Clique para visitar a página do escritor.

McEwan faz comédia com o aquecimento global

08/03/2010

Um livro novo do inglês Ian McEwan é sempre algo a ser aguardado com certa ansiedade. Afinal, estamos falando do sujeito que escreveu “Reparação”, que é sem dúvida um dos grandes romances deste início de século – ou o maior deles, dependendo da facilidade com que alguém se deixa levar pelos superlativos, mas dá no mesmo.

O novo livro de McEwan se chama “Solar” e vai ser lançado no Reino Unido no próximo dia 18. Mantendo o movimento pendular entre o romance de época e o romance agudamente contemporâneo de sua carreira recente – “Reparação” (passado), “Sábado” (presente), “Na praia” (passado) – o livro tem como tema central a mudança climática. McEwan fez uma viagem ao Ártico como parte do trabalho de pesquisa e criou um protagonista, o físico Michael Beard, que é vencedor do Nobel e tem idéias sofisticadas sobre a salvação do planeta por meio da “fotossíntese artificial”.

Mas o mais notável não é isso. Em entrevista ao jornal “Guardian” (em inglês, acesso gratuito), o autor – que pela crueldade de suas tramas ganhou de seus conterrâneos o apelido de Ian Macabro – confirma os rumores de que “Solar” é uma comédia:

“Na verdade, eu acho os romances que estão dispostos a ser engraçados o tempo todo bastante opressivos”, explica ele. “Mas a comédia num sentido mais geral, sim. Ela lhe permite arredondar as quinas do realismo. Você consegue ser mais ágil, tocar o barco ligeiramente mais depressa na trama, ser um pouquinho menos sóbrio no julgamento do que pode acontecer.”

Talvez, levando-se em conta o tema, essa seja apenas uma forma de ser ainda mais macabro.

11 Comentários

  • Rosângela 08/03/2010em19:37

    Por que insistes no “macabrismo”????

  • Hugo Crema 08/03/2010em20:48

    Provavelmente é mais macabro rir dos leitores perdidos às voltas com um romance inclassificável, do que fazê-los rir com tramas meio rasas. Gostei demais de Atonement, mas nem sabia da faceta contemporânea dele.
    Solar é o título em inglês do livro?

  • Ana Cristina Melo 09/03/2010em08:14

    Eu adorei Reparação e fiquei admirada com “Na praia”. Ainda não li Sábado e fiquei curiosa com “A criança no tempo”, mas muito mãezona (com todo o superlativo que isso possa ter rsrsrs) não tive coragem de encarar.

    Vamos ver o que nos reserva seu novo romance. Às vezes um autor tenta fugir do seu estilo e acaba tropeçando.

  • Rafael 09/03/2010em09:16

    Se eu fosse escrever um romance sobre o aquecimento global (não e o caso, não escrevo romances), iria sem dúvida alguma seguir a linha inaugurada por Voltaire no Cândido. Todo cientista, afinal, mesmo aquele que adota o discurso escatológico, tem algo do Dr. Pangloss, o personagem que Quincas Borba, já enloquecido, considerava o mais injustiçado da literatura.

  • Tibor Moricz 09/03/2010em10:13

    Embora seja um problema contemporâneo, a especulação atrás de soluções científicas torna o livro uma ficção científica, mesmo que disfarçada e satírica.

  • Rafael 09/03/2010em10:31

    O melhor da entrevista do McEwan está nesta frase: “mas eu então pensava, como hoje penso, que Finnegans Wake foi uma heróica ordem de ataque rumo a uma rua sem saída, o que a todos poupou do esforço. Por mais brilhante que seja, o livro demonstrou que, no final das contas, a literatura tem que comunicar de uma maneira algo imediata.”
    Eis uma afirmativa que merece reflexão.

  • Alessandro 09/03/2010em18:56

    Ótima notícia, Sérgio! Já vou ficar na expectativa pela tradução e o lançamento de “Solar”. E, Ana Cristina, não deixe de ler “Sábado” quando tiver oportunidade. A passagem em que Henry Perowne, protagonista da história, descreve sua sensação ao ver o ensaio da banda de blues do filho e discorre sobre a música é das coisas mais lindas que já li.

  • Leonardo Villa-Forte 09/03/2010em19:14

    Fiquei encantando com a escrita majestosa de McEwan em “A praia”, depois cheio de medo com os contos de “In between the sheets”. Agora estou no meio de “Amsterdam” e digo que, pelo menos até a metade, é um romance que por trás da leveza da escrita guarda uma fúria que ataca a vida de qualquer um. Estou esperando por “Solar”. Obrigado pelo link da entrevista, Sérgio.

  • Thiago Maia 11/03/2010em16:32

    SR e demais admiradores de Ian McEwan, vocês já leram Kazuo Ishiguro, especificamente ‘Quando éramos órfãos’? Se sim, o que acharam? Um abraço a todos.

    • Thiago Maia 11/03/2010em22:10

      Ah, ali também estava me referindo ao post ‘Não confie nesses caras’.