O melhor do centenário Machado

29/09/2008

Hoje, como todo mundo deve estar cansado de saber, faz cem anos que morreu Machado de Assis. Entre os incontáveis eventos comemorativos, cadernos especiais, exposições, tombamentos, livros sobre esse ou aquele aspecto de vida e obra do escritor genial, é bom tomar cuidado – o risco de enfado é grande. Vale a pena resistir a esse sentimento para ouvir a melhor notícia da temporada: o lançamento da nova – revista e ampliadíssima – edição das obras completas de Machado pela Nova Aguilar.

O que antes cabia em três volumes agora precisa de quatro, depois do acréscimo de 66 contos (a melhor novidade), uma atualizada fortuna crítica (que corrige o maior defeito da edição anterior) e mais uma enormidade de crônicas, cartas e peças de teatro.

Passada a espuma da efeméride, são esses quatro livros de capa dura que deixarão o Brasil melhor do que era antes de 2008. Pena que o pacote só seja vendido inteiro, nada de volumes avulsos, e custe R$ 550. Mais detalhes sobre o lançamento podem ser lidos no “Globo” de hoje – lamentavelmente, com acesso fechado no site do jornal.

Mas para não deixar o blog alheio ao único assunto literário possível nesta segunda-feira, e como já tinha antecipado minha homenagem particular ao homem, fui procurar alguma informação sobre algo que me parece pouco falado e que é, afinal, a motivação de todo esse burburinho: a morte de Machado de Assis. Que morte! Como, relendo o texto, não vi nada de muito errado com ele, reproduzo abaixo a notícia como ela foi dada na coleção “O Globo 2000”, uma série de fascículos de memória do século XX que Arthur Dapieve e eu editamos em 1999:

Joaquim Maria Machado de Assis, o maior escritor brasileiro, morreu às 3h20m da madrugada de 29 de setembro de 1908 em sua casa, no bairro carioca do Cosme Velho, aos 69 anos. Para os amigos que o cercavam em seu leito de morte, não havia dúvida de que o mestre começara a se despedir quatro anos antes, ao perder a mulher, Carolina Augusta, com quem tinha sido casado por 35 anos. Viúvo, Machado viveu apenas o suficiente para escrever seu adeus literário, o melancólico romance “Memorial de Aires”. O livro saiu em julho e, exatamente dois meses depois, o autor chegou ao ponto final – provocado, segundo o laudo médico, por “arteriosclerose agravada por uma enterite infecciosa”.

Era o fim da trajetória fulgurante de um homem que parecia um compêndio de circunstâncias desfavoráveis – infância pobre, orfandade precoce, pele mulata numa sociedade escravista, gagueira, epilepsia – e que, apesar disso, conheceu as mais altas honrarias já concedidas a um escritor no Brasil.

A morte de Machado de Assis foi um acontecimento. Depois do velório de dois dias na Academia Brasileira de Letras – fundada e presidida por ele – o cortejo, organizado pelo Governo, seguiu até o cemitério São João Batista puxado pela luxuosa carreta providenciada pelo Arsenal de Guerra para o transporte do caixão cravejado de ouro. Soavam as marchas fúnebres da banda do Corpo de Bombeiros e agitavam-se estandartes de diversas associações estudantis, diante de uma multidão embevecida.

Curiosamente, o escritor assim saudado com pompa de “artista oficial” não poderia ser menos oficialesco e beletrista. Autor de uma série de livros românticos bem comportados, como “Iaiá Garcia” e “Helena”, Machado, após convalescer de grave doença, deu uma guinada radical na carreira com o tragicômico “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de 1881.

Seguiram-se “Quincas Borba”, “Dom Casmurro”, “Esaú e Jacó” e o já citado “Memorial de Aires”, romances em que uma ironia feroz abalava para sempre o pacto de confiança entre leitor e narrador, expondo o nervo da precária dignidade humana em meio às contradições de uma classe dominante hipócrita e seus agregados subservientes. Nada mais brasileiro e, ao mesmo tempo, universal.

14 Comments

  • Milton Ribeiro 29/09/2008 at 15:16

    O que dizer a isto? Sei lá. Fiquei autenticamente comovido ao ler o post.

    Sérgio, UM BRINDE A MACHADO!

  • Hélio Jorge Cordeiro 29/09/2008 at 15:43

    Sérgio, assim como você agora, eu fiz no meu blog a minha humilde homenagem a esse grande brasileiro que foi Machado de Assis. Claro que sem a eloqüência jornalística e literária de um Sérgio Rodrigues.

    550,00 reais! Isso parece ser muito para os brasileiros medianos, contudo é menos do que muitos games e nikes que estão sendo comprados pelos nossos jovens! Acho que vale à pena comprar, nem que seja em condições do tipo “Casas Bahia”, N vezes sem juros!

    Machado vive! Viva Machado!

  • Rafael 29/09/2008 at 16:28

    O obituário satisfaz os graves; mas… e os frívolos? Eles podem se chafurdar aqui: http://www1.folha.uol.com.br/folha/publifolha/ult10037u415930.shtml

    Eis aí, para usar de uma expressão machadiana, “a expressão acabada da tolice humana”.

  • Rafael 29/09/2008 at 16:33

    Aproveitando o gancho, lembro que Euclides da Cunha escreveu uma crônica sobre os últimos instantes de vida de Machado de Assis. O texto é curto e pode ser lido aqui:

    http://www.triplov.com/contos/machado_de_assis/euclides/index.html

  • Claudio Soares 29/09/2008 at 17:22

    “Quando a vida cá fora estiver tão agitada e aborrecida que se não possa viver tranqüilo e satisfeito, há um asilo para a minha alma — e para o meu corpo, naturalmente…”

    Assim, Machado escreveu na crônica de 29 de setembro de 1895, há exatos 113 anos.

    Machado, sempre Machado, para sempre.

    Rafael: ótima a lembrança de “A última visita”, do E. da Cunha (ano que vem, o centenário é dele).

    Sérgio: e Machado confessa a Nabuco que depois de o “Memorial” seria realmente seu último livro. Parecia antever sua morte.

    O Pontolit, como vc já sabe, volta mês que vem, como revista eletrônica colaborativa, free e open source. Um dos projetos associados ao novo site é justamente o “Blog do Machado de Assis” (já no ar).

    O modesto objetivo do projeto é implementar uma base de conhecimento sobre a obra de Machado. Incentivando novos estudos sobre a obra do “enxadrista do Cosme Velho”.

    Os textos de Machado (vale lembrar) podem ser encontrados, integralmente, on-line, no novo site do MEC em homenagem a Machado (lançado semana passada).

    No “Blog do Machado de Assis” (que indica e também é indicado pelo “Orwell Diaries”, projeto da Orwell Prize Foundation) acrescenta camadas (e banco de dados) ao texto: um grande hipertexto começa a ser criado, como na crônica que hoje publicamos no blog, de 29 de setembro de 1895, em que Machado cita Renan, Epimênides e “O livro de uma sogra”, de Aluísio Azevedo.

    Entrem, a casa é de todos nós (e contribuam!): blogdomachadodeassis [ponto] wordpress [ponto] com

    Machado de Assis vive!

  • Claudio Soares 29/09/2008 at 17:24

    correção: “Machado confessa a Nabuco que o “Memorial” seria seu último livro”

  • Pedro Curiango 29/09/2008 at 19:18

    O adolescente citado por Euclides da Cunha, na crônica lembrada por Rafael, era ASTROGILDO PEREIRA, fundador do Partido Comunista (em 1922) e autor de um importante ensaio de interpretação sociológica da obra machadeana: “Machado de Assis,” Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959. [Parte do livro foi publicada antes, em 1944, pela Casa do Estudante do Brasil, num volume intitulado “Interpetações.”]

  • Paulinho Assunção 29/09/2008 at 20:48

    Os livros imaginados: “Duas cartas de Fernando Pessoa a Machado de Assis”:

    http://paulinhoassuncao.blogspot.com/2008/09/cartas-de-pessoa-machado-rubem-focs-em.html

  • Felipe 29/09/2008 at 23:06

    Viva! Viva!
    E Curiango, veja só. O jornal Diário Catarinense, aqui de Floripa, republicou na edição de sábado um texto do Astrogildo Pereira, editado originalmente, em 1958, no jornal literário ROTEIRO, que o Grupo Sul mantinha na Ilha de Santa Catarina…

    http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2207365.xml&template=3898.dwt&edition=10775&section=853

    Abraços

  • Lucas Colombo 30/09/2008 at 13:50

    Interessante que Machado recusou a extrema-unção na hora da morte, por sempre ter sido um crítico das religiões. “Isso seria uma hipocrisia”, disse ele. Grande.

  • Claudio Soares 30/09/2008 at 15:11

    Lucas, hoje, no “Blog do Machado de Assis”, republicamos (“dissecando” o texto, claro) uma crônica “ferina” de Machado, na verdade uma carta aberta, datada de 1894, ao “venerando” arcebispo do Rio de Janeiro da época, Dom João Fernando Esberard.

    Só para vc ter uma idéia do “tom”, segue um trecho: “Bênção não é preciso pedir-ta; ela é de todo o rebanho, e, ainda que em mim os vícios superem as virtudes, terei sempre a porção dela que me sirva, não de prêmio, que o não mereço, mas de viático.”

    No próximo dia 5, publicaremos uma crônica-conto sobre o dia em que Machado achei-se em espírito, no ar, e foi assistir uma conferência na FEB…

  • Alexandre Lemke 30/09/2008 at 23:52

    Linkei este artigo em um post meu sobre o centenário. Acredito que seja bom eu te avisar :]

  • A. Zarfeg 01/10/2008 at 09:17

    MACHADINHO AGAIN!

    M
    Mania de honestidade? Se você achar R$ 3, leve-os à polícia; se achar R$ 3 mil, aplique-os num fundo de renda fixa.

    A
    A melhor definição de amor não vale um selinho de menina namoradeira.

    C
    Caríssimo: a briga de galos é o Jockey Club dos dudas mendonças da vida.

    H
    Homem triste que não gerou filhos, eu e minha virilidade acima de qualquer suspeita. Capitu é testemunha disso.

    A
    A Mega Sena é como uma mulher: um dia acaba cedendo.

    D
    Delícia de jogo de xadrez, em que a rainha come o peão, o peão come o bispo, o bispo come o cavalo, o cavalo come a rainha, e todos se comem sexual ou canibalmente.

    O
    O Brasil real é bom e legítimo; o oficial é caricato e vagabundo.

    D
    Digo que o trabalho dignifica o homem, mas há outras ocupações menos dignas e mais lucrativas por aí.

    E
    Era vegetariano por princípio, mas, por educação, acabei não resistindo à carne nossa de cada santo dia…

    A
    Ah, se eu fosse de Salvador, mudava-lhe o nome. Soteropolitano está mais pra grego que engasgou com um acarajé apimentado.

    S
    Silêncio! Dormir por 100 anos não é um modo interino de morrer. É a vitória definitiva do verme sobre o homem.

    S
    Sinal dos tempos: o maior escândalo, depois do escândalo, é a publicação do escândalo na Veja.

    I
    Ivete Sangalo? Uma girafa que engoliu o trio elétrico.

    S
    Sábio eu? Não, apenas um bruxo amargurado que iludiu a própria morte.

    (A. Zarfeg)

  • Felipe 01/10/2008 at 11:22

    Dica para discussão , Sérgio: post do blog Paper Cuts, do NYT, sobre declaração do chefe do júri do Nobel de Literatura, para quem a literatura americana não tem como competir com a produzida no resto do mundo… Alguns internautas concordaram.

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