Eles evitam o rótulo de escritores politicos – ela diz que sua literatura é “existencial” e ele, que seu foco é a moral humana –, mas a verdade é que a política foi tema quase onipresente na mesa “Promessas de um Velho Mundo”, que reuniu a iraniana Azar Nafisi e o israelense Abraham B. Yehoshua, sob a mediação de Moacyr Scliar. A política e o presidente Lula, alvejado de ambos os lados com críticas e ironias.
“O conflito entre Israel e Palestina é o mais antigo do mundo moderno, tem 120 anos. Precisamos de ajuda da comunidade internacional para resolver a questão e poder ajudar tanto palestinos como israelenses. Talvez Lula… Ele já esteve lá, em Israel, ele estava sorrindo, estava todo feliz”, disse Yehoshua, lembrando a viagem feita por Lula este ano a Israel, quando o petista deixou de visitar pontos considerados importantes para a história israense, por lembrarem o Holocausto.
Antes, Azar havia lembrado a hesitação de Lula em intervir na questão de Sakineh Ashtiani, iraniana condenada à morte por apedrejamento por um suposto adultério. Lula acabou oferecendo asilo politico – negado pelo Irã – após uma campanha para que tomasse uma attitude a respeito do caso. Eu sei que o presidente Lula disse, no início, que não era papel dele intervir. “Mas, ao não intervir, você já está intervindo. Não há inocência nesse mundo”, ponderou Azar. A escritora foi muito aplaudida pela plateia, que estava lotada.
Em seguida, Azar criticou a declaração de Lula de que Sakineh estaria causando incômodo a Ahmadinejad – como já fez a VEJA Meus Livros. “Lula disse que reeberia Sakineh se ela estivesse incomodando Ahmadinejad. Se ele for considerar todos os que incomodam o senhor Ahmadinejad, 80% do Irã terá de vir ao Brasil. Todos os que fogem dos padrões radicais do governo incomodam Ahmadinejad.”
Com humor ácido, Yehoshua deu uma sugestão: em vez de dar asilo a Sakineh, o Brasil deveria receber Ahmadinejad – e deixá-lo na Amazônia. O israelense também se solidarizou com o exílio de Azar, considerada persona non grata em Irã desde que se recusou a usar burca e passou a criticar o governo do país, que sempre faz questão de lembrar que é ilegítimo, fruto de uma fraude eleitoral. “Eu sinto o luto interno de Azar Nafisi. Seus cheiros de infância estão perdidos.”
A influência de sua origem na escrita foi um dos temas de Azar: ela disse ter começado a escrever para responder a um censor interno, que não queria se dobrar aos rigores do regime islâmico. Sua história explica o que pensa da literatura: uma poderosa arma de transformação. Nada permanence igual depois de ler um grande livro. A literatura sempre está aí para subverter e mexer com a política, se tornar a sua consciência. Mas nunca deve ser da mesma textura da política, disse a escritora.
Azar defende a literatura que gera inquietação, que, “complica as coisas”, que gera questinamento – da mesma forma como se mostra contente por ver iranianos questionando os rumos de seu país – e mostrou ter lido o ultimo romance de Yehoshua, Fogo Amigo, ao dizer que, no livro, o problema é o inimigo interno. “O amigo que mata.”
Yehoshua também aravessou a obra mais importante de Nafisi, Lendo Lolita em Teerã, que ficou 117 semanas na lista de livros mais vendidos do jornal The New York Times e deu fama internacional à autora. Ele ressaltou que o trabalho de Azar em ler e discutir romances com suas alunas, no Irã, era um caminho para penetrar o seu íntimo, fazê-las pensarem si mesmas e adentrar sua moral.
A moral é a matéria-prima de Yehoshua. O israelense advoga pela retomada da moral por parte da literatura, que, segundo ele, tem dado preferência à psicologia como forma de explicar o mundo. E o mundo deve mudar, afirmam os escritores que não se dizem politicos.
Por Maria Carolina Maia
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