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Sobre a precisão

08/11/2014

Tom Cruise e Paul Newman no filme "A cor do dinheiro", de Martin Scorsese

Tom Cruise e Paul Newman no filme “A cor do dinheiro”, de Martin Scorsese

Lendo um texto literário, tento decifrar por que ele me agrada tanto e chego à ideia de precisão vocabular. Será isso? Não, claro que nunca é uma coisa só, mas será isso em primeiro lugar – a precisão na escolha das palavras? O fato de as palavras vestirem as ideias como uma malha justa, roupa de mergulhador, segunda pele através da qual a ideia exibe suas formas com perfeição, quase como se já não fosse a ideia de uma coisa, mas a coisa mesmo?

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Um dos aspectos intrigantes da caça ao vocábulo preciso, aquilo que Gustave Flaubert chamava de le seul mot juste, é o fato de, sendo tão inerente ao bem escrever, ser tão difícil de ensinar. Para começar, não é nada fácil de definir, e a malha ou segunda pele é uma metáfora desesperada que reconhece essa dureza. Identificamos a precisão quando a temos diante do nariz, mas em que ela consiste exatamente?

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Aqui talvez seja necessário afastar a ideia, folclórica mas nunca distante dessa conversa, da “palavra justa” como frescura e álibi para a paralisia do escritor – como parece ter sido muitas vezes para o próprio Flaubert. Se você está escrevendo um conto policial e não consegue se decidir entre “revólver” e “pistola”, jogue uma moeda para o alto e vá em frente, pelo amor de Chandler. A questão da precisão é mais séria e mais sutil do que isso.

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Não é só na literatura: em termos de bom uso da língua em geral, a precisão vocabular conta mais do que a correção gramatical. No entanto, muito se fala de correção e pouquíssimo de precisão. É nesta, na adequação das palavras ao que se diz, que um texto (ou fala) seduz. A correção opera negativamente, evitando que ele seja rejeitado. A precisão é positiva, propositiva. É quando você diz ou não diz a que veio.

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Um cultor da simplicidade hemingwayana ou sabínica vai dizer que é tudo muito simples: chame a casa de casa, o gato de gato. Mas estará sendo simplório, porque o que funciona num texto hemingwayano ou sabínico pode ser um desastre em outros. O preciso aqui é impreciso acolá – a precisão está subordinada à totalidade do efeito pretendido. É quase como Calvinbol: se o narrador alucina, chamar a casa de, sei lá, gaiola, universo ou cubo mágico pode ter uma precisão de bisturi.

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Outro problema da precisão é que muita gente a confunde com preciosismo, com o uso de palavras raras, “difíceis”. Autran Dourado confessou num ensaio ter ficado muito feliz no dia em que descobriu que aquela pedra redonda dos amoladores de faca se chama rebolo. Um leitor certa vez censurou brandamente um conto meu por citar uma máscara carnavalesca veneziana nariguda e não nomeá-la com a palavra justa em italiano: nasone.

Nunca usei a palavra “rebolo”, embora não descarte vir a fazê-lo, e a narradora daquele meu conto, uma senhora idosa e simples, não falaria assim. Aí é que está: ser preciso não é encontrar a palavra justa em abstrato. É encontrar a palavra justa para aquela situação. É possível ser preciso com um vocabulário de 3 mil palavras e impreciso manejando 30 mil.

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Em seu livro “Como funciona a ficção”, o crítico inglês James Wood não fala exatamente de precisão vocabular. No entanto, ao abordar as metáforas, cita uma frase do italiano Cesare Pavese que ilustra bem o que é precisão-no-contexto: o narrador de uma história ambientada numa aldeia atrasada da Itália fala da lua amarela “como polenta”.

Hã? Será que Pavese não tinha algo melhor, mais “literário”, com que comparar a lua? Uma moeda de ouro, por exemplo? Não. Os camponeses de sua história nunca tinham visto uma moeda de ouro, mas comiam polenta todo dia.

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Sabe aquele verso de Aldir Blanc, “Caía a tarde feito um viaduto”? Pois é.

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Se a precisão tem regras movediças regidas pela “totalidade do efeito pretendido”, é sobretudo dela, precisão, que depende tal efeito para deixar a bruma das boas intenções autorais e adentrar esse país cobiçado, mas perigoso, chamado cabeça do leitor, onde palavra vira ideia que vira coisa.

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O texto acima é uma fusão/reelaboração de ideias abordadas inicialmente em diversos posts de minha coluna Sobre Palavras.

9 Comentários

  • Don Gately 08/11/2014em16:12

    Esse assunto me fez lembrar da recepção controversa que “São Bernardo”, talvez um dos três grandes livros de GR, teve logo após sua publicação. A crítica chiou, alguns leitores torceram o nariz, pois ninguém condescendia com o fato de um sujeito tão rude e anti-intelectual, feito Paulo Honório, poder escrever com tamanha PRECISÃO. É difícil defender o GR, a incosist?ncia técnica é flagrante. Só que, ainda assim, o livro não deixa de me parecer MONUMENTAL. Queria saber o que você acha disso, Sérgio. Será que essa precisão “contrabandeada” anula o impacto do livro? Um abraço!

  • Jorge Luis dos Santos 08/11/2014em17:53

    Belíssimo texto, Sérgio Rodrigues. Nesse “cipoal” onde estaria oculto a “palavra justa”, sendo essa relativa ao contexto – por exemplo, na “lua de polenta” -, seria essa consentânea e coerente ao cenário que se pretende pintar. Longe do palco original e de suas cores e sentidos, como dito, “a palavra justa” passaria a ser “palavra inconsequente”, logo uma anomalia autorizada “de má vontade” apenas pelos manuais de gramática. A “palavra precisa” seria, portanto, o que a inspiração ao texto não identificaria como estranha para si, a priori, naquilo que pretende enunciar como seu e legítimo aos outros. E que os críticos esperneiem diante do escritor em paz consigo próprio! Com tua permissão, copiarei o texto acima, e o terei, em meus arquivos, como um referencial sobre o assunto. Obrigado! Jorge

    • sergiorodrigues 08/11/2014em21:19

      Caro Don, acho que sim, isso é um problema em “São Bernardo”, sem chegar a comprometer o livro. Na verdade o problema é bastante comum, de Grande sertão a Laranja mecânica: o dos narradores que não teriam, por sua condição e dentro de uma perspectiva realista, como se expressar de forma tão brilhante quanto se expressam. Nossa “suspensão de incredulidade” é mais exigida nessa hora, mas costuma fazer vista grossa quando o livro compensa a viagem.
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      Valeu, Jorge Luis. Fico contente que tenha gostado. Você não precisa de minha permissão para arquivar o texto, mas em todo caso está concedida.
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      Abraços.

  • carlos alberto 09/11/2014em05:50

    Correto e preciso texto.

  • Igor Aguiar 09/11/2014em07:38

    Magnífico texto. Às vezes não identificamos o tipo de leitor. E a precisão justamente qualifica o que realmente importa em um conteúdo.

    Provavelmente esses erros de percepção se devem a vaidade do escritor, que não deve ser jogada fora é claro, mas submetida a um ganho maior.

  • Rogerio 10/11/2014em13:06

    Texto brilhante, que venha mais.

  • Athayde 11/11/2014em16:40

    Há escritores que produzem garimpando o vocábulo com obsessão – Flaubert disse que ficou três dias sem tocar no texto de Madame Bovary enquanto procurava a palavra exata para uma determinada frase. Outros escrevem como se ejaculassem – no caso, Jack Kerouac. Na verdade, acredito que o escritor adquire seu cabedal de palavras preferidas inconscientemente, e lá atrás, no período de formação. É claro que outros termos irão se somar ao dicionário à medida que seus conhecimentos vão se aprofundando, mas aquelas palavrinhas mágicas há muito entranhadas no cérebro vão estar sempre e sempre se manifestando nos textos.

  • C. Eliseu 12/11/2014em12:09

    Dou os parabéns ao Sérgio Rodrigues pelas crónicas.Este post aborda um assunto difícil, e como leio várias vezes o seu texto, bem escrito, rico de ideias,com pormenores que escapam à primeira, talvez porque seja condensado, atrevo-me a dizer que valoriza a precisão vocabular. Acrescento: você, Flaubert e o Eça.É uma opção superior, mas, como diz, não é tudo. Talvez a precisão seja um jogo(a arte pela arte?). Importam a ideia ou cerne da obra e a escrita clara. Mesmo sem o ‘seul mot juste’,a criação de M. Bovary impressionaria sempre.

  • Thiago Maia 17/11/2014em05:59

    Da Wikipedia. Peço leitura com ênfase à opinião do Wood:
    ‘José de Sousa Saramago (16 November 1922 – 18 June 2010) was a Portuguese writer and recipient of the 1998 Nobel Prize in Literature. His works, some of which can be seen as allegories, commonly present subversive perspectives on historic events, emphasizing the human factor. Harold Bloom described Saramago as “the greatest living novelist” and considers him to be “a permanent part of the Western canon”, while James Wood praises “the distinctive tone to his fiction because he narrates his novels as if he were someone both wise and ignorant.”’