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A pesquisadora
Sobrescritos / 16/06/2008

Ela deu um meio sorriso de olhos baixos, como se tentasse ler desígnios superiores nos volteios dos pedaços de limão esmagados no fundo do copo, e disse que a maior ofensa que se costuma fazer às de sua espécie é supor como móvel de sua busca sem fim uma ilusão vizinha da loucura ou da imbecilidade – a de que os homens que dedicam a vida a simular outras vidas por escrito são mais gostosos ou tesudos, mais misteriosos ou desa...

Começos (ainda) inesquecíveis: Hilda Hilst

Publicado pela primeira vez em 7/9/2006: * Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso. Isso era Deus. Ainda assim tentava agarrar-se àquele nada, deslizava geladas cambalhotas até encontrar o cordame grosso da âncora e descia em direção àquele riso. Tocou-se. Estava vivo sim. Quando menino perguntou à mãe: e o cachorro? A mãe: o cachorro morreu. Então atirou-se à terra coalhada de abóboras, colou-se a uma toda torta, cil...

Ressurreição
A palavra é... / 14/06/2008

O que o governo federal (ou seria melhor, diante da preocupação geral em não deixar impressões digitais, usar aqui um sujeito indeterminado?) está tentando fazer com a CPMF, poucos meses após sua morte, tem em nossa língua um nome cheio de conotações religiosas: ressurreição, do latim resurrectionis, parente do verbo ressurgir. Só pode ressuscitar – isto é, reanimar-se, manifestar-se outra vez – aquele ou aquilo que est...

Escritores de crachá
NoMínimo / 13/06/2008

O projeto de regulamentação da profissão de escritor, de autoria do deputado federal Antonio Carlos Pannunzio (PSDB-SP), leva cascudos unânimes dos três escritores que Jonas Lopes ouviu para o post publicado hoje em seu ótimo blog Gymnopedies: Milton Hatoum, Antonio Fernando Borges e eu. Fiquei contente de ver minha opinião tão bem acompanhada, claro, mas ao mesmo tempo preocupado: se algum escritor não se levantar em defesa da...

O diálogo e o diálogo de Richard Price
NoMínimo / 12/06/2008

Para quem, discordando de Moacyr Scliar, trata o diálogo literário com o respeito que ele merece, é imperdível o artigo (em inglês, acesso livre) publicado na New Yorker de abril por James Wood, o mais influente crítico literário americano deste início de século. Wood fala de Richard Price, a esta altura um nome já ascendido – mais do que em ascensão – na literatura policial de seu país. (Parêntese incontido: um crític...

Diálogo de surdos
NoMínimo / 11/06/2008

Espantosa esta intervenção do escritor e médico gaúcho Moacyr Scliar num festival de literatura no interior de São Paulo, semana passada. Em vez de uma arte fina e difícil, que frustra a maioria dos que nela se aventuram para premiar uns poucos com ouro puro, o diálogo literário, segundo ele, seria enchimento de lingüiça: Para Scliar, o diálogo é apenas um recurso para preencher espaço em uma história. “Quando me deparo ...

Um ingresso, meu reino por um ingresso…
NoMínimo / 10/06/2008

Aconteceu de novo. Algum dia um pesquisador terá que investigar por que nós, brasileiros, temos essa incompetência atávica para organizar uma simples venda de ingressos. Quem não tiver paciência para detalhes escatológicos deve pular este post, breve resumo de uma manhã tensa – no fundo besta – de terça-feira. O site da Flip anunciava a venda pela Ingresso Rápido a partir de hoje às 9h. Um amigo que ligou antes dessa hora...

Flip, as preliminares
NoMínimo / 09/06/2008

O Todoprosa estará na Flip, é claro. Não tendo mais idade para acampar ou dormir no carro, reservou pousada há um mês – no escuro, como sempre. A programação oficial só foi divulgada semana passada e não fez disparar o coração de ninguém, mas sem dúvida é sensata, consistente. Não antecipo nenhuma revelação-com-trombetas do tipo que me emplastrou numa cadeira da Tenda dos Autores ano passado, ouvindo Coetzee ler trech...

Começos (ainda) inesquecíveis: Dashiell Hammett

Domingo é dia de relembrar o inesquecível. Este post foi publicado pela primeira vez em 23/6/2006. * O maxilar de Spade era largo e ossudo, seu queixo era um V muito pronunciado, abaixo do V mais suave formado pela boca. As narinas se arqueavam para trás para formar um outro V, menor. Os olhos amarelo-cinzentos eram horizontais. O tema do V era retomado pelas sobrancelhas um tanto peludas que se erguiam a partir de duas rugas gêmeas...

Milícia
A palavra é... / 07/06/2008

A palavra milícia ganhou projeção nacional depois que membros de um desses grupos torturaram jornalistas no Rio de Janeiro. No entanto, séculos antes de adquirir o sentido hoje dominante no Brasil – grupo de policiais dedicados à atividade criminosa de vender segurança em áreas abandonadas pelo Estado –, a milícia brotou da mesma fonte belicosa, mas respeitável, que daria em termos como militar e militante. A família saiu ...

O Estado deve incentivar escritores a escrever?
NoMínimo / 05/06/2008

O André Gonçalves sugere um excelente tema de debate: Como disse, está havendo o Salão do Livro, aqui em Teresina. E 9 entre dez “escritores” reclamam da falta de apoio, da falta de incentivo, etc, etc, etc. Pergunto: até que ponto é obrigação/responsabilidade do Estado ou da iniciativa privada bancar/financiar livros (considerando-se que 90% deles, eu inclusive, ou mais, sejam de interesse único e exclusivo do autor e sua ...

O sucesso do Bond ‘falsificado’
NoMínimo / 04/06/2008

“Devil May Care”, o novo romance de James Bond escrito por Sebastian Faulks, tornou-se o livro de ficção de capa dura de venda mais rápida na história da Penguin, com a marca de 44.093 exemplares nos quatro dias desde que o título chegou às prateleiras. Os números se seguem a uma campanha promocional de proporções comparáveis às de “Harry Potter”, inclusive, na fase pré-lançamento, com notícias do trabalho de Sebas...

Faustini
Sobrescritos / 03/06/2008

Qualquer um que acompanhe com um mínimo de atenção a literatura brasileira sabe que o escritor mato-grossense Manfredo Faustini se especializou em escrever sobre o Tinhoso nas mais variadas formas: mulheres, crianças, capitalistas, políticos, animais, espíritos, todas as suas engenhosas histórias giram em torno de personagens que se revelam diabólicos em algum momento. O sucesso de público e crítica veio depressa. Um dia um am...

Machado, o Pelé das letras? E vice-versa?
NoMínimo / 02/06/2008

A discrepância aparentemente aberrante da comparação entre o escritor e o jogador de futebol contém nela mesma o xis do problema: ambos são necessários para que se formule a trama de um país mal letrado e exorbitante, cuja destinação passa pelas reversões entre a “alta” e a “baixa” cultura, pelo confronto e pelo contraponto das raças, pela palavra e pelo corpo, e cuja “formação” não poderia se dar apenas na lit...

Começos (ainda) inesquecíveis: Juan Rulfo

A retrospectiva desta seção está aqui todo domingo. Este post foi publicado pela primeira vez em 17/9/2006. * Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo. Um dia a dúvida tinha que aparecer nesta seção: será que o começo de “Pedro Páramo” (Record, 2004, tradução de Eric Nepomuceno), romance publicado em 1955 pelo mexicano Juan Rulfo (1917-1986), só é inesquecível porque o livro todo ...

‘Granta’: perto daqui
NoMínimo / 31/05/2008

Outra boa notícia para quem se preocupa com o coeficiente literário do país (a semana está pródiga): a edição brasileira da “Granta” conseguiu manter sua promessa de semestralidade, feito digno de festa num mercado em que, quanto menor e mais sofisticado o público, mais tudo tende a virar devezenquandário – quando não a sumir de vez. Franquia da revista trimestral britânica que acaba de chegar ao número 101 e tem a rep...

1968, 1975, 2008 e além
NoMínimo / 30/05/2008

Tentar estabelecer relações entre momento histórico-social e literatura é pedir para derrapar em terreno traiçoeiro. Claro que as relações existem, mas jamais serão simples e diretas. É possível que só uma distância mínima de, sei lá, cem anos permita enxergar sem óculos ideológicos mais grosseiros os mecanismos desse relógio. Feita a ressalva, achei inspirador esbarrar hoje, no blog do “Guardian”, com um pequeno ar...