Na votação dos cem maiores romances da língua espanhola dos últimos 25 anos, feita por críticos e escritores a pedido da revista “Semana” (veja nota abaixo), o romance “Rosario Tijeras”, lançado em 1999 pelo colombiano Jorge Franco (Alfaguara, tradução de Fabiana Camargo, 160 páginas, R$ 28,90), aparece na 87a posição. Pode parecer pouco. Não é. O número de bons autores que não chegaram a entrar na lista é grande o bastante para valorizar o feito desse escritor de 45 anos nascido em Medellín. O romance apresenta, numa narrativa supereditada e veloz, a história de uma assassina sexy do submundo de Medellín e dois rapazes de classe média apaixonados por ela. As semelhanças com uma certa corrente da literatura brasileira contemporânea fixada em sexo e violência — que podemos chamar de rubem-fonsequiana — são evidentes e curiosas. Mas os leitores que, até compreensivelmente, andam cansados do estilo devem levar em conta que “Rosario Tijeras” consegue trabalhá-lo com felicidade acima da média. O trecho abaixo abre o livro:
Como levou um tiro à queima-roupa ao mesmo tempo em que recebia um beijo, Rosario confundiu a dor do amor com a da morte. Mas tirou a dúvida quando afastou os lábios e viu a pistola.
— Senti um arrepio pelo corpo inteiro. Pensei que fosse o beijo… — me disse ela, desfalecida a caminho do hospital.
— Não fale mais, Rosario — disse-lhe, e apertando minha mão ela pediu que não a deixasse morrer.
— Não quero morrer, não quero.
Apesar de animá-la dando esperanças, minha expressão não a enganava. Até moribunda estava bela, fatalmente divina se esvaía em sangue quando entraram com ela na sala de cirurgia. A velocidade da maca, o vaivém da porta e a ordem estrita da enfermeira me separaram dela.
— Avisa a minha mãe — pude ouvi-la falar.
Como se eu soubesse onde morava sua mãe. Ninguém sabia, nem mesmo Emilio, que a conhecia tanto e teve a sorte de possuí-la. Liguei para ele. Ficou tão calado que tive de repetir o que eu mesmo não acreditava, mas, de tanto repetir para tirá-lo daquele silêncio, caí em mim e entendi que Rosario estava morrendo.
— Vamos perdê-la, cara.
Disse isso como se Rosario fosse dos dois, ou quem sabe tivesse sido um dia, num deslize ou no desejo constante dos meus pensamentos.
— Rosario.
Não me canso de repetir seu nome enquanto amanhece, enquanto espero que Emilio chegue, e ele certamente não virá, enquanto espero que alguém saia do centro cirúrgico e me diga alguma coisa. Amanhece mais lentamente do que nunca, vejo se apagarem as luzes do bairro alto de onde Rosario desceu.
— Olha bem para onde estou apontando. Lá no alto, sobre a fi leira de luzes amarelas, um pouco mais para o alto, fi cava minha casa. Ali deve estar dona Rubi rezando por mim.
Eu não vi nada, só seu dedo apontado na direção da parte mais alta da montanha, enfeitado com um anel que nunca imaginou que teria, e o braço mestiço e o cheiro de Rosario. Seus ombros de fora, como quase sempre, as camisetinhas minúsculas e os seios tão empinados quanto o dedo que apontava. Agora está morrendo depois de tanto se esquivar da morte.
— Ninguém me mata — disse certa vez. — Sou vaso ruim.
Se ninguém sai, é porque ainda está viva. Perguntei várias vezes, mas ninguém sabia me responder; não a registramos, não deu tempo.
— A menina, a do tiro.
— Aqui quase todo mundo chega baleado — informou a recepcionista.
Achávamos que fosse à prova de balas, imortal apesar de viver rodeada de mortos. Veio-me a certeza de que um dia nos alcançaria também, mas me consolei com o que Emilio dizia: ela tem um colete à prova de balas por baixo da pele.
— E por baixo da roupa?
— Carne firme — respondeu ele à brincadeira de mau gosto. — E contente-se em olhar.
21 Comentários
Não que seja ruim – não dá pra dizer, como levianamente fazem alguns, lendo apenas um fragmento, “é bom”, “é ruim” -, mas prefiro Marçal Aquino.
Também acho até meio leviano dizer pelas poucas linhas, mas estou contigo, Saint-Clair… sou mais o Marçal!
Então somos três, mas por que exatamente o Marçal veio parar aqui? Eles não são tão parecidos assim.
Sérgio,
O tema é à feição do Marçal… semelhança também no ritmo…
Bom, como eu disse no texto, são óbvias e curiosas as semelhanças com uma certa literatura urbana brasileira, da qual o Marçal é um expoente. Mas as diferenças não são pequenas também não. Como romancista, talvez se possa dizer que Jorge Franco tem a mão mais firme. Embora os melhores contos do Marçal precisem de menos palavras para serem melhores do que este romance. Enfim, comparações assim são sempre meio malucas. O que me espanta é a avaliação precoce de vocês dois. Abraços.
Pois é, concordo com o Sérgio.
Como dizer que não se pode afirmar isto ou aquilo tendo lido tão pouco e – imediatamente – ‘preferir’ o Marçal? E, antes que me haja mal entendidos, gosto muito, muito do Marçal. Mas vou ler Rosario Tijeras, conhecer Jorge Franco. Acho o mínimo para poder optar. Ou nem optar, não sei.
Rosario Tijeras: romance ou novela?
É romance, Claudio. Tem algumas características de novela, mas fôlego de romance curto (fronteira nebulosa, claro).
Marçal é bom. E podólatra (ou pedólatra). Note a fixação dele pelos pés de Lavínia em “EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS TEUS LINDOS LÁBIOS”. Escritores comumente se traem, nos personagens.
Schultz,
Pô, vc acha que o autor sempre joga a realidade pessoal dele no texto?
Quer dizer que se um personagem comete um estupro é porque o escritor estuprou na vida real?
Cara, essa é mutcho louca!!!
Engraçado: no meu livro tem alguns contos gays, mas os gays que aparecem neles são sempre fracos, indecisos, inseguros (vide “Ísis ou A decifração”). Mas eu, pessoalmente, não sou assim. Nos meus contos, as mulheres é que mandam: são sempre as mais fortes, as mais cruéis, as que arregaçam as mangas e vão em frente. Será que isso indica que eu odeio ser gay e queria ser mulher? Acho que não. Nunca me vi ou me quis mulher. Schultz, acho que essa sua teoria está meio furada (não porque esteja essencialmente errada mas porque não há uma maneira 100% garantida – aliás, nem 50 ou 25% – de conseguir separar o que é projeção do que é ficção).
Sérgio: da minha parte, o Marçal veio parar aqui por uma certa afinidade com o autor argentino, nessa coisa meio “vida bandida”. E porque ambos são bem visuais. Mas eu gosto mais do rítmo do Marçal.
Ô Saint-Clair: manda um conto teu para o Marcelino Freire (ou pro Nazarian)!
Ih Schultz, esse negócio de crítica biográfica (ou psicológica, sei lá) sobre uma obra é sempre muito complicado. Pode acontecer. Mas, não é sempre.
Sérgio: engraçada a distinção entre romance, novela e conto na wikipedia. Já viu? (Vale como curiosidade.)
Eles já estão com a antologia deles fechada, Claudio. E vai ser só de bam-bam-bans: dos 24 autores, apenas um é desconhecido.
O que anda me incomodando nessas antologias gays que foram/serão lançadas é o fato de que a maior parte dos autores NÃO é gay. Qual é a graça de se lançar “antologias de contos gays” em que os autores não são gays? É a mesma coisa de se lançar uma antologia de contos negros (não confundir com “contos de humor negro” ou “contos policiais”, pelamordedeus), com escritores que não são negros. Percebeu a bizarrice da idéia? Pra mim soa tão estranho que deveria figurar aqui em NoMínimo, naquela seção “Nonsense”.
Pois é Saint-Clair.
Escritor que se mete a criar “antologias” (no exemplo citado, agrupada por temática) deveria pelo menos tentar fazer diferente, trazer algo (mais) de novo, não é?
Tem uma “jogo de palavras” do Lacan que poderia muito bem ser aplicado a essas “pseudo-antologias”: estão sempre do lado do “faire savoir” e não do lado do “savoir faire”. Bom, mas aqui o papo seria longo.
Essas “antologias” serão sempre “antologias de A ou B”, uma espécie de “Ophra’s Book Club” (muito em voga).
Sempre pecam por serem “entrópicas” (entendeu?).
Bom, mas acho que é para isso que serve as “ANTOlogias” (Ah, qs me esqueci: como caça-níqueis tb.)
Mais: na minha opinião os seus contos (nas suas diversas temáticas) são muito bons.
Claudio: brigado pelo elogio aos meus contos.
Eu nem posso falar “mal” do Nazarian ou do Freire, pessoas que se mostraram sempre simpáticas nos (poucos) contatos que com elas estabeleci – sem contar que gosto muito da literatura produzida pelos dois (pronto: prevejo toneladas de pedras jogadas sobre a minha cabeça). A escolha deles, de privilegiar “contos gays” ao invés de “escritores gays que produzem literatura gay” me parece reveladora. De quê ou do quê, deixo à inteligência do leitor concluir. É uma opção, e portanto deve ser respeitada. Mas não é a única: eu, por exemplo, se fosse fazer uma antologia gay, teria dois critérios norteadores: A) seus escritores deveriam ser, necessariamente, gays e B) privilegiaria os desconhecidos, gente que está (mas será que tem gente assim no Brasil?) produzindo nesse exato momento o que poder-se-ia chamar, sem receio, de “literatura gay”. Mas acho que, nesse campo, ainda temos muito que crescer.
P.s.: Sobre literatura gay em língua portuguesa, sugeriria o magnífico ensaio do crítico, poeta, ficcionista e ensaísta português Eduardo Pitta (nada a ver com os nossos tristes Pittas da política brasileira), infeliz e injustamente desconhecido no Brasil, ensaio esse intitulado “Fractura – A condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea”, em que o autor propõe uma diferenciação entre “literatura gay” e “literatura homossexual”. É uma proposta bem interessante, mas não dá pra falar sobre isso aqui. Seja como for, o ensaio de Pitta, ao contrário do que indica seu subtítulo, não se detém só na literatura portuguesa contemporânea: estende-se também à brasileira. O Pitta tem um site: http://www.eduardopitta.com
Fala Saint-Clair. Tb não posso falar deles; muito menos como escritores (nunca li nada dos dois e é bem provável que não leia tão cedo). Conheço-os dos blogs, sites que afirmam “discutir” literatura brasileira.
“Seus ombros de fora, como quase sempre, as camisetinhas minúsculas e os seios tão empinados ”
Me deu até agua na boca, um Tgrandão.
sera que ela morre ? Que desperdício.