quanto aos críticos, no geral, não acredito que devam ser crucificados, uma vez que, afinal, apenas reproduziram opiniões que ainda hoje acham reflexo.
A maioria dos romancistas mencionados, aliás, tinha suas próprias canhestras opiniões sobre um ou outro “clássico”. Nabokov, por exemplo, não tolerava Dostoievski…
Aproveitando o gancho dos julgamentos morais, observo que o crítico que resenhou o Huckleberry Finn (um dos meus livros diletos), acusando-o de ter baixo nível moral (“their moral level is low”), foi menos severo do que seria um crítico da atualidade, na hipótese de Samuel Langhorne Clemens ser nosso contemporâneo e o livro ter sido editado recentemente.
Um livro em que um negro, o simpático e ignorante Jim, aparece numa posição subalterna, fiel como um cão a uma criança branca, o traquinas Huck, um livro em que o personagem principal simula, numa cena rica em detalhes, ter sido esquartejado e para assim enganar o seu pai e fugir pelo mundo atrás de aventura, um livro que não oferece nenhum exemplo que estimule a preservação da natureza e o amor à diversidade; pior ainda, um livro desses escrito para o público infantil! Alguém já parou para imaginar o tamanho da onda de resenhas expressando a mais sincera indignação e repulsa que tal livro provocaria?
Onofre, Anne Fadiman, filha do Clifton, é uma boa ensaísta. Gostei muito de Ex-Libris, sobre a paixão pelos livros.
Sergio,
Talvez mais triste seja que escritores tidos e havidos como grandes mostrem tamanha incapacidade de valorizar seus pares, como quando Virginia Woolf, Pessoa e Bernard Shaw, para ficar em alguns, rejeitaram o “Ulisses”. Lamentável cegueira, pra dizer o mínimo.
Abraço,
Paul
Pra quem quiser mergulhar nesses meandros, que por sinal são deliciosos, além do ensaio do Declan Kiberd na mais recente tradução do “Ulisses” tem também o “The Scandal of Ulysses”, do Bruce Arnold.
Grandes livros, críticos anões: uma seleção | Todoprosa - VEJA.com | LiterArte | Scoop.it
Ainda bem que o maior de todos os críticos literários tratou de corrigir esses julgamentos equivocados: O Tempo. O tempo nunca mata os heróis e nem os gênios, tratando-se de obras e feitos, é claro. Da mesma forma que ninguém deve gostar de um livro pelo motivo do mesmo ter sido apoteoticamente elogiado por um renomado critico literário, também não se deve apoderar-se da aversão de alguns críticos a determinados autores, seria muita alienação. O Fato de algum critico literário não gostar de Machado de Assis, Clarice ou Joyce… Não significa que ele está errado, mesmo que o mundo inteiro glorifique o escritor ele ainda tem o direito de não gostar…