A reforma gráfica e editorial que o jornal “O Estado de S. Paulo” estreará no próximo dia 14 inclui uma novidade de grande relevância para o meio ambiente literário, especialmente num clima global em que os suplementos de livros da grande imprensa só fazem encolher ou morrer: um caderno dedicado à literatura – aos sábados, naturalmente – chamado Sabático. Está certo que o nome soa pernóstico, mas, antes mesmo de ver o...
Em primeiríssima mão, divido com os leitores do Todoprosa o teaser internético do meu livro “Sobrescritos ” (Arquipélago Editorial), nas livrarias semana que vem. A obra é de Leon Vilhena, jovem e talentoso profissional da animação carioca, que tem a Globosat entre seus clientes. O áudio vem a ser uma leitura minha, em versão ligeiramente editada, do conto que encerra o livro, chamado “Virtual”. Quem gostar e quiser esp...
Cristovão Tezza fará amanhã – o que, com o fuso horário, significa daqui a algumas horas – uma palestra na Austrália, como convidado do Festival de Artes de Adelaide, onde foi parar a bordo do sucesso de seu romance “O filho eterno”. Por email, entre uma Foster’s e outra, o escritor catarinense achou tempo para uma conversa sobre suas experiências nesta fronteira que, de tão pouco explorada, é quase selvagem: a da verd...
A melhor forma de homenagear o bibliófilo José Mindlin, que morreu ontem aos 95 anos, é com livros. Como os desta lista “de e sobre Mindlin” que o site O Livreiro publica. Certamente não é com a disputa açodada pela vaga que ele deixa na Academia Brasileira de Letras – iniciada ontem mesmo, segundo o colunista Ancelmo Gois, e tendo Fernando Henrique Cardoso e Ziraldo em posições de aparente favoritismo. * Está rolando, po...
Sempre me intrigou que o presépio, singela representação do nascimento de Jesus Cristo numa estrebaria, tenha tido na língua brasileira filhotes pejorativos como “presepada” (palhaçada) e “presepeiro” (fanfarrão). Vinda do latim praesepium, que quer dizer apenas curral, cercado onde se guardam animais, a palavra “presépio” existe no português desde o século XIV, com sentido exclusivamente religioso. Quem passa mais ...
Você já ouviu a voz de Monteiro Lobato? Eu nunca tinha ouvido até a Isabel Pinheiro, todoprosista de longa data, me enviar o link dessa entrevista ao “radiologista” (a piada é lobatiana) Murilo Antunes Alves, da Rádio Record, em 1948. O grande escritor tinha 66 anos, idade avançada para a época, e logo sofreria um derrame fatal. Atenção: se você ainda não ouviu isso, a visita é obrigatória. A entrevista tem outras duas ...
A tradutora e blogueira Denise Bottmann, do site Não Gosto de Plágio, precisa de ajuda. Caçadora mais ou menos solitária de picaretas editoriais, está sendo processada pela editora Landmark, que pede ao juiz indenização mais a retirada de seu blog do ar – informa Alessandro Martins, do blog Livros e Afins. Tudo por ter denunciado que a tradução de “Persuasão”, de Jane Austen, lançada pela Landmark com a assinatura de um...
Não, o livro de papel não morre tão cedo, e a prova disso é que está nascendo mais um. Com o bicho na gráfica e o lançamento carioca marcado para a noite de 10 de março, uma quarta-feira, na Travessa de Ipanema, tenho o prazer de adiantar aqui o texto da orelha de “Sobrescritos” (Arquipélago Editorial), assinado por Arthur Dapieve: As pessoas coçaram atrás da orelha. Depois, porém, as pessoas coçaram atrás da o...
Algo estranho aconteceu com os narradores não confiáveis em meados do século 20: eles se tornaram um pouco mais confiavelmente não confiáveis, e muito mais vis. Em fins do século 19 eles tendiam a ser pouco dignos de crédito por estarem escondendo alguma coisa sobre si mesmos ou não conseguirem enxergar a verdade, em geral devido a algum tipo de fraqueza psicológica. No entanto, à medida que o modernismo caminhou para o pós-m...
Onde termina o sampling e começa o plágio, eis a questão. Que não é inteiramente nova: pouca gente deve se lembrar, mas em maio de 2006 uma estudante de Harvard chamada Kaavya Viswanathan (leia post da época aqui) foi do céu ao inferno quando descobriram que seu badaladíssimo romance de estréia era na verdade uma colagem de diversas obras. A novidade do caso recente (em inglês) da alemã Helene Hegemann, 17 anos, de roteiro in...
Todo cuidado é pouco com essa máscara, viu, Vi? Não, sua boba, empresto com prazer porque você sabe que é a minha neta preferida, e além disso tem outras coisas, sinto um arrepio só de imaginar que a minha máscara negra veneziana nariguda vai se soltar por essas ruas outra vez depois de meio século guardada numa caixa de chapéu com a tampa afundada, devia andar triste, a coitadinha, olha só esses olhos vazados caídos, tão m...
“Gandaia” – vadiagem, esbórnia, orgia, pândega, bandalha, folia – é palavra antiga e misteriosa. O Houaiss registra duas teses principais sobre sua origem: Bluteau (1713) registra assim: “Gandaya, Gandáya (como quando se diz) Andar à gandáya. He andar buscando no lixo, & nas enxurradas, ferrinhos, & outras cousas, que a agoa leva”. E ainda: Corominas, s.v. gandaya ‘especie de redecilla para el cabello...
O suplemento cultural (com ênfase em literatura) do jornal espanhol “El País”, chamado Babelia, que sai todo sábado, é um dos melhores do mundo no gênero e um velho conhecido, por meio de incontáveis links aparecidos aqui, dos leitores do Todoprosa. A novidade é que este mês a equipe que o produz estreou um blog coletivo, Papeles Perdidos, que desde já é parada obrigatória no roteiro da boa navegação literária....
Duas notícias recentes no “Guardian” (em inglês, acesso gratuito) são mais que suficientes para, com o auxílio de algumas gotas de predisposição apocalíptica, fazer o sujeito calcular que as fronteiras entre realidade e ficção estarão definitivamente apagadas ali pela altura de setembro de 2019. A primeira nota fala do vexame sofrido pelo filósofo pop francês Bernard-Henri Levy ao dar crédito em seu último livro a um c...
Ele hesita, dedos de velho datilógrafo repousando sobre o asdfg e o çlkjh, polegares suspensos. Ele se vê hesitando, dedos de velho datilógrafo, emblema de sua idade, repousando com suavidade de pluma sobre o asdfg e o çlkjh do teclado negro, polegares suspensos a milímetros da barra de espaço. Ele decide escrever sobre se ver hesitando escrever, e então os dedos datilógrafos ganham uma súbita descarga elétrica e se põem a c...
“A comédia me parece ser tudo o que resta para um escritor trabalhar no mundo atual. Drama, romance, épico, tudo isso de alguma forma parece corresponder a outras épocas, a outras formas de ver o mundo.” A declaração do inglês Martin Amis, em entrevista que fiz com ele para o “Jornal do Brasil” em 2001, é categórica demais para não conter muito de exagero. Mesmo assim, nunca mais a tirei da cabeça. De vez em quando me ...
O leitor Daniel Brazil pergunta de onde vem o arco-da-velha, hoje presente quase exclusivamente na expressão “do arco-da-velha”, que significa “inacreditável, inverossímil, fantasioso”. Bem, arco-da-velha é simplesmente um dos nomes tradicionais do arco-íris. É sinônimo de arco-da-aliança, arco-celeste, arco-da-chuva e arco-de-deus. Como todos esses termos, anda em desuso. E por que da velha? O que uma senhora idosa tem ...

