Três histórias de fim

19/09/2015

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Este post, minha despedida do portal Veja, fica apenas como registro. O fim lá é um recomeço aqui, no velho Todoprosa de sempre. Seja bem-vindo(a)!

A MULHER DE BOTERO

João Pontes, o escritor, olhou um dia pela janela ao lado de sua mesa de trabalho, no nono andar de um edifício na Gávea, e viu na cobertura do outro lado da rua, bem à sua frente, entre vasos de planta, uma mulher de Botero. A visão o desagradou, como o desagradavam as mulheres de Botero. Mas logo João a decompôs numa ilusão de folhas amarelas e vasos escuros, tela nublada pela lâmina de vidro que tudo recobria, com seus reflexos e sombras.

Terminou por achar graça: a assombração era um incrível trompe-l’oeil produzido pelo acaso. Concentrou-se então no trabalho por mais meia hora – escrevia seu quinto romance, uma ficção histórica sobre o bando de Lampião – e, mal deixou o olho escapar pela janela atrás de um nome próprio, a palavra cardo, o adjetivo ressequido, lá estava a mulher de Botero outra vez.

Era uma visão súbita, perfeita, de uma nitidez que dava náusea. E de novo, o que era estranho, João a recebeu com a surpresa de um tapa na cara. Não conseguia estar preparado para a mulher de Botero.

Aquilo se repetiu por dias: olhar pela janela, tomar um susto ao ver a mulher de Botero a secar seu progresso penoso do outro lado da rua, como se dissesse: “Escritor? Pois sim…”, e perder mais uma vez o fio da meada de Virgulino, a pegada entre clássica e pop que buscava para o faroeste brasileiro que tinha na imaginação.

Aquela mulher de Botero era ainda mais desagradável do que a média das mulheres de Botero: xale preto, as mãos dois peixes inchados no colo preto, sorrisinho estúpido, o olhar entre frio e lunático – um olhar alienígena, com a hostilidade suprema da indiferença. Aquela coisa toda fofa, teratológica em seu balofismo. Misógina. E sempre chegando de tocaia. Duas semanas depois João parou de escrever.

O que o levou a tomar tal decisão foi o orgulho de autor: tinha perdido o controle da história. Às vezes achava agradável a sensação de estar à deriva em sua própria narrativa, ser levado por ela, mas só quando a direção era mais ou menos a que tinha planejado. E seus planos passavam longe do lugar onde estava agora. A coisa ia descambando de vontade própria de Quixadá para Querétaro: cada cena que lhe saía dos dedos, empurrada pela anterior e já puxando a seguinte, era de um realismo-socialista-quase-fantástico latino-americano de décima terceira categoria. Maria Bonita ficou enorme de gorda, os cangaceiros desenvolveram músculos de peão de Portinari, a luz amarela que tudo banhava era artificiosa, como se fosse de estúdio. Lampião, vanguarda do campesinato, organizava as massas e fundava sovietes. Parou.

Não tinha dúvida de que a culpa era da mulher de Botero. Pensou em atravessar a rua, descobrir o número do apartamento em que ela morava e interfonar. Soaria como um louco, mas, de certa forma, não era pedir tanto: será que a senhora se incomodaria de redecorar a cobertura só um pouquinho, um nada? Um vaso deslocado alguns centímetros seria o bastante para me restituir a felicidade.

Tímido, não atravessou a rua. Dizer o quê, sem soar ridículo: tem o fantasma de uma mulher gorda no seu jardim me impedindo de trabalhar?

Meses depois, já quase esquecido da mulher de Botero, tão acostumado estava a vê-la diariamente em seu habitat sombreado, reparou com uma vertigem que ela se fora. Na cobertura do outro lado da rua havia apenas vasos, folhagens – os centímetros de que precisava chegavam por obra do mesmo acaso que tinha engendrado o virago.

Seu primeiro impulso foi sorrir e pensar que voltaria à história engavetada de Lampião. Mas no instante seguinte ficou sério, sério e abatido, porque soube com clareza que voltaria à história de Lampião apenas para abandoná-la definitivamente logo depois – abandoná-la com tal fúria que só lhe restaria deletar qualquer traço de sua existência.

João compreendeu que era tarde, o livro exterminado: seu faroeste brasileiro era um aborto. E a mulher de Botero já nem estava lá para que ele pudesse mirá-la com ódio.

*

HISTÓRIA COM BEIJA-FLOR

O escritor moveu o dedo indicador e apagou o último arquivo com o último vestígio de sua extensa obra inédita. Levantou-se e andou até a janela. Nono andar.

Abriu a janela e, uma perna depois da outra, sentou-se no parapeito de frente para a rua, sem olhar para baixo. Olhou, em vez disso, para a janela do vizinho da esquerda. Esta tinha uma floreira onde adejava um beija-flor minúsculo, de bico longo e curvo, pretinho com umas pinceladas branco-fosforescentes na cauda.

Voltou ao computador e iniciou imediatamente uma nova obra. Foi salvo por aquele passarinho. Um beija-flor minúsculo, de bico longo e curvo, escreveu. Uma obra voltada para a beleza.

Esta foi igualmente extensa e também ficou inédita até sua morte por peritonite, trinta e sete anos depois, e por toda a posteridade.

*

DELETE

Ele hesita, dedos de velho datilógrafo repousando sobre o asdfg e o çlkjh, polegares suspensos.

Ele se vê hesitando, dedos de velho datilógrafo, emblema de sua idade, repousando com suavidade de pluma sobre o asdfg e o çlkjh do teclado negro, polegares suspensos a milímetros da barra de espaço.

Ele decide escrever sobre se ver hesitando escrever, e então os dedos datilógrafos ganham uma súbita descarga elétrica e se põem a cutucar ritmicamente o teclado negro, polegares batendo surdão a intervalos impenetráveis.

Ele sabe que os intervalos impenetráveis podem ser condizentes com algum padrão oculto, mas sabe também que, mesmo arbitrariamente, apontar esse padrão só será possível mais tarde – tarde demais? – em retrospecto, sendo por ora mais sábio se embalar na impenetrabilidade do sussurro produzido pelos pequenos tambores de plástico.

Em sincronia com os comandos que os emblemas de sua idade percutem no teclado negro coberto de símbolos brancos, símbolos negros surgem na tela branca.

Ele para e lê os seis parágrafos que escreveu, incluindo este. Hesita mais uma vez. Torce os músculos faciais de tal modo que fica parecendo um nó de madeira, uma orelha, à luz hepática da tela onde a metáfora do nó precede sua materialização na cara dele.

Metalinguagem. Bah.

Pega o mouse, define os sete parágrafos anteriores, e com um floreio do mesmo movimento atinge com o certeiro indicador direito – e força espantosamente maior que a empregada até aqui – o pequeno tambor onde está escrito Delete. Os sete parágrafos se tornam seus próprios negativos, letras brancas sobre fundo negro, exatamente como no teclado, antes de responder à dedada nas costelas e desaparecer. Os sete parágrafos desaparecem, o oitavo não. Este, que de forma curiosa mas talvez necessária os inclui, fica porque já não é escrito por ele, nem em seu nascimento houve hesitação, mas abandono e depois cálculo, embora a fidelidade aos fatos nos obrigue a confessar que nossos dedos também repousaram sobre o asdfg e o çlkjh a intervalos impenetráveis.

*

Com os contos acima, publicados entre outubro de 2009 e novembro de 2010, e depois de cinco anos felizes (mais da metade de seu tempo de vida!), o Todoprosa se despede hoje de VEJA.com. Aos leitores que me acompanharam nesse período, meu agradecimento mais sincero e um convite para que continuem visitando o blog em sua nova casa, no endereço que o acompanha desde o princípio, em maio de 2006: todoprosa.com.br. Espero vê-los por lá. Até breve!

2 Comments

  • Gustavo Nogy 09/10/2015 at 16:24

    Fiquei bastante feliz com o fato de seus sites não terem acabado, Sérgio Rodrigues. Longa vida ao Todo Prosa e ao Melhor Dizendo. Das melhores coisas que se lê em português.

    • Sérgio Rodrigues 10/10/2015 at 15:17

      Opa, obrigado, Gustavo. Espero vê-lo sempre por aqui. Um abraço.

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