Clique para visitar a página do escritor.
Começos (ainda) inesquecíveis: E.L. Doctorow

Ninguém tomava ao pé da letra as coisas que Martin Pemberton dizia; ele era melodramático demais, ou atormentado demais, para falar sem floreios. Por isso as mulheres o achavam atraente – viam-no como uma espécie de poeta, embora ele fosse mais crítico do que poeta, um crítico de sua própria vida e época. Assim, quando Martin começou a dizer que seu pai ainda estava vivo, nós que o ouvíamos falar e nos lembrávamos de seu p...

Lendas etimológicas: Coitado
NoMínimo / 22/08/2009

A associação de palavras é um jogo curioso. De repente, surfando a onda dos debates exasperados sobre “judiar” e “denegrir”, são muitos os leitores que me perguntam ao mesmo tempo sobre “coitado”. Não chego a entender bem por que isso acontece, o fato é que a palavra se impõe. Querem saber se é verdade que vem de coito, cópula, e significa em sua origem “submetido a coito, fodido”. Não, não é verdade. Não en...

Uma criança no Inferno
NoMínimo / 21/08/2009

Devo a uma repórter que teve recentemente a desfaçatez de me fazer uma pergunta batida – “Qual foi o primeiro livro inesquecível da sua vida?” – o retorno de uma memória poderosa que se encaixa bem na discussão que andou rolando na caixa de comentários do último post, sobre a importância da embalagem e dos apelos extraliterários na descoberta dos livros. Porque foi exatamente isso, uma descoberta, o que eu fiz quando, a...

Os ventos uivantes do Zeitgeist
NoMínimo / 19/08/2009

Descubro no blog de livros do Guardian esta capa para uma nova edição de “O morro dos ventos uivantes”, de Emily Brontë, inspirada – para usar um termo gentil – na estouradíssima série de livros de vampiros para adolescentes de Stephenie Meyer, “Crepúsculo”. E para não deixar ninguém em dúvida, um aviso em letras brancas sobre um disco vermelho logo na capa explica que se trata do “livro preferido de Bella e Edwar...

Vai uma regra aí?
NoMínimo / 18/08/2009

No ‘Para escrever’ de Luiz Antonio de Assis Brasil, a terceira regra básica é a seguinte: “Usar material de primeira qualidade: bom computador, bom papel de impressão, bons cadernos (sugiro o Moleskine), boas canetas, bons lápis”. Leia outra vez, por favor. Em outras palavras, preciso ter muito dinheiro para escrever, uma vez que tudo que foi listado aí custa caro (um Moleskine custa em torno de uns 50 reais). Não ...

Começos (ainda) inesquecíveis: Sérgio Sant’Anna

Entre todas as histórias possíveis, certamente já terá acontecido alguma como esta. Um rapaz de dezessete anos, viciado em drogas (já chegou a roubar e prostituir-se para comprá-las) e com pretensões rimbaudianas a poeta maldito, tem um ciúme doentio da mãe divorciada, principalmente de um caso que ele desconfia que ela mantém com um homem muito mais jovem. Uma noite, a vê chegar em casa parecendo ligeiramente alegre de bebid...

Enigmas etimológicos: Picareta
A palavra é... / 15/08/2009

A leitora Vivian Pontes gostaria de saber qual é a relação entre a picareta e o picareta, ou, nas palavras dela, “entre a ferramenta e o sentido figurado da palavra, que serve como uma luva para os membros do nosso governo”. Boa pergunta. Sabe-se que picareta – substantivo e adjetivo de dois gêneros que designa uma pessoa embusteira, aproveitadora, que recorre a expedientes acanalhados para se dar bem – é um brasileirismo v...

Pulp Holmes
NoMínimo / 13/08/2009

Não é bacana essa edição pulp de um livro de Sherlock Holmes – “O vale do medo”, o último da série estrelada pelo detetive mais famoso da literatura – que será lançada em dezembro (em inglês, acesso gratuito) por uma editora popular americana? Para o comprador potencial não perceber que se trata de uma obra do “embolorado” Arthur Conan Doyle, que tem um certo ranço de clássico, o autor virou A.C. Doyle. A...

Ao internauta pára-quedista que atira antes de perguntar
NoMínimo / 12/08/2009

Está certo, você veio parar aqui por acidente. Estava atrás de Roberto Bolaños, um artista mexicano plural mais conhecido como Chaves, e ficou furioso ao saber que o tema era um tal de Roberto Bolaño, escritor chileno singular. Acontece – o armazém da internet tem prateleiras infinitas e nem sempre a sinalização ajuda. Conheço um sujeito que andava à procura de artigos sobre Francis Bacon, o filósofo, e vivia caindo em pág...

‘Sobrescritos’, o livro, vem aí
NoMínimo / 11/08/2009

Sabe os “Sobrescritos”, aquela sessão deste blog em que pequenos contos ou crônicas ou rabiscos de gênero indefinido têm sempre como tema central o ato de escrever e seus periféricos – como ler, publicar, criticar, embolachar o crítico, fazer pose, iludir-se, desiludir-se, cortar os pulsos etc.? Pois é: uma reunião dos 40 melhores “Sobrescritos” desses quase três anos e meio do Todoprosa vai ser lançada em breve naqu...

Começos (ainda) inesquecíveis: Elmore Leonard

– Ele está fotografando há três anos, dá só uma olhada no trabalho – disse Maurice. – Aqui, esse cara. Repara na pose, na expressão. Quem ele te lembra? – Parece um pilantra – disse a mulher. – Ele é um pilantra, o cara é um cafetão. Mas não é disso que eu estou falando. Aqui, essa. Dançarina de cabaré nos bastidores. Te lembra alguém? – A garota? – Dá um tempo, Evelyn: a foto. A sensação que o cara capt...

Enigmas etimológicos: Babaca
A palavra é... / 08/08/2009

– Você acha que a palavra “babaca” vem do latim baburrus, “tolo, palerma”, ou é uma forma reduzida de babaquara, do tupi mbae’be kwa’a ara, “o que nada sabe, mas manda”? Ou não engole nada disso, acha que babaca vem mesmo é do português basbaque, embasbacado? – Eu sei lá. Larga esse Houaiss. – Diz que a data pra acepção de “vulva” é 1939. A de “bobo”, veja s...

V. de voz
NoMínimo / 06/08/2009

E por falar em inutilidade (do tipo divertido, é claro): andam provocando comoção os rumores de que a voz que narra em off o vídeo promocional do novo livro de Thomas Pynchon, Inherent Vice, é do próprio reclusíssimo autor. A editora Penguin e a produtora do vídeo não negam nem confirmam. Hmmm, quem sabe? Mas que parece o João Ubaldo, parece....

O operador de retroescavadeira
NoMínimo / 05/08/2009

Não sei se os leitores habituais do blog terão percebido, mas o acaso produziu um efeito interessante por aqui no fim da semana passada. O post de sexta-feira, a propósito de um episódio de Twilight Zone, falava de uma certa atmosfera pesada de antiintelectualismo que sobrevive no Brasil. E os comentários deixados por vários leitores no post de sábado – que não pretendia ter nada a ver com o peixe, limitando-se a examinar cert...

Sciascia, Zé Rubem
NoMínimo / 04/08/2009

(…) é evidente que ainda não se ressaltaram, conveniente e convincentemente, as qualidades que converteram a obra de Leonardo Sciascia em uma das mais importantes precursoras da profunda renovação da literatura policial ou romance negro que se produziu nas últimas décadas do século passado e que sobrevive até hoje. Às vezes, aliás, nem se recorda que, ao lado de autores como o brasileiro Rubem Fonseca e o americano Donal...

Começos (ainda) inesquecíveis: Campos de Carvalho

Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. E já que mencionei a sisudez da literatura contemporânea, aí vai o supra-sumo do contrário: o primeiro parágrafo do romance “A lua vem da Ásia”, lançado pelo grande Campos de Carvalho (1916-1...

Lendas etimológicas: Crasso
A palavra é... / 01/08/2009

O post de hoje é a reunião de dois textos publicados no NoMínimo em 7 e 8/11/2005: O adjetivo “crasso”, do latim crassus (gordo, espesso), ganhou em português o sentido figurado – e hoje dominante – de “grosseiro, tosco”. Pode-se falar, por exemplo, numa pessoa crassa, num acabamento crasso, num discurso crasso, entre infinitas possibilidades mais ou menos crassas. Mas isso é teoria. Curiosamente, “crasso” acabou re...