O escritor colombiano Fernando Vallejo, cujas opiniões contra tudo o que aí está são uma chatice abominável, deu sorte. Como fala baixo, num espanhol enrolado, e não havia tradução simultânea, a entrevista coletiva que deu hoje na Flip foi tão pouco compreendida pela maioria dos repórteres presentes que ele pôde se safar sem um arranhão quando foi além da chatice habitual, entrou pelo terreno da teratologia e, irritado, la...
Na já tradicional mesa dos “novos autores”, sempre a primeira de quinta-feira, terminada há pouco, o mediador João Moreira Salles se confessou em grande dificuldade para encontrar o “mínimo denominador comum” entre quatro escritores que, além de terem estilos diferentes, nem mesmo no tempo de carreira se parecem: de um lado Michel Laub e Adriana Lunardi, quase veteranos com seus três livros cada um, e do ou...
Luiz Melodia fez um showzaço ontem à noite em Parati, misturando sambas antigos com sucessos de seu próprio repertório. Pouca gente se animou a mexer as cadeiras, apesar da banda afiada: intelectual é fogo. Mas o coro de centenas de vozes da platéia nos primeiros versos de “Estácio, holly Estácio” compensou. Para ser tudo perfeito, só faltou Melodia acertar o nome da festa, que chamou, repetidas vezes, de “Fli...
A Flip começou cabeçuda, densa, talvez um pouco fria, com a conferência do crítico Roberto Schwarz sobre “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, o homenageado da festa este ano. Schwarz é um analista brilhante da obra machadiana, ponto. A leitura que faz do velho Joaquim Maria como o mais ácido crítico das relações de dominação de um país patriarcal e escravocrata é tão luminosa que, para mim, mais do que jogar no...
Não gosto muito de ler teatro. Acho que pouca gente gosta – aquilo é feito para ser encenado, não é? Foi apenas no interesse da pesquisa que fazia para meu novo livro, de tema correlato, que há seis meses mandei a Amazon entregar aqui em casa um exemplar de The Coast of Utopia, a premiada trilogia de Tom Stoppard sobre a geração de intelectuais russos de meados do século 19 em cujas cabeças germinou com força a idéia de uma...
Não fui à primeira Flip, em 2003, uma edição que ficou na história da festa como mito fundador, o Éden de gatos pingados que veio antes da Queda na massificação. No entanto, como descobri ao revirar meus arquivos agora há pouco, não deixei o assunto passar em branco. Num de meus primeiros artigos para o extinto NoMínimo, com o título acima, em agosto de 2003, falei da festa pelo ângulo de um quebra-pau supraliterário – o...
A retrospectiva da seção dá um salto no tempo para ir entrando no clima da Flip. Esse sul-africano esquisitão aí ao lado foi responsável pelo momento mais polêmico – para mim e outras cinco pessoas o melhor, para a maioria do público um desastre – da festa paratiense do ano passado. O post abaixo foi publicado em 3/3/2007. * Para um homem de sua idade, cinqüenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muit...
Num momento em que se teme uma explosão do mercado de propinas como efeito colateral da lei de tolerância zero para o álcool no trânsito, vale lembrar que a palavra, como se sabe, quer dizer gorjeta, gratificação extra por serviço prestado, mas não traz de berço conotações de prática escusa. Se no Brasil ela é empregada quase exclusivamente em contextos negativos, como parte do arsenal da corrupção, isso tem mais a ver co...
Muso, personagem e guru de Manuel Bandeira e uma penca de nomes estelares do modernismo brasileiro, Jayme Ovalle (1896-1955) é a mais curiosa figura daquela geração. Artista sem obra – ou quase isso, embora fosse compositor talentoso e tenha emplacado um clássico, “Azulão” –, encarnou como ninguém o espírito de gratuidade, boemia e improvisação dos que fazem da própria vida matéria de arte e estão, bem, bebendo e and...
Em primeiro lugar, Walt Disney. Em segundo, Agatha Christie. Para provar que a língua inglesa é forte mas não é tudo, o pódio é completado por Jules Verne. Em quarto lugar, à frente de Shakespeare, uma surpresa saborosa: Lênin. A lista completa dos cinqüenta autores mais traduzidos do mundo desde 1932 segundo a Unesco, com o número de edições em línguas estrangeiras de cada um, pode ser consultada aqui. (Via blog da “New ...
Graças aos amigos que colhi através deste blog, chegou às minhas mãos o romance “Chiquita”, ganhador do Prêmio Alfaguara deste ano. É provável que eu tenha um dos poucos exemplares que há na Ilha, o que me obriga a lê-lo depressa e passá-lo à fila de amigos que esperam por ele. As mais de quinhentas páginas escritas por Antonio Orlando Rodrigues são atraentes não só pela história que narram, mas pelo círculo de mist...
Há risco de um autor como Guimarães Rosa ser esquecido ou ficar elitizado? Penso que é o contrário: o que não fica é o que é superficial, fraco e ruim. O dicionário “Houaiss” tem 400 mil palavras. O rádio, a televisão, o jornal, a literatura que se faz hoje não chegam a 20 mil: estão jogando fora 380 mil. Em entrevista (só para assinantes) à “Folha de S.Paulo”, a crítica literária Walnice Nogueira Galvão defende...
Este post foi publicado pela primeira vez em 24/11/2006: * Não não. Papel, não. Ninguém vai falar de papel aqui. Não é coisa que se fale. Papel. Mas já reparou como tem papel por aí, espalhado, empilhado, grampeado, no mundo inteiro, um mundo de papel. Olha bem. Papel de parede, lenço de papel, papel-moeda, toda hora a gente está pegando ou olhando para um papel. Que nem você aí parado. E não precisa nem se mexer porque é ...
Dunga é o maioral, o ás, o bambambã, o batuta, o melhor de todos, o rei da cocada preta, o chefão. E para evitar que se interprete a frase anterior como uma defesa do contestado técnico da seleção brasileira, convém esclarecer que antes de ser o nome profissional do gaúcho Carlos Caetano Verri, capitão da equipe tetracampeã mundial em 1994, e mesmo antes do anão da Branca de Neve, dunga já era um regionalismo brasileiro, su...
O subtítulo da reportagem de Leon Neyfakh para “The New York Observer” (via Gawker) torna a leitura simplesmente obrigatória: “Carregar ‘2666’ de Bolaño é como dirigir um Porsche conversível”. Como? Onde? Que paraíso é esse em que a prova de um romance charmoso que ainda não foi lançado (lá, claro) tem o mesmo poder de atração sobre o sexo oposto que os maiores símbolos de status jamais fabricados pelo engenho h...
Li o esboço de um debate interessante, embora incipiente, nas entrelinhas do “Rascunho” de junho. De um lado, o carioca Nelson Motta, de cuja literatura não sou propriamente um fã, diz numa longa entrevista coisas sensatas como esta: Faço uma literatura de entretenimento, uma literatura pop. Minha grande ambição é alegrar, divertir as pessoas, emocioná-las um pouco, esclarecer uma coisa ou outra. É para isso que eu rezo lit...
Num artigo para a revista The Chronicle of Higher Education (via Arts & Letters Daily), o crítico americano Michael Dirda conta que, há algum tempo, perguntaram-lhe numa sala de aula que personagem dos livros gostaria de ser. A resposta esperada, diz ele, era certamente “literária”, algo como Odisseu (Ulisses) ou Huckleberry Finn. Mas ele respondeu: “Bond, James Bond”. E explica por quê: “Ele tem os melhores brinquedos...

