Um livro novo do inglês Ian McEwan é sempre algo a ser aguardado com certa ansiedade. Afinal, estamos falando do sujeito que escreveu “Reparação”, que é sem dúvida um dos grandes romances deste início de século – ou o maior deles, dependendo da facilidade com que alguém se deixa levar pelos superlativos, mas dá no mesmo.
O novo livro de McEwan se chama “Solar” e vai ser lançado no Reino Unido no próximo dia 18. Mantendo o movimento pendular entre o romance de época e o romance agudamente contemporâneo de sua carreira recente – “Reparação” (passado), “Sábado” (presente), “Na praia” (passado) – o livro tem como tema central a mudança climática. McEwan fez uma viagem ao Ártico como parte do trabalho de pesquisa e criou um protagonista, o físico Michael Beard, que é vencedor do Nobel e tem idéias sofisticadas sobre a salvação do planeta por meio da “fotossíntese artificial”.
Mas o mais notável não é isso. Em entrevista ao jornal “Guardian” (em inglês, acesso gratuito), o autor – que pela crueldade de suas tramas ganhou de seus conterrâneos o apelido de Ian Macabro – confirma os rumores de que “Solar” é uma comédia:
“Na verdade, eu acho os romances que estão dispostos a ser engraçados o tempo todo bastante opressivos”, explica ele. “Mas a comédia num sentido mais geral, sim. Ela lhe permite arredondar as quinas do realismo. Você consegue ser mais ágil, tocar o barco ligeiramente mais depressa na trama, ser um pouquinho menos sóbrio no julgamento do que pode acontecer.”
Talvez, levando-se em conta o tema, essa seja apenas uma forma de ser ainda mais macabro.
11 Comentários
Por que insistes no “macabrismo”????
Provavelmente é mais macabro rir dos leitores perdidos às voltas com um romance inclassificável, do que fazê-los rir com tramas meio rasas. Gostei demais de Atonement, mas nem sabia da faceta contemporânea dele.
Solar é o título em inglês do livro?
Eu adorei Reparação e fiquei admirada com “Na praia”. Ainda não li Sábado e fiquei curiosa com “A criança no tempo”, mas muito mãezona (com todo o superlativo que isso possa ter rsrsrs) não tive coragem de encarar.
Vamos ver o que nos reserva seu novo romance. Às vezes um autor tenta fugir do seu estilo e acaba tropeçando.
Se eu fosse escrever um romance sobre o aquecimento global (não e o caso, não escrevo romances), iria sem dúvida alguma seguir a linha inaugurada por Voltaire no Cândido. Todo cientista, afinal, mesmo aquele que adota o discurso escatológico, tem algo do Dr. Pangloss, o personagem que Quincas Borba, já enloquecido, considerava o mais injustiçado da literatura.
Embora seja um problema contemporâneo, a especulação atrás de soluções científicas torna o livro uma ficção científica, mesmo que disfarçada e satírica.
O melhor da entrevista do McEwan está nesta frase: “mas eu então pensava, como hoje penso, que Finnegans Wake foi uma heróica ordem de ataque rumo a uma rua sem saída, o que a todos poupou do esforço. Por mais brilhante que seja, o livro demonstrou que, no final das contas, a literatura tem que comunicar de uma maneira algo imediata.”
Eis uma afirmativa que merece reflexão.
Ótima notícia, Sérgio! Já vou ficar na expectativa pela tradução e o lançamento de “Solar”. E, Ana Cristina, não deixe de ler “Sábado” quando tiver oportunidade. A passagem em que Henry Perowne, protagonista da história, descreve sua sensação ao ver o ensaio da banda de blues do filho e discorre sobre a música é das coisas mais lindas que já li.
Fiquei encantando com a escrita majestosa de McEwan em “A praia”, depois cheio de medo com os contos de “In between the sheets”. Agora estou no meio de “Amsterdam” e digo que, pelo menos até a metade, é um romance que por trás da leveza da escrita guarda uma fúria que ataca a vida de qualquer um. Estou esperando por “Solar”. Obrigado pelo link da entrevista, Sérgio.
McEwan faz comédia com o aquecimento global « Substantivo Plural
SR e demais admiradores de Ian McEwan, vocês já leram Kazuo Ishiguro, especificamente ‘Quando éramos órfãos’? Se sim, o que acharam? Um abraço a todos.
Ah, ali também estava me referindo ao post ‘Não confie nesses caras’.