Dois dias seguidos, duas cidades distantes cultural e geograficamente, e a mesma preocupação: o Kindle – ou um similar – vai matar o livro (de papel)? Falando na Feira de Livros do Sesc Paraná, em Curitiba, quinta-feira de manhã, e na Bienal do Livro de Pernambuco, em Recife, ontem à noite, encontrei a mesma dúvida, a mesma angústia. E me espantei um pouco de descobrir o quanto essa questão não me preocupa. Sim, estamos vivendo um momento de transição profunda nas formas de ler, escrever e veicular literatura. Sim, ninguém que seja minimamente ponderado pode se gabar de saber onde isso tudo vai dar. Mas uma coisa, à medida que eu tratava de improvisar respostas tateantes à preocupação do público, foi me parecendo cada vez mais clara: aqueles que temem uma revolução completa no formato do livro tradicional deveriam ver os e-readers como aliados, não como inimigos. Se a internet, com seus recursos de som, imagem, busca e interatividade, tem o potencial – ainda não realizado – de levar a narrativa a um hibridismo tridimensional em que provavelmente já não caberá falar de “literatura”, os Kindles e semelhantes trabalham no sentido contrário, o de preservar as formas literárias que nos…

