Regozijai-vos, ó militantes do livro eletrônico! A apresentadora americana Oprah Winfrey decretou em seu programa de TV que o Kindle, o aparelho de leitura digital da Amazon, é uma maravilha: “Não sou uma pessoa de engenhocas eletrônicas, mas me apaixonei por esta aqui”. (Via blog de livros da “New Yorker”.) Depois que Oprah transformou Cormac McCarthy em best-seller, pôr um Kindle em cada lar americano não deve ser tão ...
Contos recontados – covers literários, talvez se possa chamá-los assim – por autores diversos para coletâneas comemorativas não estiveram em falta no recente centenário de Machado de Assis. É até possível que, no meio da oferta claramente excessiva, tenha passado despercebida uma ou outra maravilha que um dia, para o bem de nossa inteligência coletiva, teremos que aprender a valorizar. Mas pelo menos uma pepita eu posso apo...
Publicado em 10/12/2006: Eu, Valfredo Margarelon, subscrevo esta declaração no intuito de recolocar a justiça acima dos boatos e restaurar a fachada honrosa do brasão de minha família, sordidamente maculada por três elementos nocivos à ordem e aos bons costumes do reino inglês. Meu espírito simples, desabituado à lida com as palavras, vem a público para desmentir as ignominiosas calúnias feitas contra minha prima, Maria Marg...
O governo federal não quer que a medida provisória 443 fique conhecida como pacote. Nenhuma surpresa. Pacote é uma palavra de tom crítico que costuma ser mais favorecida pela imprensa do que por governantes. Usado no Brasil desde aproximadamente 1960, segundo o Houaiss, com o sentido de conjunto de medidas adotadas de um só golpe a fim de atacar um problema emergencial na área econômica ou política, não é de hoje que o termo c...
A web acaba de ficar mais inteligente com duas adesões quase simultâneas ao mundo virtual: Tina Brown com sua revista eletrônica, The Daily Beast, e Lúcia Guimarães, ex-“Manhattan Connection”, com seu site. Ao mesmo tempo, para nos lembrar que a guerra vai ser longa e difícil, uma idéia brilhante como a da Copa de Literatura Brasileira, que teve início promissor ano passado, corre o risco de atolar na lama das torcid...
Autores que admiramos nunca devem ser tratados com intimidade excessiva – um risco sempre presente em nossa era de superinformação. Que Virginia Woolf, uma escritora e tanto, era também uma intelectual londrina enfarada e esnobe (com perdão da múltipla redundância) eu já sabia. Mas acho que preferia não ter ouvido isso corporificado em sua voz....
Foram as poucas linhas daquela carta de recusa que fizeram Lúcio Nareba, lenda da blogosfera literária nacional, perder a cabeça. Não fosse o veneno destilado – gratuitamente, gratuitamente! – pela famosa editora Bia Escarpin, o adorável Nareba estaria entre nós até hoje, esvaziando dois engradados e meio de cerveja por dia às custas de seus admiradores mais jovens, fumando pelos ouvidos, coçando a bunda agressivamente como...
Sabe aquela guerrinha literária entre Europa e Estados Unidos, que a Academia Sueca abriu de forma um tanto cretina ao atacar os escritores da terra de Philip Roth? Pode estar se deslocando – o que, pensando bem, talvez estivesse nos planos europeus o tempo todo – para um campo de batalha mais interessante: o da lendária inapetência do mercado editorial de língua inglesa diante das traduções. Segundo um estudo da Universidade ...
Era uma vez um post publicado em 6/8/2007: * Era uma vez e uma vez muito boa mesmo uma vaquinha-mu que vinha andando pela estrada e a vaquinha-mu que vinha andando pela estrada encontrou um garotinho engrachadinho chamado bebê tico-taco. Seu pai lhe contava aquela história: seu pai olhava para ele através dos óculos; ele tinha um rosto peludo. Não deixa de ser uma prova de que não há palavras proibidas, apenas maior ou menor habi...
Nas últimas semanas brilharam nesta página as palavras juros, crise e pânico. Como a histeria financeira ainda parece longe de passar, é hora de voltar à vaca-fria – expressão que quer dizer retomar algo deixado para trás no atropelo da conversa, mas que não se considera devidamente resolvido. No caso, retomar o saudável ecletismo do papo sobre termos de nosso vocabulário. Como, por exemplo, vaca-fria. “Voltar à vaca-fria...
O jornal português “Diário de Notícias” estranha o fato de não encontrar grande repercussão por aqui a vitória de um brasileiro na primeira edição do gordo prêmio da editora lusa Leya (para romance inédito, em português): A conquista do primeiro Prémio Leya pelo brasileiro Murillo António de Carvalho, autor do romance “O Rasto do Jaguar”, surpreendeu os portugueses. No seu país de origem a situação não foi muito...
Esta é para fazer a festa daquela turma de freqüentadores do Todoprosa (Tibor e Saint-Clair à frente) que leva a sério a ficção científica – como ela merece ser levada mesmo, por mais que a dinâmica anti-renascentista do novo século, com sua ultracompartimentação do mundo em gôndolas de supermercado, tente trancafiar o gênero num gueto. Numa das entrevistas que deu à imprensa americana no dia em que foi anunciado seu Nob...
O DJ retrô contratado pelo shopping center enchia os corredores com a voz grossa de Renato Russo cantando “Eduardo e Mônica” quando a blogueira perguntou as horas ao estruturalista na fila do caixa da megalivraria. Mais tarde, ao se lembrar desse momento e observar que a trilha era simplesmente perfeita, ela o ouviria responder corado com a falta de prática que não, não, perfeita é você. Quando a blogueira o abordou, fingindo...
Post publicado em 1/10/2006: * Robert Cohn fora campeão de boxe na categoria dos pesos-médios em Princeton. Não pensem que esse título me impressione. Mas significava muito para Cohn. Os jabs em seqüência com que Ernest Hemingway (1899-1961) abre seu primeiro romance, “O sol também se levanta” (Bertrand Brasil, 2001, tradução de Berenice Xavier), são mais do que o começo de um livro. Desferidos em 1926, quando o autor tin...
Se a notícia do Nobel de Literatura é recebida com certa frieza no Brasil, onde pouca gente leu o francês J-M. G. Le Clézio, 68 anos, a culpa desta vez não pode ser atribuída às editoras. A Brasiliense foi a pioneira, lançando “À procura do ouro” e o clássico “Deserto” – seu livro mais premiado. Depois vieram a Companhia das Letras, com “O peixe dourado” e “A quarentena”, e a Cosac Naify, com “O africano”...
Entraram em exposição há poucos dias num museu de Jerusalém 37 páginas saídas diretamente do inferno – tudo o que restou do diário do astronauta israelense Ilan Ramon, morto na explosão do ônibus espacial Columbia, em 2003. Ninguém sabe explicar como o caderno, encontrado em campo aberto no Texas, não virou fumaça como o resto da nave. Agora experimente pôr uma história como essa num romance, em chave realista, para ver ...
A boa escrita é a atualização, que parece se dar no ato mesmo da leitura, de um certo potencial literário da linguagem, coisa obviamente intangível: um jogo desesperado, uma dança sedutora, tapeçaria vaporosa de ritmos, vírgulas, climas e sabedoria vocabular lançada sobre um relevo concreto de topoi, de pressupostos culturais e sensoriais que compõem o território compartilhado por escritor e leitor. Um relevo de lugares-comun...

