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Soa o apito final
NoMínimo / 11/12/2008

Encerra-se aqui, pelo menos para este blog, o capítulo da Copa de Literatura Brasileira 2008. E se encerra com festa. Saiu hoje o resultado da final: “O filho eterno” 11 x 3 “O dia Mastroianni”. A festa fica por conta da orgia de opiniões que o formato da competição proporciona, com todos os juízes (bom, quase todos) entrando em campo ao mesmo tempo para justificar seus votos. Todas as atrações do circo estão lá, numa diversidade bonita de ver. Melhor ainda quando se constata que, no balanço final, o ambiente conserva uma sanidade básica, que também pode ser chamada de inteligência coletiva. Por mais que se deva – e se deve mesmo – desconfiar das consagrações unânimes, se o grande livro de Cristovão Tezza deixasse de levar mais esse “título”, perdendo para o livrinho apenas bom de João Paulo Cuenca, haveria motivo de preocupação. Houve até um bônus inesperado: Nelson de Oliveira compareceu mais sério, suando a camisa de árbitro, em contraste dramático com sua primeira atuação na Copa. Enfim, não sei se isso tem a ver com o efeito embriagante de toda festa, mas termino minha participação na CLB com vontade de retocar as críticas à edição deste ano…

Continho antigo
Sobrescritos / 10/12/2008

O vetusto e alquebrado escritor permanecia inédito, desprezado por casas editoriais grandes e pequenas, não obstante os tenazes esforços do espírito que lhe haviam consumido a saúde na lida com as exigências da criação, as quais, sendo artista consciente e de talento raro, equacionara de modo tão sutil e original que terminou por se distanciar irremediavelmente de seus contemporâneos. Na hipótese mais benevolente, seria compreendido pela geração de seus bisnetos. Bisnetos que, bem entendido, tinham na frase papel meramente retórico, pois entre os departamentos da vida que o artista mantivera lacrados para se entregar por inteiro à literatura, essa górgona voraz, avultava a paternidade. Tinha um sobrinho; isso tinha. Rapazola tresloucado, boêmio, compunha a figura de um perfeito doidivanas, mas um doidivanas de boa aparência e traquejo social incomum. Sapato bicolor e mecha rebelde desabada sobre os olhos, surgiu-lhe esse sobrinho certa noite, em sonhos, como peça-chave de um plano insensato. O escritor tentou escorraçar a extravagante idéia, decerto germinada no lado negro de sua alma ferida, mas o sonho se repetiu. Noite após noite o sonho se repetiu, até que o juízo combalido do homem lhe desse passagem e ele adentrasse, aos pinotes, a terra da vigília. Não devemos…

Millôr, o trocadilho e a barguilha
NoMínimo / 09/12/2008

A entrevista que fiz com Millôr Fernandes para a “Bravo!” deste mês – e que pode ser lida no site da revista – deixou de incluir, por razões de espaço, algumas histórias impagáveis do genial humorista-escritor-desenhista-dramaturgo-e-o-escambau. Felizmente, os cinco minutos e pouco de conversa que estão disponíveis em arquivo sonoro no site incluem, entre outras delícias, uma veemente defesa milloriana do trocadilho da qual consta esta frase que o crítico literário Agrippino Grieco endereçou a seu desafeto Menotti del Picchia: Menotti del Picchia, fecha a barguilha do teu nome!

Começos inesquecíveis: James Ellroy

Jamais a conheci em vida. Ela existe para mim através dos outros, como prova dos caminhos em que a sua morte os lançou. Voltando ao passado, buscando apenas fatos, eu a reconstruí como uma menina triste e uma prostituta, quando muito alguém-que-poderia-ter-sido, rótulo que também poderia se aplicar a mim. Gostaria de lhe ter concedido um final anônimo, de tê-la relegado a breves palavras de detetive, num relatório sumário de homicídio, com cópia carbono para o legista, e mais papelada para enterrá-la em vala comum. O único erro em relação a esse desejo é que ela não teria gostado que fosse assim. Por mais brutais que sejam os fatos, ela gostaria que fossem todos revelados. E como lhe devo muito e sou o único que sabe a história inteira, incumbi-me de escrever essas memórias. Dois começos em um: o de “Dália negra” (Record, 2006, tradução de Cláudia Sant’Ana Martins), romance lançado em 1987, e o da carreira brilhante de James Ellroy, um escritor que, embora a tentação seja grande, não dá para enfiar no escaninho “policial” – pelo menos não sem esquartejá-lo antes.

Copiar
A palavra é... / 06/12/2008

O velho verbo copiar, do latim medieval copiare (“reproduzir em grande número”, como os copistas faziam com seus manuscritos), tem uma nova aplicação. Estamos falando da acepção ainda não dicionarizada – embora isso pareça ser questão de tempo – que se usa num contexto de troca de mensagens eletrônicas e que tem como objeto direto uma pessoa (“estou copiando você”). O sentido aqui não é, claro, o de imitar, plagiar, muito menos o de fazer em laboratório uma clonagem do indivíduo em questão. O novo copiar quer dizer incluir (alguém) no circuito de uma troca de informações. Trata-se de um subproduto lingüístico da internet, família de palavras que não pára de crescer. “Como o assunto diz respeito ao departamento como um todo, estou copiando todos os usuários”, diz o chefe ao encaminhar o memorando a uma lista de destinatários maior que a original. Ou em registro mais informal: “Tô copiando o Orelha e a Vê, bjusss”. Talvez haja um impulso de condensação na origem dessa mudança. Como copiar uma pessoa significa simplesmente fazer uma cópia para ela, a alteração básica seria o fato de a preposição não ser usada. Se a frase fosse “estou copiando (a mensagem) para você”, não…

Valêncio Xavier (1933-2008)
NoMínimo / 05/12/2008

Nenhuma outra experiência de aliar imagem e texto foi tão contundente na literatura brasileira quanto a de Valêncio Xavier. O autor de O Mez da Grippe (1981) e de várias outras histórias morreu às 11h30 da manhã desta sexta-feira (5) devido a complicações ligadas a uma pneumonia. Ele tinha 75 anos e passou 82 dias internado no Hospital São Lucas, mais da metade deles na Unidade de Tratamento Intensivo. Notícia da “Gazeta do Povo”, de Curitiba, que pode ser lida na íntegra aqui. Curitibano nascido em São Paulo, Valêncio Xavier Niculitcheff era um desses escritores radicais para quem o texto linear seria uma camisa-de-força. Mais – ou menos – que um experimentalista, era um brincalhão, um Homo ludens atraído tanto pelo trágico quanto pelo cômico. Quando descobri aquelas charmosas fotos antigas que W.G. Sebald mistura à sua ficção, a primeira coisa que pensei foi: “Já vi isso em algum lugar, mas era diferente”. Sim, era diferente: as fotos vinham ao lado de reclames antigos de jornal e velhos postais na literatura fragmentada de Valêncio Xavier. Para quem ainda não o conhece, uma boa porta de entrada é a bela edição que reúne “Minha mãe morrendo” e “O menino mentido”, lançada…

Se Tezza fosse afegão
NoMínimo / 04/12/2008

Os leitores deste blog sabem que sou um fã de primeira hora de “O filho eterno”, de Cristovão Tezza. Nessa condição, é claro que me alegra o balaio de prêmios que ele angariou num desempenho que, em minha memória, não tem paralelo – o único que ameaçou chegar perto foi Milton Hatoum. Verdade que os prêmios, mesmo tendo acertado este ano, não são uma medida lá muito rigorosa de qualidade: erram à beça, freqüentemente traem motivações mais políticas que estéticas, isso todo mundo sabe. Mas não é menos verdade que dão aos livros uma exposição que eles não costumam ter. Aí vem a má notícia, que tem me deixado pensativo: nem com esse massacre, digamos, esportivo – e o resultado da Copa de Literatura, o menos importante mas talvez o mais divertido dos prêmios, ainda nem saiu –, nem assim “O filho eterno” aparece nas principais listas de mais vendidos da imprensa brasileira. Nem ganhando tudo que um livro pode ganhar. E o que me parece ainda mais espantoso – nem mesmo tendo, na relação do autor/protagonista com seu filho Down, um tema de fortíssimo apelo, do tipo que costuma arrastar às livrarias uma massa de leitores mais interessados em…

Os livros vivos de Bournemouth
NoMínimo / 03/12/2008

A notícia do “Guardian” podia tanto estar na seção de literatura – como está – quanto na editoria que mais cresce em nossos tempos internéticos, a de esquisitices. Uma biblioteca pública de Bournemouth, cidade turística no sul da Inglaterra, está em campanha (em inglês, acesso gratuito) para que seus freqüentadores peguem emprestados “livros vivos”, isto é, pessoas com quem podem conversar. Entre as atrações atuais estão uma jovem muçulmana, uma mulher cega e uma pregadora batista, todas voluntárias. Com objetivos restritos à troca de idéias (ler na banheira ou fazer anotações nas margens, nem pensar), elas podem ficar à disposição do “leitor” por até uma hora. Trata-se da apoteose daquela velha crença popular: “Minha vida daria um livro”. Na quase totalidade das vezes, não daria nem um conto, quando muito um haicai. Por outro lado, chamar os conversadores de Bournemouth de “livros vivos” é obviamente usar uma metáfora – ainda que a metáfora seja bastante esticada pelo fato de tudo se passar numa biblioteca. Bater papo não é o mesmo que ler, mas bater papo, especialmente com pessoas imersas em culturas e experiências diferentes das nossas, é muito bom, pois não? Nada errado com a idéia. Descubro também que a…

Delete
Sobrescritos / 02/12/2008

Ele hesita, dedos de velho datilógrafo repousando sobre o asdfg e o çlkjh, polegares suspensos. Ele se vê hesitando, dedos de velho datilógrafo, emblema de sua idade, repousando com suavidade de pluma sobre o asdfg e o çlkjh do teclado negro, polegares suspensos a milímetros da barra de espaço. Ele decide escrever sobre se ver hesitando escrever, e então os dedos datilógrafos ganham uma súbita descarga elétrica e se põem a cutucar ritmicamente o teclado negro, polegares batendo surdão a intervalos impenetráveis. Ele sabe que os intervalos impenetráveis podem ser condizentes com algum padrão oculto, mas sabe também que, mesmo arbitrariamente, apontar esse padrão só será possível mais tarde – tarde demais? – em retrospecto, sendo por ora mais sábio se embalar na impenetrabilidade do sussurro produzido pelos pequenos tambores de plástico. Em sincronia com os comandos que os emblemas de sua idade percutem no teclado negro coberto de símbolos brancos, símbolos negros surgem na tela branca. Ele pára e lê os seis parágrafos que escreveu, incluindo este. Hesita mais uma vez. Torce os músculos faciais de tal modo que fica parecendo um nó de madeira, uma orelha, à luz hepática da tela onde a metáfora do nó precede sua…

Começos inesquecíveis: Virginia Woolf

Ele – pois não havia a menor dúvida a respeito de seu sexo, embora a moda da época contribuísse para dissimulá-lo – empenhava-se em desferir golpes de espada numa cabeça de mouro que pendia das vigas do teto. Faltava Virginia Woolf nesta seção. Não mais: eis a primeira frase do magnífico “Orlando”, romance publicado em 1928 (Grafton Press, 1986, tradução caseira). O gancho de suspense plantado ali entre os travessões só vai se explicar lá pelo meio do livro, quando Orlando acorda de um sono mórbido de dias: Ele se espreguiçou. Levantou-se. Ficou de pé diante de nós, inteiramente nu, e enquanto as trombetas ressoavam, Verdade! Verdade! Verdade!, não nos resta outra saída senão confessar – era uma mulher.

Calamidade
A palavra é... / 29/11/2008

A calamidade que desabou sobre Santa Catarina faz parte do rico vocabulário associado às grandes tragédias, sobretudo as naturais. Além de calamidade e tragédia, o dicionário tem em estoque desastre, catástrofe, hecatombe, cataclismo, flagelo. Todos são vocábulos antigos que o uso figurado e a conseqüente extensão de sentido transformaram em sinônimos. Hoje exprimem em doses mais ou menos iguais nosso luto e estupor, mas nasceram com significados restritos. Com o cuidado de não ver nisso uma pregação de fundamentalismo etimológico, tolice das mais calamitosas, vale a pena fazer um breve passeio por esses sentidos originais. Mais que uma curiosidade, eles iluminam as palavras e a própria história humana de resistência às hecatombes. Calamidade, do latim calamitas, tem a ver com cálamo, do grego kálamos, “haste de planta”, e seu provável significado primitivo é descrito por Antenor Nascentes como “prejuízo causado por um temporal, por uma saraivada que quebrasse as hastes verdes do trigo”. Um parente próximo é o cataclismo, do grego kataklysmós, derivado de um verbo que quer dizer “encher de água, inundar”. O medo das tempestades inspira os dois. Desastre e flagelo têm origem mais poética e apontam para as causas do infortúnio: o primeiro veio do italiano dis…

Vamos falar de sexo
NoMínimo / 27/11/2008

O Bad Sex Award, aquele prêmio britânico de gozação para o livro que contém a pior cena de sexo do ano, é um evento literário que o Todoprosa acompanha com atenção. A última edição foi das mais, digamos, excitantes, com a honraria conferida postumamente ao americano Norman Mailer por “O castelo na floresta”. Para quem não leu aqui na época ou não se lembra, o último romance de Mailer contém uma inacreditável descrição de trepada em que o narrador diz a certa altura, referindo-se ao membro (pouco) viril do personagem, que “titio estava tão mole quanto um rolo de excremento”. Um trecho maior da cena pode ser encontrado aqui. A má notícia é que o BSA 2008, divulgado esta semana em Londres, não teve o mesmo apelo: a vencedora, Rachel Johnson, é um nome de pouco peso por lá e inteiramente desconhecido entre nós. A boa é que, certamente cientes disso, os organizadores resolveram fugir do script e atribuir também um prêmio especial – pelo conjunto da obra, lifetime achievement – a John Updike. Fiquei pensando se haverá suficiente material em nosso mercado para sustentar uma versão brasileira do BSA. Suponho que sim, mas não tenho certeza. Conto com a…

Contra James Wood
NoMínimo / 26/11/2008

Mas, para além de suas preocupações teológicas, Wood nunca demonstra muito interesse naquilo que os romances querem dizer. Sua crítica oscila entre o plano mais aberto e o mais fechado, o desenvolvimento da técnica ficcional ao longo da história do romance e as particularidades miúdas do estilo autoral. Seu brilhantismo ao descrever ambos os quadros é inigualável, mas ele ignora praticamente tudo o que existe no meio do caminho. Ignora o amplo meio-campo da forma romanesca – estruturas narrativas, padrões de personagem e imagem, símbolos que conectam diferentes momentos e níveis de leitura num texto – e ignora os sentidos que os romancistas propõem por meio desses recursos. (Isso explica seus erros factuais e deslizes interpretativos; ele simplesmente não presta a devida atenção ao que está num determinado plano.) Wood pode discorrer sobre um narrador de Flaubert ou o estilo de Bellow, mas não se mostra muito curioso a respeito do que esses escritores têm a dizer sobre o mundo: sobre tédio, dor, morte ou qualquer outra coisa no vasto e estrelado universo da experiência humana. Agora que está na moda – e com algum fundamento, não se pode negar – considerar James Wood, da “New Yorker”, uma espécie de…

Vidraça
NoMínimo / 24/11/2008

Clique aqui para ler minha resenha na Copa de Literatura Brasileira, que aponta o primeiro finalista deste ano. Publicada agora há pouco, envolve “O dia Mastroianni”, de João Paulo Cuenca, e o repescado “Cão de cabelo”, de Mauro Sta. Cecília.

Começos inesquecíveis: Ernesto Sabato

Bastará dizer que sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou María Iribarne; suponho que o processo esteja na lembrança de todos e que não seja necessário dar maiores explicações sobre minha pessoa. E assim, violentamente, entramos no túnel, ou melhor, em “O túnel” (Ballantine Books, edição bilíngüe, espanhol-inglês, 1988 – aqui em tradução da casa), romance lançado em 1948 pelo argentino Ernesto Sabato. Festejada por Albert Camus e geralmente classificada como “existencialista”, a narrativa seca e muitíssimo bem escrita do amor infeliz do misantropo Juan Pablo por María – “só existiu um ser que entendia minha pintura” – ainda conserva uma força sinistra. Luz no fim do túnel? Não tem nenhuma. A última frase, não menos inesquecível que a primeira, é prova disso: E os muros deste inferno serão, assim, cada dia mais herméticos.

Humor negro
A palavra é... / 22/11/2008

O humor negro que caracteriza o novo filme dos irmãos Coen, “Queime depois de ler”, é uma locução comum a várias línguas, do inglês black humor ao francês humour noir. Definido pelo Houaiss como a graça feita “a propósito de uma manifestação grave, desesperada ou macabra”, tem tudo para se tornar, como se vê, um dos registros mais visitados pela arte nesse período sombrio de recessão mundial que vem chegando. Como a época do derretimento financeiro também é, por acaso, a de Barack Obama, não custa frisar que o humor é chamado de negro sem o menor traço de racismo. Embora um certo pensamento politicamente correto tenha tentado criminalizar todas as expressões que contenham a cor do piche – como lista negra, língua negra e a velha frase “a coisa está preta” –, o bom senso não recomenda ver insulto onde há apenas coincidência cromática. Do contrário, o elefante branco e a expressão “dar um branco”, com seus sentidos negativos, também ficariam sob suspeita. Para não mencionar a febre amarela e as contas no vermelho. Se recuarmos na história da palavra humor, a viagem será longa. Ela veio do latim humor com sentido médico. Na Antiguidade o humor era apenas…

A morte não é gramatical
NoMínimo / 21/11/2008

O Oxford Book of Death reúne “últimas palavras” famosas. Não sei muito bem por quê, mas achei as do escritor francês André Gide (1869-1951), aparentemente banais, de cortar o coração: Temo que minhas frases estejam ficando gramaticalmente incorretas.