Estação brasileira por excelência, eixo em torno do qual giram, nesta terra bronzeada, os sonhos de lazer e as engrenagens de indústrias como as da moda, do turismo e da boa forma, o verão parece tão essencial e eterno quanto a própria natureza. Engano. As estações como as conhecemos se firmaram em nossa língua a partir do século 16, semeando confusão por todo o 17 e vitimando, no início do 18, o primeiro grande dicionarista da língua portuguesa, Rafael Bluteau, que abre assim seu verbete Verão: “Querem alguns que essa palavra signifique Primavera”.
Acontece que antes disso, quando era comum encontrar o verão na grafia ueerãão, a divisão das estações não estava consolidada num sistema científico em torno de dois equinócios e dois solstícios – momentos em que o Sol está respectivamente mais próximo e mais distante da linha do Equador – mas fundada em percepções empíricas. Isso fazia com que, no castelhano, em que tais palavras se firmaram primeiro, as fases do ano fossem cinco, segundo o filólogo catalão Joan Corominas.
Nessa conta torta, a metade do ano correspondente ao calor e ao “bom tempo” se dividia em três segmentos: primavera (do latim primo + vere, o primeiro bom tempo, equivalente aos dois terços iniciais da estação que hoje leva este nome), verano (de veranum tempus, tempo bom, que abarcava o fim da atual primavera e o início do atual verão) e estío (de aestivum tempus, tempo de calor forte, auge e parte final do verão como o conhecemos).
Estranho? Se pensarmos que a linguagem é sempre uma construção cultural, mesmo em seus aspectos mais “naturais”, nem tanto. Basta lembrar que uma das acepções de “verão” no Nordeste brasileiro é a dura e nada excitante “estação da seca”. E que o jornalista Paulo Francis costumava brincar que no Rio de Janeiro só havia duas estações: verão e inferno.
Publicado na “Revista da Semana”.
11 Comentários
Essa sua referência a Paulo Francis, me lembrou Leminski, que dizia que em Curitiba havia apenas duas estações: o inverno e a rodoviária.
😀
abrs!
Ao ler estio, recordei-me da canção Tempo de Estio, do Caetano: “Rio, tempo de estio, eu quero tuas meninas/Quero comer, quero mamar”.
Sim, Francisco: “estio” acabou se estabelecendo como simples sinônimo de verão.
Lao: boa, eu não conhecia essa. O mesmo não se pode dizer de Porto Alegre ou Buenos Aires, que, embora mais ao sul, têm verão à beça.
Lao, essa definição cai como uma luva aqui no Rio de Janeiro. Verão é muito bonito quando se está de férias tomando uma cerveja gelada na praia, mas vai trabalhar nesse calor infernal! Se eu pudesse, já tinha ido pra rodoviária, como o Leminski.
Ótimo texto, Sérgio!
O curioso é que, no Nordeste, a estiagem (tempo de estio?) se dá no inverno, enquanto no verão chove…
Peço licença ao Sérgio para avisá-los de um projeto realmente inovador e que vale ser acompanhado.
Alguns amigos daqui sabem que na Bienal 2007, no Rio, eu entrevistei o Paulo Coelho (ele diretamente de Paris) em uma webconference (projeto da IBM Lotus). Creio que tenha sido o primeiro evento deste tipo em uma Bienal brasileira.
Agora, o Paulo inova mais uma vez. Em parceria com a HP, implementa o “Experimental Witch Film Competition”. Videomakers e músicos de todo o mundo podem participar da criação de um filme colaborativo com base no seu último romance “A Bruxa de Potobello”. É inédito e aponta uma tendência de convergência de mídias.
Confiram o video no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=INFDycyjdjc
Forte abraço!
Discordo totalmente do Francis. O Rio de Janeiro tem duas estações: uma estação quente, que vai de dezembro a março e outra amena e muito agradável, uma longa meia-estação, que se estende de abril a novembro, na qual ocorrem, também, dias mais frios e outros mais quentes. O clima na cidade do Rio, pelo menos na costa, é excelente e mesmo o verão tem seu lado bom, pois os dias são mais longos e a cidade ganha mais vida e fica mais festiva. Terrível é o clima de Hamburgo, na Alemanha, onde passei temporadas, em que chove ininterruptamente durante semanas, o céu está sempre cinzento, os dias, na maior parte do ano são gelados e, por ser uma cidade no nível do mar, a neve derrete rápido no inverno, convertendo-se num lamaçal pavoroso. Isso é o que chamam de clima civilizado? Sou muito mais o Rio. Abraços!
Já os filósofos dos butecos das esquinas do Rio, dizem que aqui só há duas estações: verão e calor.
Interessante é que português e castelhano ficaram com verão/verano, enquanto o francês “êté”, o catalão “estiu” e o italiano “estate” derivam dessa “prorrogação” da estação quente.
(Mas em catalão o mais bonito é outono chamar “tardor”.)
Sérgio,
a história das estações em português já conhecia. Já a origem dos nomes em inglês, procurei sem muito sucesso (ou muito afinco, é bem verdade). Vc as conhece, ou pode referir site que as conte?
Abraços (e feliz 2008),
Murilo Gabrielli
Eu odeio o verão. Queria ter dinheiro pra passar 8 meses do ano na Islândia. Juro por Deus.