Por Maria Carolina Maia Coube aos brasileiros Angeli e Laerte a inserção de quadrinhos na programação da Flip, que nos anos anteriores recebeu os icônicos Robert Crumb e Gilbert Shelton (2010), de América e Freak Brothers, e Joe Sacco, do jornalístico Palestina (2011). Mas, ou por serem figuras bem conhecidas do público ou porque a mediação do jornalista Claudiney Ferreira deixou a desejar, o encontro de Laerte e Angeli não foi nenhuma surpresa para a plateia que encheu a tenda dos autores, junto ao centro histórico de Paraty. Exceto pela crítica de Angeli à comédia de tipo stand-up, que ele taxou de apelativa, para quem está habituado a ver entrevistas com os dois cartunistas a mesa-bônus na programação da festa, realizada a partir das 21h30 deste sábado, teve sabor de reprise. Os cartunistas falaram de seus velhos personagens, da necessidade que sentem de renovação do trabalho e de si mesmos – os mesmos personagens de sempre. Com um belo vestido colorido, Laerte contou mais uma vez como se percebeu transgênero. Foi a partir da publicação de uma tirinha com o personagem Hugo, que aparece travestido e dizendo, “Às vezes, um cara tem de se montar, ué”. “Eu me descobri transgênero. Eu tenho…
Uma emocionante homenagem ao recém-falecido escritor italiano Antonio Tabucchi em que é impossível demarcar com precisão a fronteira entre recordações verdadeiras e recordações inventadas; um breve ensaio poético de reverência aos radicais “escritores malogrados” que souberam diagnosticar e reagir a uma supostamente evidente ”morte da literatura”; e, por fim, um exame um tanto autocondescendente da própria obra em que seu último livro, “Ar de Dylan”, aparece como ápice. Na soma dos três passos, dos três textos lidos a partir de uma mesa no centro do palco, foi uma estranha atração – como não poderia deixar de ser, sendo Enrique Vila-Matas quem é – a que substituiu o desistente francês Le Clézio no horário nobre da Flip 2012, hoje à noite. Será verdade que o pequeno Vila-Matas, com apenas cinco anos de idade, foi vizinho de veraneio de um Tabucchi cinco anos mais velho, a quem dizia insistentemente que “os adultos são estúpidos”? Qualquer que seja a resposta, ela não tirará o brilho de uma frase como esta: “Um dia descobri que Tabucchi era a sombra de Fernando Pessoa e decidi me tornar a sombra de Tabucchi, para ser a sombra de uma sombra de uma sombra”. Da mesma forma, há…
Por Raissa Pascoal Exilados de suas terras natais por ditadores, o haitiano Dany Laferrière e a cubana Zoé Valdés foram buscar na literatura o veículo para dizer que a liberdade – negada em seus países e adquirida no exterior – é impagável. Liberdade não só na escrita – agora sem censura –, mas também nos temas utilizados, que chegam a politizar até o sexo, tratado como provocação histórica, no caso de Laferrière, e de força identitária, para Zoé. “Escrevi para dizer aos ditadores: ‘Pode ficar no seu palácio em Porto Príncipe, mas você nunca vai ter a liberdade de um jovem numa cidade aberta”, disse. O encontro dos dois aconteceu na mesa O Avesso da Pátria, mediada pela jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho. Há 30 anos, Laferrière escreveu o livro Como Fazer Amor com um Negro sem se Cansar, publicado agora no Brasil pela Editora 34. No romance, o escritor utiliza cenas de atos sexuais para denunciar o racismo – ele mostra que uma branca se permite entregar-se a um negro dentro de quatro paredes, mas em público jamais tomaria um café com ele. “Não existe cena de sexo no romance sem que haja um duelo de identidades cara a…
Todas as boas mesas se parecem; as ruins são ruins cada uma à sua maneira. A paródia da frase de abertura de “Ana Karenina”, de Leon Tolstoi – citação mais batida da Flip 2012 – deixa pendente a tarefa de entender por que não funcionou a mesa “Em família”, que reuniu hoje à tarde Zuenir Ventura, João Anzanello Carrascoza e Dulce Maria Cardoso, com mediação do crítico João Cézar de Castro Rocha. Este não conseguiu se desincumbir da tarefa, certamente ingrata, de dar liga a um trio heterogêneo demais. Até Zuenir, jornalista consagrado que está estreando no romance com “Sagrada família”, ressentiu-se do pouco tempo propiciado pelo recurso – de falência atestada há anos – de dividir o palco entre três autores. Com a simpatia e o carisma de sempre, encaixou algumas boas tiradas – “família unida, sim; reunida, jamais!” – mas deixou a impressão de que faltou tempo para dar seu recado. Menos conhecidos do público, Carrascoza e Dulce tiveram problemas maiores. Prestigiado pela crítica, o contista que está lançando “Aquela água toda” tentou uma autodefinição: “Tematizo a vida miúda, o cotidiano, o contrário deste momento aqui. A vida não é feita de Flips”. A festejada autora portuguesa acaba…
O fato de ambos serem escritores profundamente “literários” que recentemente incursionaram pelo gênero do romance de espionagem foi apenas um dos muitos pontos de contato entre o inglês Ian McEwan e a americana Jennifer Egan na mesa que se encerrou agora há pouco. O escritor e jornalista Arthur Dapieve, mediador de uma conversa fluida e variada à qual não faltaram elogios mútuos, talvez tenha arriscado um pouco ao chamar os convidados de “dois dos maiores escritores de língua inglesa da atualidade”. Se este é um título que McEwan carrega com enorme tranquilidade, Egan, mesmo com o talento que desfilou com clareza quase obscena no excelente “A visita cruel do tempo”, premiado com o Pulitzer, ainda parece precisar de mais estrada para confirmar o superlativo. O romance que Ian McEwan está lançando em primeira mão na Flip, “Serena”, é uma história de espionagem que, como todas do gênero, tem reviravoltas surpreendentes – inclusive uma, a mais decisiva, relativa à identidade do narrador, que o leitor descobre na última linha. Depois de, surpreendentemente, entregar essa surpresa de bandeja no palco da Flip logo no início da conversa, o escritor disse esperar ver surgir no Brasil, “agora que o país está virando uma…
Por Raissa Pascoal A mesa Cidade e Democracia abriu o quarto dia da Flip com uma discussão longa, com pontos interessantes, mas que perdeu em dinâmica e conteúdo pela falta de habilidade do mediador Guilherme Wisnik na condução da discussão entre o escritor indiano Suketu Mehta e o antropólogo brasileiro Roberto DaMatta. A partir do livro Bombaim: Cidade Máxima, de Mehta, lançado no país pela Companhia das Letras em 2011, a conversa abordou pontos como o nascimento das grandes metrópoles, suas transformações e as semelhanças entre as favelas do Rio de Janeiro e de Bombaim, hoje chamada de Mumbai. Apesar de promissores, alguns tópicos deixaram de ser desenvolvidos a contento, e o mediador, que poderia incitar os autores a falar, não o fez. Durante uma hora e 20 minutos, tempo que durou a mesa, Wisnik só lançou três perguntas aos convidados. Em lugar de promover um debate, ele deu espaço para que Mehta e DaMatta falassem longamente e sem destino – a conversa não tinha um norte. Parte do tempo também foi destinado à apresentação de músicas sobre grandes metrópoles, como a canção This is Bombay, My Love, da Bollywood da década de 1950, e New York, New York, clássico na voz de Frank Sinatra….

