Para se ter uma idéia de como mudou a cabeça da humanidade sobre armas nucleares: há mais de 60 anos, em julho de 1946, o primeiro teste nuclear americano no Atol de Bikini, no Pacífico – o primeiro realizado debaixo d’água – soava tão glamouroso que o lugar batizou uma escandalosa novidade adotada pelas banhistas da Riviera francesa pouco tempo depois. Não é provável que “Coréia do Norte” tenha destino sequer va...
Não é um estudo científico, mas o resultado da pesquisa feita pelo blogueiro e autor americano de fantasia Jim C. Hines com 246 romancistas publicados – aqui e aqui – derruba alguns mitos persistentes no mercado: 1. O de que é possível fazer sucesso do dia para a noite: o grupo mais numeroso de entrevistados levou onze anos entre começar a escrever e publicar seu primeiro livro – e houve quem levasse mais de quarenta. 2....
Um dos maiores prazeres da rede mundial de computadores é, no meio da barafunda de informações – que, dizem, logo vai nos afogar – encontrar aqui e ali convergências e cruzamentos, nós de concordância ou de tensão. Quando ligamos os pontinhos para destilar algum sentido da geléia geral, pagamos tributo à etimologia da palavra “inteligência” e adiamos mais um pouco a tal submersão. Isso acaba de ocorrer com a idéia de...
É divertido, de um jeito constrangedor, esse vídeo em que o escritor inglês Geoff Dyer, num evento em Adelaide, tenta fazer uma piadinha de salão com seu anfitrião J.M. Coetzee. Explicação de The Elegant Variation, onde descobri a coisa: “Coetzee não tem músculos faciais”....
A amiga Marina Lemle pergunta como e por que “espinafrar” virou, na linguagem informal brasileira, sinônimo de repreender duramente, passar uma descompostura em alguém, ou ainda criticar de forma arrasadora. O que o inocente espinafre, verdura imortalizada pelo marinheiro Popeye e tão valorizada pelas mamães, tem a ver com isso? Segundo o etimologista Silveira Bueno, nada. Vejam o que ele diz sobre espinafrar: “Palavra da gír...
Os dois são famosos por sua reclusão. Os dois são contistas maiores com muitas décadas de carreira. E, curiosamente, estiveram no noticiário esta semana desempenhando papéis opostos: Rubem Fonseca, o de mestre fofo e feliz da jovem escritora Paula Parisot; Dalton Trevisan, o de ex-mestre rancoroso e arrependido do escritor de meia-idade Miguel Sanches Neto. As relações atribuladas entre mestre e discípulo no meio literário sã...
O lançamento de “Sobrescritos” em Porto Alegre, na próxima segunda, dia 22, na Palavraria, ganhou uma participação especialíssima: Claudia Tajes, fina cultora da ficção cômica, autora de “As pernas de Úrsula” e “A vida sexual da mulher feia”, vai bater um papo comigo antes da tradicional sessão de autógrafos. Colorados e gremistas estão todos convidados: Falando em ficção cômica, peço licença aos leitores pa...
Quer virar escritor? Beba muito café. O aditivo é, disparado, o mais popular entre os trinta escritores brasileiros a quem Michel Laub, numa enquete divertida, perguntou sobre rituais, superstições e manias na hora de escrever – aqui. Eu mesmo não citei a maravilhosa infusão em meu depoimento, mas bem poderia ter citado. Pois é: as tais “portas da percepção” de Aldous Huxley já foram menos legais. Laub, que também é ro...
O crítico literário inglês Terry Eagleton é um bicho meio raro nos dias de hoje: um intelectual que, entre uma visão de mundo pautada no marxismo e a reflexão livre e iconoclasta, fica com as duas. Presença confirmada na Flip deste ano, em agosto, só resta lamentar que dois de seus maiores adversários intelectuais tenham vindo em outras edições do evento – Martin Amis em 2004 e Christopher Hitchens em 2006. Do contrário, p...
Eu quase nunca concordava com o crítico Wilson Martins. Ao longo de muitos anos, talvez se contem nos dedos de uma mão as ocasiões em que terminei de ler uma resenha sua sem ter com ela alguma divergência grave, um ou mais pontos em que nossos credos estéticos pareciam água e óleo. O que demorei mais a descobrir foi que, por baixo de toda aquela discussão, havia uma concordância maior, um pacto sem a qual ela, a discussão, cai...
O leitor Alexandre Telles pergunta pela origem da palavra “chiste”, que quer dizer gracejo, dito espirituoso, piada curta. Segundo o Houaiss, o termo foi importado do espanhol chiste, forma regressiva do verbo chistar. O curioso é que a formação de chistar parece ser onomatopaica, ou seja, imitativa do som – não é gratuita, portanto, a semelhança sonora de “chiste” com a interjeição “psit”. Chistar é, na origem, ...
Nada como um espírito-de-porco ou advogado do diabo para nos fazer pensar com mais lucidez quando todo mundo fica histérico. Levi Asher, do Literary Kicks (via blog de livros da “New Yorker”), ousa insinuar que o rei está nu: Muitos observadores esperam que o mercado de livros eletrônicos acompanhe a velocidade do mercado de música, que se tornou subitamente digital no início dos anos 2000 e que hoje, provavelmente, gu...
O livro Reality hunger, a manifesto (“Fome de realidade, um manifesto”), do escritor e ex-romancista americano David Shields, saiu há apenas duas semanas nos EUA e já está provocando – tanto na internet quanto na imprensa tradicional – um dos debates estéticos mais quentes dos últimos anos. Sua intenção nunca foi outra, claro. O livro é uma coleção de seis centenas de aforismos e micro-ensaios (muitos assumidamente chu...
Imperdível: no blog de Paulo Roberto Pires, o escritor holandês Cees Nooteboom procura, no cemitério São João Batista, o túmulo do escritor brasileiro Machado de Assis. “Quem?” Tarefa imperdoavelmente difícil....
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Um livro novo do inglês Ian McEwan é sempre algo a ser aguardado com certa ansiedade. Afinal, estamos falando do sujeito que escreveu “Reparação”, que é sem dúvida um dos grandes romances deste início de século – ou o maior deles, dependendo da facilidade com que alguém se deixa levar pelos superlativos, mas dá no mesmo. O novo livro de McEwan se chama “Solar” e vai ser lançado no Reino Unido no próximo dia 18. Man...
Gringo é um termo de conotações pejorativas que os mexicanos, no século XIX, tornaram praticamente sinônimo de americano. Nem sempre foi assim. “Gringo” é uma variação do espanhol griego, “grego”, e surgiu na Espanha – consta que primeiro em Málaga, depois em Madri – para designar de forma jocosa qualquer estrangeiro que falasse “enrolado”, especialmente os irlandeses. Vê-se entre nós a permanência da idéia ...

