‘Todos os contos’: palmo a palmo, a medida de uma Clarice imensa
Resenha / 28/05/2016

Todos os contos de Clarice Lispector (Rocco, 656 páginas) é o livro-monumento que o país devia àquela que foi, ao lado de Guimarães Rosa, a voz mais original da ficção brasileira no século 20. De forma embaraçosa, a dívida foi paga com dinheiro emprestado: até na bela sobrecapa premiada de Paul Sahre, o volume de capa dura que chega ao leitor brasileiro é o que foi organizado pelo biógrafo e pesquisador americano Benjamin Moser e publicado ano passado nos EUA, com tradução de Katrina Dodson e notável sucesso de crítica. Até então a obra contística da autora estava dispersa em brochuras cheias de superposições, a maioria contendo – por decisão dela – histórias reaproveitadas de coletâneas anteriores. Limadas as redundâncias e incluídos os contos da juventude e do fim da vida que só postumamente saíram em livro, temos um total de 84 histórias e uma tentação irresistível: a de concluir que foi na narrativa curta, e não nos romances e novelas, que a arte de Clarice atingiu seu ponto mais alto. Não é dizer pouco. O embaraço da “importação” escapa de ser vexame porque Clarice nunca foi uma escritora negligenciada que o olhar estrangeiro tivesse nos ensinado a descobrir. Meio…

Quixote, o maluco que inventou a liberdade
Resenha , Vida literária / 22/04/2016

Advertência: o fôlego deste artigo é pouco compatível com a brevidade internética. Ele foi escrito para a edição de papel da revista Veja que está agora nas bancas, como parte do material especial sobre os 400 anos da morte de Cervantes – completados hoje – e de Shakespeare, e dividiu as páginas com um texto igualmente extenso sobre o bardo assinado por Jerônimo Teixeira. Como se diz na Espanha: Vale. * A imagem é mais velha e sábia do que todos nós: o cavaleiro esguio em seu cavalo magro, ao lado do escudeiro gordinho montado num burro, contra uma paisagem árida onde se veem, ao longe, moinhos de vento. Foi atualizada nos últimos quatro séculos por tantos pintores e ilustradores, dos mais renomados aos mais chinfrins, que ocupa lugar de honra na galeria de clichês culturais à qual praticamente todos os seres humanos – letrados e não letrados – têm acesso. Se essa galeria não se destaca pela quantidade de obras, o bom gosto também não é seu ponto forte: nos varais de feira hippie, a apropriação pop da alta cultura costuma exibir o pôster da dupla ao lado daquele em que o mendigo de chapéu-coco encara a câmera com…

‘Viagem ao redor da garrafa’: por que os escritores bebem?
Resenha / 16/02/2016

Em Viagem ao redor da garrafa (Rocco, tradução de Hugo Langone, 320 páginas, R$ 44,50), a jornalista inglesa Olivia Laing promove uma curiosa – e nem sempre bem-sucedida – mistura de gêneros. Ensaio biográfico, crítica literária, memórias e relatos de viagem são jogados na coqueteleira para tentar revelar “por que os escritores bebem e que efeito essa mistura de bebidas teve sobre o corpo da própria literatura”. Se o objetivo parece por um lado ambicioso demais e por outro limitado em seu recorte – afinal, escritores bebem porque os seres humanos bebem –, Laing logo dobra a aposta da liberdade autoral ao reduzir a apenas seis os alcoólatras em que está interessada. Todos homens, todos americanos e grandes autores do século XX: os ficcionistas Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, John Cheever e Raymond Carver dividem o balcão do bar com o dramaturgo Tennessee Williams e o poeta John Berryman. A lista não se destaca pela originalidade e chega a flertar com o clichê ao exibir em posição de destaque a dupla de aliados e rivais Hemingway-Fitzgerald, sobre a qual seria justo dizer que já se escreveu demais. Ocorre que, se houver um único rótulo apto a nomear o coquetel que…

‘Não é meia-noite…’: Lobo Antunes no labirinto da memória
Resenha / 07/11/2015

O novo lançamento do escritor português António Lobo Antunes no Brasil, o romance “Não é meia-noite quem quer” (Alfaguara, 480 páginas, R$ 59,90), publicado em Portugal em 2012, oferece munição tanto a seus fãs incondicionais quanto a seus detratores. Estamos falando de um velho embate da cultura lusitana, a polarização entre os que acreditam estar diante do único escritor genial em atividade na língua portuguesa e os que julgam ter sido o autor lisboeta de 73 anos engolido pela própria vaidade de malabarista das palavras, terminando por sucumbir ao vazio do exibicionismo formal. Naturalmente, o leitor não precisa se alinhar com nenhum desses lados, mesmo porque há um pouco de verdade em ambos. Antes de se lançar à aventura do livro, contudo, deve saber que “Não é meia-noite…” é um romance exigente que demandará sua adesão incondicional, uma espécie de profissão de fé renovada a cada página (às vezes penosamente) na recompensa proporcionada por uma história que gira sobre si mesma. Na primeira metade de sua carreira, Lobo Antunes, psiquiatra de formação, perseguia algum equilíbrio entre a tessitura da prosa – que sempre foi caudalosa, musical e poética – e o enredo. Por exemplo: um romance como “As naus” (1988),…

‘A garota na teia de aranha’: há vida após a morte?
Resenha / 12/09/2015

Com mais de 80 milhões de exemplares vendidos e uma adaptação hollywoodiana de sucesso, a trilogia de suspense e ação Millennium, do escritor e jornalista sueco Stieg Larsson, ganha agora um quarto volume: “A garota na teia de aranha” (Companhia das Letras, tradução de Guilherme Braga e Fernanda Sarmatz Akesson, 472 páginas, RS 44,90). Se a notícia é boa ou má para sua legião de fãs, eis um mistério que, como nos bons thrillers, só a leitura atenta do livro pode resolver. Ocorre que Larsson não escreveu o quarto romance da série nem poderia tê-lo feito: morto aos 50 anos, vítima de um ataque cardíaco, não teve tempo sequer de ver o primeiro título, “Os homens que não amavam as mulheres”, ser publicado em 2005. A continuação da saga do jornalista investigativo Mikael Blomkvist e de sua aliada sociopata, a jovem hacker pós-punk Lisbeth Salander, é assinada por David Lagercrantz, também sueco e também dono de uma carreira equilibrada entre o jornalismo e a literatura. A fidelidade de Lagercrantz ao universo de Larsson é meticulosa. O idealista Blomkvist, sócio da revista Millennium, continua determinado a usar seus talentos de repórter para defender os oprimidos e atacar o que, às vezes…

‘Nora Webster’: a grandeza das coisas pequenas
Resenha / 15/08/2015

É fácil reconhecer que “Nora Webster”, do irlandês Colm Tóibín (Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 398 páginas, R$ 54,90), é um grande romance. Difícil é explicar por que é assim. Em outras palavras, a rendição do leitor às artes e artimanhas do autor é imediata, garantindo uma leitura imersiva e um interesse apaixonado pela protagonista e pelas pessoas que lhe são caras, mas o crítico tem tarefa mais cascuda: determinar o que, num texto que é um implacável exercício de contenção emocional e sobriedade narrativa, confere grandeza a uma história tão pequena, tão banal, e termina por desenhar na imaginação do leitor uma personagem feminina que parece viva como poucas na história da literatura. “Nora Webster” é um romance realista que cobre três anos na vida da personagem-título, entre o fim dos anos 1960 e o início dos 70. Dona de casa quarentona do interior da Irlanda, Nora acabou de ficar viúva quando o narrador em terceira pessoa começa a acompanhá-la com uma fidelidade que não vai esmorecer até o ponto final. Não há alternância de pontos de vista e a rigor, com exceção de algumas recordações esparsas de Nora, não há flashbacks. “Isso era passado, pensou Nora…

‘O vento que arrasa’, uma aquarela argentina
Resenha / 01/08/2015

Um carro tem defeito no meio do nada, numa estrada deserta na província argentina do Chaco. A bordo dele vão um pastor evangélico itinerante e sua filha adolescente. Rebocados até a oficina de beira de estrada de um mecânico solitário e grosseirão, que vive ali na companhia de um garoto silencioso, também adolescente, e um número indefinido de cachorros, pai e filha terão que esperar que o carro seja consertado para seguir viagem. Com esses elementos escassos, a escritora argentina Selva Almada compôs a narrativa “O vento que arrasa”, publicada por lá em 2012 e agora lançada no Brasil (Cosac Naify, tradução de Samuel Titan Jr., 128 páginas, R$ 29,90). Recebido com entusiasmo crítico incomum em seu país, o livro foi eleito o melhor lançamento da ficção argentina naquele ano, em votação organizada pela referencial editora e livraria Eterna Cadencia, e sai aqui com orelha empolgada da crítica Beatriz Sarlo, que o chama de “romance surpreendente” de “uma narradora original”. Em primeiro lugar, será preciso corrigir a classificação de “O vento que arrasa” como romance. Trata-se sem dúvida alguma de uma novela, ainda que generosamente engordada pelo papel robusto (Pólen Bold 90) e pelas dimensões da mancha gráfica. Essa correção…

Quem é Elena Ferrante? E isso importa?
Resenha / 06/06/2015

O mistério que envolve a festejada escritora italiana Elena Ferrante pode começar a ser desvendado pelo leitor brasileiro com a publicação de “A amiga genial” (Biblioteca Azul, tradução de Maurício Santana Dias, 331 páginas, R$ 44,90), o primeiro dos quatro volumes que compõem sua chamada “série napolitana”. Isto é, desde que se tome como autobiográfico o romance narrado por Elena Greco, que reconstrói sua infância e adolescência num bairro pobre de Nápoles nos anos 1950. Apesar da diferença de sobrenome, tal identificação entre autora e personagem tem sido feita pela maior parte de uma crítica internacional entusiasmada, que tornou Ferrante, ao lado do também prolífico norueguês Karl Ove Knausgård, a coqueluche literária do momento. O argumento é que os dois, chamados simplesmente de “titãs” pela prestigiosa revista americana The New Yorker, driblariam o que a ficção tem de falso ao se desnudar em suas memórias. “Seus romances são intensamente, violentamente pessoais”, escreveu sobre Ferrante o respeitado crítico inglês James Wood. O problema mais óbvio com tal ideia é que, enquanto Knausgård escreve de modo explícito sobre a própria vida e se multiplica em entrevistas sobre isso, Ferrante é um ponto de interrogação. “Acredito que os livros, uma vez escritos, já…

Knausgård: o inesperado poder da hiperbanalidade
Resenha / 02/05/2015

Por que alguém leria milhares de páginas autobiográficas de um escritor norueguês que levou e leva uma vida nada excepcional? Páginas centradas em experiências comuns como os problemas de relacionamento de um filho sensível com o pai fechadão e o medo que ele tem de repetir o modelo paterno desastroso quando se encontra por seu turno às voltas com fraldas e mamadeiras, enquanto se angustia por ver escorrer entre os dedos como areia (com clichê e tudo) o tempo que preferiria investir na produção de uma obra literária capaz de dar sentido a uma vida gratuita? Boa pergunta. Talvez porque o sujeito drible poeticamente a banalidade, transfigurando o cotidiano por meio de uma linguagem espetacularmente inventiva? Não, pista falsa: a banalidade pinga de cada página como o óleo esverdeado de um arenque em conserva. O fato é que com tudo isso – e ainda com os repulsivos ecos hitleristas do título – a série “Minha luta”, de Karl Ove Knausgård, tornou-se um fenômeno de popularidade na Noruega, onde vendeu perto de meio milhão de exemplares (número quase ofensivo se levamos em conta que o país tem pouco mais de cinco milhões de cabeças), e um modismo intelectual no restante da…

‘Remissão da pena’: Modiano e o silêncio da história
Resenha / 31/01/2015

A memória é a matéria-prima do escritor francês Patrick Modiano, agraciado em outubro do ano passado com o prêmio Nobel de literatura. Isso pode sugerir um parentesco com Marcel Proust, o maior nome da literatura de seu país no século XX, autor dos sete volumes do caudaloso “Em busca do tempo perdido”. Mas é enganosa a semelhança. Enquanto Proust se dedica à recriação da vida mundana nos círculos aristocráticos franceses da virada do século em prosa suntuosa, inchada de minúcias psicológicas e sensoriais que esticam suas frases para além do fôlego convencional da leitura, Modiano faz tudo ao contrário. Em seus livros sempre magros, estranhamente inconclusivos, é em tom menor e prosa singela, às vezes tateante, que o escritor nascido em 1945 busca reconstruir a vida na capital francesa sob domínio nazista e no pós-guerra de sua infância, um tempo de vidas fraturadas, identidades fugidias e segredos tenebrosos. Onde Proust oferece um banquete, inventando um triunfo literário sobre o poder corrosivo do tempo, o autor de “Remissão da pena” (Record, tradução de Maria de Fátima Oliva do Coutto, 128 páginas, RS 29,00) serve pratos frugais, ainda que cheios de sabores inusitados, incorporando ao leque temático de uma obra marcada pela…

‘O professor’: ensaio sobre a queda
Resenha / 05/04/2014

Ninguém pode acusar Cristovão Tezza de cair nas armadilhas populistas do sucesso. Com o romance autobiográfico “O filho eterno”, de 2007, o escritor paranaense nascido em Santa Catarina – até então considerado um nome “difícil”, do tipo que a crítica elogia e a grande massa leitora evita – explodiu. Relato sensível mas inclemente das agruras de um pai para aceitar seu filho com síndrome de Down, o livro pulou o cercadinho onde se reúnem em gueto os poucos milhares de consumidores da literatura brasileira dita séria: virou best-seller, mas sem abrir mão do prestígio crítico que o levou a ganhar todos os prêmios literários mais importantes do país, proeza rara numa sociedade precariamente letrada e que se habituou a ver a lista dos romances mais vendidos loteada por sobrenomes como Green e Brown. Quem passou a esperar de Tezza o golpe baixo do “novo ‘O filho eterno’”, porém, tem se decepcionado desde então. Ainda bem. “O professor” (Record; 240 páginas; 32 reais) eleva a aposta do autor em sua literatura realista, historicamente enraizada, mas antinaturalista e rigorosa. Consciente da insuficiência irremediável da própria linguagem que lhe dá corpo, a prosa do romance parece querer desdobrar uma frase de “O espírito…

‘Limonov’: quando o romance não cabe na ficção
Resenha / 22/02/2014

O que é um personagem? Vamos aproveitar o espírito questionador para ir mais longe: o que é um romance? O leitor não precisa formular para si mesmo essas perguntas cabeçudas enquanto atravessa “Limonov”, do francês Emmanuel Carrère (Alfaguara, tradução de André Telles, 344 páginas, R$ 44,90). Dificilmente terá tempo para isso, aliás: o premiado livro que romanceia a biografia do escritor, aventureiro e político russo Eduard Limonov, lançado em 2011 por Carrère, um dos principais nomes da literatura francesa contemporânea, é daqueles em que as páginas parecem virar sozinhas, movidas pelo puro prazer da leitura. Mesmo assim, as perguntas ali de cima estarão à espreita por trás das palavras. Lançado no Brasil no fim do ano passado e recebido com frieza imperdoável, “Limonov” conta a história de um personagem que dificilmente caberia numa obra ficcional, um russo alucinado que é a melhor prova do acerto daquela tirada de Mark Twain: “Por que a verdade não seria mais estranha do que a ficção? A ficção, afinal, tem que fazer sentido”. Se um bom personagem fictício deve ser redondo, segundo uma imagem (do inglês E.M. Forster) que pegou, Limonov é um meteorito cambiante e cheio de arestas. Que machucam. Famoso em seu…

Não deixe de ler ‘O negro no futebol brasileiro’
Futebol & literatura , Resenha / 07/12/2013

Aproveito a semana do sorteio dos grupos da Copa do Mundo para pagar uma dívida. Nas entrevistas de lançamento de meu romance “O drible” (Companhia das Letras), tenho cavado oportunidades para recomendar a leitura de “O negro no futebol brasileiro”, de Mario Filho (Mauad, 2003, 344 páginas, R$ 64,90). Trata-se de nosso mais importante título sobre o tema e, mais do que isso, um clássico sobre a formação da sociedade brasileira que – ainda que menos declaradamente ambicioso e muito menos conhecido – comunga do espírito de obras como “Raízes do Brasil” e “Casa grande & senzala”. Não se trata de um romance, mas de uma longa reportagem, com tintas ensaísticas, sobre os anos de formação do grande esporte nacional. Quem ler “O drible” vai entender desde a epígrafe o quanto Mario Filho – que me atrevi a escalar como personagem do romance – tem a ver com meu livro. Mas acredito que ele mereça elogios mais explícitos, menos cifrados, razão pela qual republico abaixo a resenha que escrevi em 2004, quando “O drible” ainda era um projeto vago, sobre a então recente reedição de “O negro…” que até hoje se encontra nas livrarias. * Algumas mentiras, de tão repetidas,…

‘Asco’: receita para adorar a pátria pelo avesso
Resenha / 07/09/2013

Um homem que se mudou há quase duas décadas para o Canadá, mas acaba de voltar ao país natal para o enterro de sua mãe, reencontra um velho amigo dos tempos de estudante no bar de uma grande cidade terceiro-mundista. Bebem uísque e batem papo. Ou melhor, até onde nos é dado ouvir a conversa, apenas o recém-chegado fala, fala sem parar. O outro ouve com atenção (a julgar por sua capacidade de reproduzir depois, com riqueza de detalhes, o discurso do amigo, limitando-se a pontuá-lo aqui e ali com “disse fulano”), mas não emite opinião alguma. Não que se saiba. A questão de quem fala o quê – e quem reproduz o quê – é importante por mais de uma razão, como veremos. A primeira e mais evidente: o que aquele canadense adotivo despeja num bloco inteiriço do tamanho de uma novela curta é uma hiperbólica, obsessiva, ultrajante, engraçadíssima coleção de insultos ao país que deixou para trás. Como num catálogo turístico em negativo, nenhum aspecto da terra escapa de ser apresentado como asqueroso: povo, cultura, políticos de direita e esquerda, militares, grandes vultos históricos, clima, culinária, arquitetura, caráter, educação, inteligência, tudo ali representa, segundo ele, o ponto mais…

Tóibín concebe Maria com pecado
Resenha / 17/08/2013

Em termos literários, Maria, a mãe de Jesus, aparece no Novo Testamento como uma personagem pouco desenvolvida: sem pecado, amorosa, silenciosa, discreta, está lá para criar um filho destinado à glória e ao martírio sem uma única queixa. Não demora a escorregar para a periferia da ação, mas volta no fim para acolher o cadáver destroçado do homem que gerou e representar a mater dolorosa. É o que se poderia chamar de um tipo, um estereótipo da mãe perfeita, não exatamente um personagem humano – o que, se é insatisfatório de um ponto de vista secular, literário ou mesmo histórico, funcionou divinamente na narrativa mitológica que fundou o cristianismo, como comprova o duradouro poder simbólico e imagético de sua figura. Na curta, concentrada novela “O testamento de Maria” (Companhia das Letras, tradução de Jorio Dauster, 88 páginas, R$ 29), o escritor irlandês Colm Tóibín encara um desafio que, pensando bem, acho curioso que só seja encarado agora, após tantas décadas de feminismo: reivindicar Maria para a literatura e transformá-la numa mulher de três dimensões, narradora de sua triste história. O resultado é um livro belo e estranho, ao mesmo tempo previsivelmente herético e surpreendentemente respeitoso. A princípio concebida como um…

Banville e a máquina de produzir epifanias
Resenha / 13/07/2013

Reconheço que o alerta pode afugentar leitores deste texto que mal começa, mas paciência: muitas vezes, ler demais sobre um escritor atrapalha a leitura do próprio escritor. Veja-se o caso do irlandês John Banville, que acaba de vir à Flip a bordo de seu último romance, “Luz antiga” (Biblioteca Azul, tradução de Sergio Flaksman, 336 páginas, R$ 39,90). Quando se sabe que o próprio Banville se considera um raro – talvez até único, embora isso não fique claro – artista verdadeiro das letras num cenário internacional povoado de artesãos no máximo competentes e outros fornecedores de conteúdo para o mercado editorial, um representante implacável da literatura highbrow num mundo definitivamente middlebrow, é tentador transformar a leitura num teste e adotar, após meia dúzia de páginas, uma de duas posturas: ficar a favor de tal juízo presunçoso, encontrando a cada linha a confirmação de seu acerto, ou ficar contra o mesmo juízo e descobrir em cada linha seu desmentido categórico. Em outras palavras: ou Banville é um gênio ou é uma besta. Não por acaso, encontram-se por aí as duas leituras. Ambas são desculpáveis, pois é o personagem arrogante construído pelo próprio romancista, sobretudo a partir de sua premiação com o…

Como o português pode salvar sua vida
Resenha / 06/07/2013

A reedição de “Como aprendi o português e outras aventuras” (Casa da Palavra e Fundação Biblioteca Nacional, 264 páginas, R$ 34,00), coletânea de artigos, crônicas e breves ensaios escritos nos anos 1940-50 por Paulo Rónai (1907-1992), é uma excelente notícia. A edição em formato de bolso traz de volta à circulação um livro tão espirituoso quanto comovente. Vamos direto ao ponto: a paixão pelo português salvou a vida de Rónai. Literalmente. Judeu húngaro, o erudito naturalizou-se brasileiro em 1945 e, em décadas de atividade incessante como professor de línguas, tradutor e crítico literário, retribuiu o favor tornando nosso país mais inteligente e sintonizado com a melhor tradição humanista europeia que ele representava tão bem. Dito assim, o resumo da ópera pode sugerir um livro de tom épico, mas parte de sua graça é ser o oposto disso – bem-humorado, despretensioso e autoirônico como o próprio autor. Grandiloquente é apenas o pano de fundo histórico em que se deu a aventura linguística que mudou a vida de Rónai: quando, aos 32 anos, já poliglota, ele começou a estudar português em Budapeste como um dos desdobramentos naturais de seu interesse por latim, corria o ano de 1939 e a Segunda Guerra Mundial…

‘O retrato de Dorian Gray’: mais jovem do que nunca
Resenha / 29/06/2013

O primeiro aspecto desconcertante de “O retrato de Dorian Gray – edição anotada e sem censura” é o que se poderia chamar de paradoxo do tamanho. Costumamos pensar no verbo censurar como sinônimo de suprimir, cortar – não à toa, é uma tesoura seu símbolo universal. No entanto, a edição da obra-prima de Oscar Wilde organizada pelo pesquisador acadêmico Nicholas Frankel (Biblioteca Azul, tradução de Jorio Dauster, 352 páginas, R$ 64,90), alegadamente fiel até a última vírgula à primeira versão datilografada e emendada à mão pelo escritor irlandês em 1890, é consideravelmente menor do que aquela que seria publicada no ano seguinte em livro e admirada por gerações de leitores: tem apenas treze capítulos, sete a menos do que o texto canônico. Que censura foi aquela? Na resposta a essa pergunta, que não é simples, vamos encontrar o pecado (menor) e a virtude (imensa) do trabalho de Frankel. Primeiro, o pecado: sim, há um leve toque de sensacionalismo na simplificação que o subtítulo abraça ao falar em “sem censura” (no original, uncensored). A realidade é mais complicada. O que houve foi um processo tortuoso em que, em primeiro lugar, o texto passou pelo crivo dos editores da revista americana “Lippincott’s”,…

‘A infância de Jesus’: o gesto primordial da literatura
Resenha / 15/05/2013

Em seu novo romance, “A infância de Jesus” (Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 304 páginas, R$ 44,00), J.M. Coetzee leva a investigação ética que sempre foi o principal motor de sua literatura a um plano de inédita rarefação. Descarnada e assumidamente alegórica desde o título, a narrativa desenha uma série de parábolas provisórias e inacabadas que se corrigem e se negam o tempo todo, recusando ao leitor o prazer de fechar um sentido e dizer: “Ah, então é isso!” – prazer que se pode chamar de fácil, mas do qual é dificílimo abdicar por completo, sob risco de inviabilização não apenas da literatura mas da própria linguagem. O que confirma o sul-africano, no mínimo, como o mais corajoso dos grandes escritores vivos. A história em si é tão simples, linear e desprovida de enfeites quanto a prosa em que é apresentada. Depois de atravessar o oceano, um homem de meia-idade, Simón, chega com um menino de cinco anos a uma terra desconhecida em busca de vida nova. O menino, David, é brilhante, mimado, voluntarioso, irritante. Não é parente do homem, mas uma alma desgarrada com a qual ele esbarrou no navio. Por razões pouco claras, Simón resolve…

‘Conversas com escritores’: a arte do bom papo
Resenha , Vida literária / 20/03/2013

Estou lendo com muito prazer o recém-lançado “Conversas com escritores”, de Ramona Koval (Globo Livros, Biblioteca Azul, tradução de Denise Bottmann). É apropriado que o título chame de “conversas” (no original, conversations) as entrevistas feitas pela escritora e jornalista australiana especializada em literatura com 26 autores – entre eles Saul Bellow, Ian McEwan, Toni Morrison, Harold Pinter, Gore Vidal, Mario Vargas Llosa, Amós Oz e Martin Amis. “Há momentos em uma entrevista em que a gente prende a respiração, sem saber se o próximo passo vai trazer a humilhação pública ou um agradável alívio”, diz Koval na introdução. O risco faz mesmo parte de seu jogo. Não lhe falta informação sobre a obra dos autores entrevistados, mas tampouco falta coragem para se colocar diante deles em abordagens pouco convencionais. Fico pensando que talvez seja a oralidade do rádio, veículo em que ela apresentou durante anos um programa de sucesso em seu país, chamado The Book Show, a principal explicação para o fato de suas entrevistas se distanciarem do formato tradicional e virarem bate-papos propriamente ditos, com reticências, associações livres, apartes e epifanias. “Relendo estas entrevistas”, escreve Koval, “vejo que volto constantemente a perguntas sobre a maneira de avaliar uma vida,…

Destaques 2012 (I): cinco resenhas
Resenha / 12/12/2012

“Ficção completa”, de Bruno Schulz: O escritor polonês (1892-1942) ficou marcado pela sombra de Franz Kafka, que como ele era um judeu europeu desenraizado. A ligação entre os dois foi estimulada pelo próprio Schulz, que chegou a assinar uma tradução de “O processo” que não fez, mas tem valor dúbio. A verdade é que sua literatura de estonteante originalidade não deve nada a ninguém. O principal indício da diferença entre os dois escritores está no modo como tratam a linguagem. Em Kafka ela mantém uma superfície lisa, homogênea e próxima do tédio dos relatórios, enquanto a narrativa enlouquece por baixo. Em Schulz o enlouquecimento poético da prosa é o próprio espetáculo. Os dois são alucinógenos, mas Kafka é uma substância injetável e Schulz, uma bebida de estalar a língua e lamber os beiços (leia mais). . “O espírito da prosa”, de Cristovão Tezza: Livro corajoso e único no cenário brasileiro, em que um escritor de sucesso reflete sobre sua formação, expõe dúvidas e fraquezas e defende teoricamente suas escolhas estéticas no quadro histórico da prosa de ficção. Tezza faz uma defesa enfática de algo que grande parte de nossa inteligência literária tem gostado de tratar como defunto, muitas vezes com…

DFW, o prolixo sintético, está entre nós
Resenha / 29/10/2012

Aqui vai mais uma historinha didática. Tem dois caras sentados num bar nas profundezas remotas do Alasca. Um dos caras é religioso, o outro é ateu, e eles estão discutindo a existência de Deus com aquela intensidade característica que surge lá pela quarta cerveja. Aí o ateu diz: “Olha, não é que me faltem motivos concretos para não acreditar em Deus. Não é como se eu nunca tivesse experimentado essas coisa toda de Deus e orações. Agora mesmo no mês passado eu estava longe do acampamento quando fui pego de surpresa por aquela nevasca terrível, não conseguia ver nada, fiquei totalmente perdido, estava 45 graus abaixo de zero, e aí decidi fazer exatamente isso: caí de joelhos na neve e gritei ‘Oh Deus, se é que existe Deus, estou perdido nessa nevasca e vou morrer se você não me ajudar!”. Aí o sujeito religioso encara o ateu, todo intrigado: “Bem, depois disso você deve ter começado a acreditar”, ele diz, “afinal de contas você está aqui, vivo”. O ateu revira os olhos, como se o religioso fosse um tremendo paspalho: “Não, cara, só aconteceu que uns esquimós apareceram do nada e me mostraram para que lado ficava o acampamento”. É…

‘O espírito da prosa’: para apaixonados por literatura
Resenha , Vida literária / 25/07/2012

“O espírito da prosa – uma autobiografia literária”, de Cristovão Tezza (Record, 224 páginas, R$ 34,90), é um livro corajoso e único no cenário brasileiro: um longo ensaio em que um ficcionista de sucesso reflete sobre sua formação, sonda motivações ocultas, esmiúça referências, defende teoricamente suas escolhas no quadro histórico da prosa de ficção e, ao mesmo tempo, expõe as próprias dúvidas e pontos fracos com franqueza desconcertante. Ex-professor universitário e estudioso do linguista russo Mikhail Bakhtin, Tezza não facilita as coisas para o leigo menos ligado no tema: nem tanto pela linguagem – “Este não é um trabalho acadêmico”, avisa na primeira frase do livro – quanto por um tom singularmente fervoroso, “O espírito da prosa” dirige-se a um leitor no mínimo apaixonado por literatura. No trecho abaixo, depois de destroçar os três primeiros livros que escreveu – e que nunca publicou –, Tezza faz uma defesa enfática de algo que grande parte da inteligência literária brasileira tem gostado de tratar como defunto, muitas vezes com a superficialidade apressada de quem já não precisa reafirmar o óbvio: a ficção realista e seu lugar único, que obviamente não é o de uma linguagem em que o autor insufle uma verdade…

‘Bruno Schulz – Ficção completa’: gênio de beber
Resenha / 13/06/2012

Meu pai ficava deitado no assoalho, todo nu, sarapintado de manchas negras de totem, riscado pelas linhas das costelas, pelo desenho fantástico da anatomia que transparecia, ficava de quatro, possuído pelo fascínio da aversão que o puxava para dentro de seus emaranhados caminhos. Meu pai se mexia com movimentos complicados de numerosos membros, num estranho ritual no qual reconheci, apavorado, uma imitação do cerimonial da barata. Desde então renunciamos a nosso pai. Sua semelhança com uma barata ficava cada dia mais nítida – meu pai se transformava em barata. Esse trecho de “As baratas”, texto (conto ou capítulo de romance?) de “Lojas de canela”, seu principal livro, foi determinante para que o escritor polonês Bruno Schulz (1892-1942) ficasse marcado pela sombra de Franz Kafka. A ligação entre os dois nomes foi estimulada pelo próprio Schulz, que chegou a assinar uma tradução de “O processo” que não fez, mas tem valor dúbio: se fornece algumas balizas para o leitor situar a vida e a obra do polonês, pode obscurecer o fato de que sua literatura não deve nada a ninguém, tem uma originalidade estonteante e sabor inteiramente distinto daquela do escritor tcheco. O melhor é tomar Schulz em seus próprios termos,…

‘A trama do casamento’: Eugenides em queda livre
Resenha / 25/04/2012

O escritor americano Jeffrey Eugenides estreou em 1993 com uma obra-prima tão madura e original, o romance-novela “Virgens suicidas”, que a consagração de público e crítica atingida dez anos depois por seu segundo romance, “Middlesex”, ganhador do Pulitzer, pareceu apenas natural. Da geração de David Foster Wallace e Jonathan Franzen, Eugenides parecia destinado a figurar em posição de destaque no primeiro time da “nova geração” americana. Parecia. Mais uma década se passou e seu terceiro romance, “A trama do casamento” (que a Companhia das Letras lança mês que vem, com tradução de Caetano Galindo), é tão fraco que obriga seus admiradores, entre os quais me incluo, a repensar algumas das certezas expostas acima. Mais (ou menos) que uma resenha, este texto vai procurar elementos para começar a lidar com essa questão triste: a queda livre qualitativa de um escritor que lançou um dos melhores livros de estreia que já cruzaram meu caminho. Primeiro convém falar um pouco de The marriage plot – que li no original, razão pela qual nada direi sobre a tradução. Desde o título, trata-se de uma tentativa explícita de atualizar (para os anos 1980) os romances românticos que terminavam com o casamento da heroína, à moda…

‘A visita cruel do tempo’: caminho novo ou fim da linha?
Resenha / 29/02/2012

Não é uma crítica à sua capacidade de envolver o leitor nos dramas dos personagens – capacidade incontestável, diga-se logo – reconhecer que, pelo menos para quem escreve, o domínio técnico é o que mais chama a atenção em “A visita cruel do tempo”, da escritora americana Jennifer Egan (Intrínseca, tradução de Fernanda Abreu, 336 páginas, R$ 29,90). É preciso ser um monstro para manter tensionada de forma tão impecável a corda de um romance – ou coleção de contos interligados, impossível decidir – em que cada segmento é narrado por uma voz mais virtuosística que a outra, avançando e recuando na cronologia para cobrir cinco décadas e tendo como sombrio motivo de fundo uma reflexão sobre os estragos provocados pela truculenta passagem do tempo na vida dos personagens e da própria cultura americana, que adquire aqui os tons crepusculares de um império que se sabe decadente. Seria um erro tentar resumir a intrincada trama de “A visita cruel do tempo” numa resenha, mas convém situar os marcos temporais que estão em suas extremidades. O mais recuado fica nos anos 1970 em que o quarentão Lou, produtor musical de sucesso, cheirador e sedutor de menininhas, aparece ao longo de dois…

‘E foram todos para Paris’: uma viagem na primeira classe
Resenha / 18/01/2012

Terá começado com o fim da Primeira Guerra Mundial, nos passos de John dos Passos e e.e. cummings? Ou antes disso, com o desembarque do crítico de arte Leo Stein, irmão de uma certa Gertrude? Ou teria sido alguns anos mais tarde, quando lá pôs os pés pela primeira vez um sujeito chamado Ernest Hemingway – que se tornaria seu principal divulgador e figura mais emblemática? Seja como for, o fato incontestável é que a mitológica Paris da chamada Geração Perdida é uma criação americana, celebrada nostalgicamente por geração após geração de artistas americanos – o último deles, o cineasta Woody Allen, com o divertidíssimo “Meia-noite em Paris”. Se a mitologia parisiense dos anos 1920-1930 tem em seu coração esse drástico deslocamento geográfico-cultural, não é tão espantoso que seu mais sucinto e espirituoso guia turístico-literário seja de autoria não de um americano, nem de um francês, mas de um brasileiro. Em “E foram todos para Paris – Um guia de viagem nas pegadas de Hemingway, Fitzgerald & Cia.” (Casa da Palavra, 128 páginas, R$ 39,30), o jornalista Sérgio Augusto equilibra num volume magro e bem ilustrado, que se presta tanto à leitura corrida quanto à consulta, o rigor no acompanhamento…

Ainda ‘A geração superficial’: e a literatura com isso?
Resenha / 11/01/2012

Na resenha do livro “A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros” (The shallows), segunda-feira, faltou falar justamente do que está no foco do Todoprosa: livros, e dentro dos livros a literatura, e dentro da literatura a prosa de ficção. Como ficam essas coisas arcanas, o texto enquanto arte e tal, no mundo colorido, afogado em informação, compulsivo e desatento que Nicholas Carr vê na internet? Um mundo em que todos os textos – e não só os feitos de palavras – viram “conteúdo” indexado, imediatamente acessível na forma de excertos, caquinhos interligados de modos imprevisíveis, tão descontextualizados quanto certo microfragmento triangular de louça cartaginesa azul num caleidoscópio que tende ao infinito. A literatura não é abordada diretamente em “A geração superficial”. Não é este seu foco. Uma exceção é o capítulo em que seu autor discorre sobre o Google Book Search (mas aí está falando mais de mercado editorial, política cultural e biblioteconomia que de literatura). A outra é o momento em que ele fulmina o triunfalismo digital anencefálico de um articulista que nega todo valor à leitura de “Guerra e paz”, um romance que estaríamos na obrigação histórica de finalmente admitir ser uma…

A internet é uma máquina de fazer idiotas?
Resenha / 09/01/2012

“A geração superficial – O que a internet está fazendo com os nossos cérebros” (Agir, 384 páginas) é o livro que consolidou a posição do jornalista americano Nicholas Carr como principal crítico cultural do mundo digital. O livro nasceu de um artigo polêmico que Carr publicou em 2008, chamado “O Google está nos deixando burros?”, comentado na época aqui no blog. A tese central é a mesma: ao nos ensinar a ler de outra forma – veloz, horizontal, volúvel, interativa, baseada na satisfação imediata –, a tecnologia digital está reprogramando nossas mentes no nível bioquímico, devido a uma característica do cérebro chamada neuroplasticidade. Em consequência disso, a capacidade da espécie de acompanhar raciocínios longos e mergulhar sem distração na solução de um problema complexo pode estar simplesmente em vias de extinção. Se a ideia central já constava do artigo de 2008, “A geração superficial” sustenta o pessimismo de seu autor com uma impressionante variedade de informações históricas, científicas, econômicas etc. Consegue manter no ar todos esses malabares sem perder a atenção do leitor – isto é, daquele leitor que ainda for capaz de prestar atenção em um texto com mais de cinco linhas. Carr não é um luddita, um reacionário….

Livros do ano? Me vê meia dúzia
Resenha / 21/12/2011

“Habitante irreal”, de Paulo Scott – Atolada num ambiente besta que se assemelha a uma guerrinha entre fiéis e infiéis (existe ou não existe, é divina ou é uma fraude, vamos à missa ou não vamos?), a literatura brasileira contemporânea corre o risco de nem se dar conta de que acaba de ganhar um livraço. Acerto de contas com os sonhos e desilusões de uma geração, o romance de Scott revela-se um cruel espelho político-social de impasses coletivos e, no caminho oposto, um objeto que se quer tão xamânico quanto a bizarra máscara construída pelo personagem Donato, o “índio mais não índio do qual já se teve notícia”, com o propósito de dar voz aos mortos. (Leia mais..) “Diário da queda”, de Michel Laub – Sem grandiloquência e acomodadas confortavelmente no arco da narrativa, ideias grandiosas tornam notável o novo romance de Laub. Cobrindo três gerações, desde a história do avô do narrador em Auschwitz, e apontando com comedida esperança para uma quarta, “Diário da queda” é uma pequena joia ficcional que, ao tratar sem temor ou reverência a pesada herança da literatura pós-Holocausto, adiciona uma dimensão histórica universal à costumeira obsessão do autor com o passado e esmiúça de…

‘Habitante irreal’: desabou entre nós um livraço
Resenha / 05/12/2011

Se estivesse em curso um debate crítico de verdade sobre a literatura brasileira contemporânea, o romance “Habitante irreal”, de Paulo Scott (Alfaguara, 264 páginas, R$ 39,90), preencheria todos os requisitos para se por em seu centro e se tornar um teste de realidade para as teses antagônicas que cruzariam o ar: as que pregassem a falência artística de toda representação do real, as que declarassem nojinho da tradição e quisessem reinaugurar a literatura em bases sociológicas, as que apostassem tudo na formação de leitores e no prazer de ler etc. Infelizmente para “Habitante irreal”, não há debate algum. Atolada num ambiente besta que se assemelha a uma guerrinha entre fiéis e infiéis (existe ou não existe, é divina ou é uma fraude, vamos à missa ou não vamos?), a literatura brasileira contemporânea corre o risco de nem se dar conta de que acaba de ganhar um livraço. “Habitante irreal” representa um salto na carreira de Scott, 45 anos, escritor gaúcho radicado no Rio. Entende-se como ele chegou até aqui: não houve guinada no caminho iniciado com “Voláteis” (2005), seu primeiro romance, que buscava uma poética da sujeira e do desencanto em submundos urbanos, contrapondo apenas uma certa candura ao risco…

O vencedor do I Concurso de Resenhas: sobre ‘Zilanda’
Resenha / 23/09/2011

Um texto sobre o romance “Esperando Zilanda” ([e] editorial, 2010), bom livro de estreia da escritora carioca Tamara Sender, garantiu a Felipe Charbel o primeiro lugar no I Concurso Todoprosa de Resenhas – Brasil, século 21. Experiente no ramo, Charbel produziu uma apreciação crítica lapidar em que descrição, interpretação, referências a outras obras e texto apurado se fundem com enganosa facilidade. Para seguir à risca a receita da boa resenha segundo John Updike, só faltou citar um trecho mais encorpado da obra, a fim de que o leitor pudesse julgar por si mesmo o estilo do autor – regrinha que, naturalmente, não é obrigatória e que raros concorrentes seguiram. Em suas próprias palavras, Charbel “é professor adjunto de Teoria da História na UFRJ e autor do livro ‘Timoneiros: retórica, prudência e história em Maquiavel e Guicciardini’ (Editora da Unicamp, 2010). Foi jurado da Copa de Literatura Brasileira em 2008 e 2009”. O primeiro colocado ganha um pacote com os seguintes livros: “Mecanismos internos”, de J.M. Coetzee; “O mal de Montano”, de Enrique Vila-Matas; e “Sobrescritos”, de Sérgio Rodrigues. O segundo lugar leva “Borges oral & sete noites”, de Jorge Luis Borges, e “Se um de nós dois morrer”, de Paulo…

I Concurso de Resenhas: sobre ‘Mãos de Cavalo’
Resenha / 21/09/2011

Com um texto sobre o romance “Mãos de Cavalo”, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 2006), Leonardo Petersen Lamha ficou com a segunda posição no I Concurso Todoprosa de Resenhas – Brasil, século 21. A sacada do personagem “em dúvida sobre seu próprio arco dramático” me parece uma contribuição relevante à leitura desse livro já tão comentado. Em suas próprias palavras, Lamha “tem 23 anos, cursa o último período de Comunicação Social com habilitação em Cinema na PUC-Rio. Está se especializando em Roteiro Cinematográfico e estuda literatura paralelamente à faculdade, mas é antes de tudo um leitor”. A resenha vencedora será publicada na sexta-feira. A GLÓRIA DE UM COVARDE, de Leonardo Petersen Lamha “Mãos de Cavalo”, de Daniel Galera, abre com um capítulo que pode ser lido como um mito fundador das futuras obsessões do personagem, quando adolescente e adulto, e estabelece alguns temas que serão recorrentes, tais como como o corpo levado ao limite, a violência física, o exercício físico como fuga, frustração, vergonha e autoconsciência: um garoto (Hermano) de dez anos, espetacularmente pedalando pelas ruas, leva um tombo e vê pela primeira vez o seu sangue escorrendo. O livro intercala duas tramas que contam duas fases distintas da…

I Concurso de Resenhas: sobre ‘Traduzindo Hannah’
Resenha / 19/09/2011

Publico hoje o primeiro dos textos vencedores do I Concurso Todoprosa de Resenhas – Brasil, século 21. Terceira colocada na disputa, a resenha assinada por Gilda Oswaldo Cruz chegou de Lisboa e discorre de modo competente – ainda que em tom mais descritivo que analítico – sobre o romance “Traduzindo Hannah”, de Ronaldo Wrobel, lançado ano passado pela editora Record. O segundo colocado será publicado na quarta-feira e o primeiro, na sexta. Em suas próprias palavras, Gilda “é pianista e escritora. Reside na Europa desde 1984 e dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros em Barcelona. Tem CDs dedicados à música de Claudio Santoro (Biscoito Fino) e publicou em 2010 o romance ‘Na sombra do herói’ (Topbooks)”. TRADUZINDO A CONDIÇÃO JUDAICA, de Gilda Oswaldo Cruz Ambientado no período da violenta repressão da ditadura de Vargas aos comunistas no Rio de Janeiro, de meados da década de 30 até o fim da guerra em 1945, este é um romance de formação que reconstitui, com humor agridoce e uma rara verve narrativa, a vida, os costumes e as vicissitudes de integrantes da pequena colônia judaica carioca instalada nos arredores da extinta Praça Onze, no centro da cidade. Quem leu “Olga”, de Fernando Morais,…

‘O senhor do lado esquerdo’: por uma mitologia carioca
Resenha / 22/08/2011

O típico romance brasileiro contemporâneo não quer saber do passado, seja em forma de história ou de mito. Para ele o passado perdeu substância e virou uma obsolescência de mau gosto, museu da irrepresentabilidade da experiência humana. À parte uma óbvia diversidade – apregoada em excesso, a meu ver – qual é o narrador típico da ficção brasileira dos últimos vinte anos? Eu diria que é o sujeito solitário e cético que se vê lançado num mundo de referências – morais, sexuais, políticas, religiosas, familiares, profissionais – que considera fajutas, esvaziadas, fantasmagóricas, quando não violentas e absurdas. Menos agente da realidade do que seu paciente crítico, bartlebyano, esse narrador às vezes é abúlico, às vezes agitado, mas sempre tão atordoado quanto o leitor. Habita uma espécie dolorida de presente: aquele em que a quebra das molduras fornecidas pelo passado e a inação que isso induz tornam o futuro aleatório, portanto imprevisível, mas de toda forma gratuito e vão. Esse “narrador típico” – uma abstração generalista, claro – é descendente direto de Albert Camus e Samuel Beckett, via Rubem Fonseca e João Gilberto Noll. Foi antecipado por Cyro dos Anjos, mas não sabe disso. Também tem suas dívidas com o noir,…

‘Se um de nós dois morrer’: existe vida após a arte
Resenha / 27/06/2011

Primo Levi publicou “É isto um homem?” em 1947. Vendeu 150 exemplares. Depois da recusa de 27 editores, “Molloy”, de Samuel Beckett, foi publicado pelas Éditions de Minuit e vendeu 694 exemplares. “Malone morre” e “O inominável”, lançados logo em seguida, venderam 241 e 476 exemplares, respectivamente. “Cidade de vidro”, parte da Trilogia de Nova York, de Paul Auster, foi recusado por 17 editores. “A amante de Wittgenstein”, de David Markson, sofreu 54 recusas. Laurence Sterne pagou a primeira edição de “Tristram Shandy”. José Rubem Fonseca concluiu seu primeiro livro aos 18 anos. Um editor de fundo de quintal recusou os contos e perdeu os originais, que não tinham cópia. Aos 38, lançou seu segundo livro. Em seis anos, a primeira edição de “A interpretação dos sonhos” vendeu 351 exemplares. Sob o título Estatísticas e fatos, as pepitas acima, ao lado de outras de teor semelhante, constam da pasta de textos avulsos que o escritor Théo, defunto, encarrega sua ex-namorada de fazer chegar às mãos do colega catalão Enrique Vila-Matas no romance “Se um de nós dois morrer”, de Paulo Roberto Pires (Alfaguara, 124 páginas, R$ 36,90). O livro é uma sofisticada brincadeira literária que consegue a proeza de ser…

Avacalhando preconceitos: ‘o remorso de baltazar serapião’
Resenha / 27/04/2011

Primeiro livro do autor português de origem angolana Valter Hugo Mãe a ser lançado no Brasil, “o remorso de baltazar serapião” (editora 34, R$ 37,00) é um romance cercado de atributos que podem despertar a desconfiança do leitor. Certamente despertaram a minha: regionalismo, tiradas próximas do realismo mágico, linguagem de sabor arcaico e sintaxe peculiar sugerindo intenções rosianas, abolição das maiúsculas como uma espécie de bandeira (velhusca) de modernidade… Hmm, sei. Ao fim da leitura, todos esses preconceitos estavam avacalhados (o adjetivo é escolhido a dedo) e reduzidos ao que são: preconceitos, só. Mais uma prova de que não há no mundo da literatura nenhum estilo, tema, vereda, recurso, expediente, truque, absolutamente nada que se possa excluir de antemão do campo da novidade artística. Estranho e memorável, o livro de Mãe tira sua força justamente do fato de trilhar caminhos perigosos. Está menos para Guimarães Rosa do que para Raduan Nassar em sua fusão de linguagem e história num magma violento de pulsões quase pré-humanas, no marco zero do humano. Seu tempo pode ser situado tanto na Idade Média – uma Idade Média “cravada no coração da letra”, nas belas palavras da crítica brasileira Claudia Nina – quanto, como em…

‘Diário da queda’: a ascensão de um autor
Resenha / 25/03/2011

A notícia é boa para aqueles poucos milhares de leitores fiéis de ficção nacional, mas mais importante ainda para os muitos milhares que nem passam perto desse tipo de produto: “Diário da queda”, o quinto romance do escritor gaúcho Michel Laub (Companhia das Letras, 152 páginas, R$ 38,50), é um grande livro. Desafiando o clima volátil deste início de século, com suas novidades que ficam velhas em cinco minutos, a permanência desse romance deve ser garantida por pelo menos dois achados que seriam dignos de nota em qualquer época na literatura brasileira: o personagem tragicômico do sobrevivente de Auschwitz que, feito um Pangloss autista, dedica os últimos anos de vida a escrever o interminável diário de uma realidade edulcorada e perfeita; e a cena de crueldade adolescente protagonizada pelo narrador judeu na festa de aniversário de João, o colega gói e pobre – a queda propriamente dita do título, fulcro da história. Se os dois elementos, personagem e cena, têm uma pungência e uma reverberação que atestam um salto qualitativo na obra de Laub, é interessante observar como isso se dá no quadro de uma serena continuidade e fidelidade ao próprio estilo. Como quase todos os romances do autor (a…

‘Como funciona a ficção’: quem disse que a literatura morreu?
Resenha / 11/03/2011

Se tivermos sorte, e bota sorte nisso, o livro “Como funciona a ficção” (Cosac Naify, tradução de Denise Bottmann, 232 páginas, R$ 49,00), lançado em 2008 pelo crítico inglês James Wood, cairá entre nós como uma bomba de efeito moral. Claro que esta é só uma frase de efeito (moral?) e que um simples volume de crítica literária dificilmente provocará tal estrago. Isso não altera o fato de que, num mundo ideal, seria de esperar que depois dele uma série de personagens que atravancam nossa vida literária saíssem correndo em busca de abrigo, do pequeno resenhista movido por cordialidades buarquianas ao crítico acadêmico adestrado por décadas de teoria e estudos culturais para odiar tudo o que cheire a literatura. Simpatizemos ou não com suas idiossincrasias (eu simpatizo com algumas delas), Wood é tão apaixonado pela coisa que não se furta a cair no pasmo boquiaberto diante de certa tirada poética de Virginia Woolf no romance “As ondas”: “Sinto-me mortificado com essa frase; um pouco porque não consigo explicar de jeito nenhum por que ela me comove tanto”. Nessa cândida confissão de impotência reside, paradoxalmente, o maior poder de “Como funciona a ficção”. Egresso da crítica literária jornalística, que exerceu por…

‘Freedom’: Obama no conteúdo, Bush na forma
Resenha / 07/01/2011

Se quiséssemos lançar mão de categorias romanescamente tão rasas quanto aquelas que ajudam a estruturar sua visão de mundo, poderíamos dizer que Freedom, o novo e superaclamado livro de Jonathan Franzen, é um romance democrata no conteúdo e republicano na forma. Isso seria um pouco injusto, mas só um pouco – na medida exata em que, políticas ou não, todas as metáforas que buscam dar conta do atacado passam por cima do que as contraria no varejo. Como ocorre o tempo todo no livro, aliás. Franzen é um romancista saudoso de um tempo pré-modernista (mítico?) em que a grande ficção desempenhava na sociedade um papel central, ideologicamente estruturador. Seus livros não são apenas bons de ler, cheios de humor e peripécias, mas se pretendem espelhos críticos e mais ou menos realistas do mundo, em diálogo com a tradição narrativa do século 19. O fôlego das histórias é épico e a construção dos personagens e de seu ambiente tenta se expandir tanto para dentro quanto para fora – tanto na dimensão psicológica quanto na social, com um interesse cujo foco, na verdade, não se encontra nem num plano nem no outro, mas em sua interseção. As comparações com Leon Tolstoi que…

‘Outras cores’, de Pamuk: literatura é remédio
Resenha / 05/11/2010

Atrás da beleza dos livros de Nabokov há sempre algo de sinistro (ele usou essa palavra num dos seus títulos), um cheiro de tirania. Se a atemporalidade da beleza é uma ilusão, isto é em si um reflexo da vida e da época de Nabokov. Sendo assim, por que fui afetado por essa beleza, escrita, como é, nos termos de um pacto faustiano com a crueldade e o mal? (…) Para compreender melhor o que chamo de crueldade de Nabokov, examinemos o trecho [de “Lolita”] no qual Humbert visita o barbeiro na cidade de Kasbeam – só para passar o tempo, pouco antes de Lolita o deixar (de modo tão cruel, mas com toda a razão). Trata-se de um velho barbeiro de província, com o dom da tagarelice, e enquanto faz a barba de Humbert fala com volubilidade sobre o filho jogador de beisebol. Limpa os óculos no avental por cima de Humbert e deixa a tesoura de lado para ler recortes de jornal sobre o filho. Nabokov dá vida ao barbeiro em poucas frases miraculosas. (…) Mas no fim Nabokov joga sua última e mais chocante cartada. Humbert presta tão pouca atenção ao barbeiro que só no último instante…

Carver definitivo
Resenha / 22/09/2010

Um livraço chegou às prateleiras no início deste mês: “68 contos de Raymond Carver” (Companhia das Letras, 712 páginas, R$ 54,00). O aumentativo irregular se justifica por uma combinação de três fatores: Primeiro: um dos grandes mestres do conto no século 20, o americano Carver (1938-1988) tem pela primeira vez a parte mais substancial de sua obra reunida por aqui num só volume, dos textos pouco “carverianos” da juventude aos que escreveu em seus últimos anos de vida e que só chegaram ao livro postumamente, passando pelos 12 contos de sua obra-prima “Catedral”, de 1983. Segundo: a tradução caprichada de Rubens Figueiredo, também ele contista e um prosador que cultiva a secura do estilo, é fiel até a última vírgula ao lirismo contido do original. Terceiro: a excelente introdução de Rodrigo Lacerda condensa em apenas quinze páginas tudo o que o leitor pouco familiarizado com Carver (ou que só conhece seu universo por tabelinha com o filme “Shortcuts – Cenas da vida”, de Robert Altman, baseado em algumas de suas histórias) precisa saber para situar esse egresso dos cursos de creative writing, nascido numa família de trabalhadores braçais, alcoólatra e eterno desajustado, na linha evolutiva de um gênero pouco comercial…

Notícia da atual literatura brasileira: instinto de internacionalidade (II)
Resenha , Vida literária / 23/08/2010

Falávamos das respostas que a literatura brasileira ensaiou ao longo da história para a velha charada de produzir arte relevante num país situado na periferia econômica e cultural do mundo. Como já deixei sugerido, acredito que o novo livro de João Paulo Cuenca, “O único final feliz para uma história de amor é um acidente”, possa trazer um ou dois elementos novos para a conversa. Um deles é o de, roubando novamente a ideia de Machado de Assis com sinal trocado, nos fazer pensar que boa parte da literatura brasileira contemporânea pode estar sofrendo de uma “internacionalidade de vocabulário”. Par oposto do nativismo de Alencar e Gonçalves, em que o índio é enfiado numa forma europeia sem alterá-la significativamente, a “internacionalidade de vocabulário” seria a propensão de soar cosmopolita (todos queremos ser universais, certo?) por meio da citação, do adorno, da ostentação de cultura, sem que isso altere de modo significativo o que está sendo narrado e como. Às vésperas da Copa de Literatura de 2009, o jurado e blogueiro que se assina Doutor Plausível escreveu um artigo curioso afirmando ter contado um a um os casos de name-dropping, de citação de pessoas ou objetos culturais – nacionais e estrangeiros…

Por que não gostei do ‘Verão’ de Coetzee
Resenha / 07/07/2010

Acabo de confirmar no Google minha impressão inicial de que “Verão” (Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 280 páginas, R$ 44,50), o mais recente romance do escritor sul-africano J.M. Coetzee, foi um sucesso praticamente unânime de crítica, primeiro no exterior e depois no Brasil. Não faltou sequer o qualificativo de obra-prima para esse estranho livro de memórias ficcionais, o terceiro da trilogia “Cenas da vida na província” (após “Infância” e “Juventude”). Dedicado ao início da maturidade do autor, nele um biógrafo chamado Vincent conduz entrevistas com pessoas que conheceram o “falecido” escritor sul-africano John Coetzee – quatro mulheres e um homem que, de modo geral e discordâncias pontuais à parte, montam um painel desolador do sujeito, retratado como frio, retraído, fisicamente desagradável, socialmente covarde e sexualmente patético. Terreno movediço, como se vê. O que é verdade, o que é ficção? E isso importa? Acho boa a premissa do livro, e o pós-modernismo ululante que poderia afastar certo tipo de leitor não me incomoda – pelo contrário, tendo a ser tolerante com jogos de espelho, fundos falsos, narradores pouco confiáveis e as camadas de ironia que se depositam nesses ambientes. O problema, como sempre, é que premissas só contam…

Rimbaud e a maldição de ser ‘maldito’
Resenha / 05/05/2010

Acontece no roteiro das leituras como em qualquer tipo de roteiro, sentimental, profissional ou turístico: de repente o inesperado faz uma surpresa, como diria Johnny Alf. Foi assim, fisgado por uma espiada despretensiosa na primeira página, que suspendi a conversa com livros mais urgentes para dar cabo em dois dias do excelente “Rimbaud – A vida dupla de um rebelde” (Companhia das Letras, tradução de Marcos Bagno, 192 páginas, R$ 35,00). Meu interesse por informações biográficas de artistas costuma ser escasso. Nada no mundo me faria percorrer, por exemplo, as quase 800 páginas do prestigiado “Genet: uma biografia” (Record, tradução de Alves Callado, R$ 92,90), do mesmo Edmund White, lançado aqui em 2003. Mas Rimbaud não é Genet – por mais que os dois possam ter em comum, além da nacionalidade francesa, a aura de malditos e a homossexualidade – e o livrinho sobre o pioneiro da poesia moderna não é bem uma biografia. “Rimbaud” é um perfil leve e livre, entre o jornalismo e o ensaio, conduzido pela inteligência e pela sensibilidade de White. Eu o li como um romance. Como quase todo mundo que se pretendia escritor, pelo menos na minha geração, devorei Rimbaud aos vinte anos e…

‘Solar’ prova que humor é coisa séria
Resenha / 28/04/2010

A indicação de “Solar”, o novo livro de Ian McEwan, para o prêmio britânico Wodehouse (homenagem ao escritor P.G. Wodehouse), dedicado exclusivamente à ficção cômica, é uma rara ponte sobre o abismo que parece estar se alargando no mundo inteiro – e certamente no Brasil – entre a “literatura séria” e o humor. “Solar” não é um livro de piadas e seu autor, definitivamente, não está para brincadeiras. Mas será engraçado mesmo o romance em que McEwan satiriza a luta de um físico famoso para salvar o planeta do aquecimento global? Pode apostar que sim. Lançado há cerca de um mês e ainda não traduzido no Brasil (leia a resenha que escrevi para o iG aqui), “Solar” não me provocou uma única gargalhada. Não se trata desse tipo de comédia. Em lugar disso, o que temos é uma longa sucessão de trechos angustiantes e risinhos mais ou menos nervosos, desses que não iluminam a sala nem lavam a alma, mas acendem clarões na cabeça. O anti-herói Michael Beard, prêmio Nobel de Física, corre – isto é, até o ponto em que sua carcaça baixinha e roliça lhe permite correr – para livrar o mundo de uma catástrofe, ao mesmo tempo…

De Leon Tolstói a Woody Allen
Resenha / 21/11/2007

Terminei de ler “As Benevolentes” (Alfaguara, tradução de André Telles, 912 páginas, R$ 79,90) no sábado, mas até agora há pouco, como uma jibóia que tivesse engolido um boi, fui incapaz de escrever uma única linha sobre o tijolaço de Jonathan Littell. Impossível negar que se trata de um grande livro, um livro perturbador e sobretudo relevante – talvez o adjetivo mais caro que a prosa de ficção, empurrada a contragosto para uma zona de frivolidade, possa almejar hoje em dia. Como sempre, destrinchar por que é assim será tarefa mais difícil do que simplesmente enunciá-lo. Tão difícil quanto compreender por que, com tanto a seu favor, o romance atola antes de se tornar uma obra-prima. O narrador Maximilien Aue, oficial SS que participa de momentos cruciais do extermínio de judeus na Segunda Guerra Mundial, não cabe no figurino arendtiano da “banalidade do mal” (aliás, segundo ele mesmo, tampouco Adolf Eichmann, personagem importante do livro – mas essa é outra história). Nem tão eficiente como funcionário, embora cheio de fé nacional-socialista, também não parece que precisasse do empurrãozinho do regime nazista para acabar comprando um camarote no Inferno. Aue não é um homem comum, o pacato pai de família que,…

Cristovão Tezza: ‘O filho eterno’
Resenha / 08/08/2007

Acaba de sair o melhor romance brasileiro do ano – sim, em minha módica opinião e até o momento, será preciso fazer a ressalva? O fato é que 2007 vem me dando poucos argumentos para discordar dos leitores que, aqui mesmo na caixa de comentários do Todoprosa, insistem em situar nossa literatura contemporânea numa faixa de (in)competência entre a da Anac e a do beisebol praticado em campos nacionais. E como o blog, com raras exceções, prefere manter silêncio sobre livros que não possa elogiar, a literatura brasileira pouco tem dado as caras neste Primeira mão, o que é uma pena. Mas ficou mais fácil combater a versão literária do que Nelson Rodrigues chamava de nosso “complexo de vira-lata” depois de ler o romance “O filho eterno”, de Cristovão Tezza (Record, 240 páginas, R$ 36). Escritor curitibano nascido em Santa Catarina, Tezza, de 54 anos, é quase um autor consagrado – embora os limites dessa quase-consagração sejam tão constritos que ele continue sendo novidade para muita gente num ambiente cada vez mais marcado pela baixa condutividade de mérito. Livros como “Trapo”, “Breve espaço entre cor e sombra” e “O fotógrafo” garantiram a esse professor da Universidade Federal do Paraná, além…

‘Mãos de cavalo’: parem as máquinas!
Resenha / 18/05/2006

Entre “críticas” que raramente são mais que resenhas apressadas, notinhas em blogs e entrevistas oba-oba, tudo emparedado por sólidos muros de silêncio comodista da universidade, volta e meia eu me vejo intrigado e perplexo com a recepção dada a nossos livros pela elite cultural brasileira – aquela fatia fina da população que se interessa por literatura a ponto de perder seu tempo escrevendo ou lendo sobre um assunto tão, hmmm, inútil. Não me refiro apenas ao modo como as relações de amizade e compadrio se sobrepõem freqüentemente aos critérios estéticos – isso é assunto velho, e talvez não possa ser diferente num mundinho tão pequeno e de ar tão viciado. Quando falo em perplexidade, penso mais na forma como certos juízos se espalham rapidamente, sem contraditório, numa inércia em que a baixa média geral de leitura parece se mesclar ao medo de contrariar o bando. Isso gera maluquices, distorções e injustiças que, até certo ponto, sempre fizeram parte do jogo. Verdade – literatura não é para quem tem pele sensível e desiste fácil. Meu temor é que, a partir de um determinado ponto, as maluquices geradas por nossos mecanismos falhos de avaliação e difusão de novidades literárias tenham o poder…

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