Post publicado em 22/4/2007: Quem estivesse na praça da Estação na madrugada de hoje veria um nordestino moreno, de 53 anos, entrar com uns oitocentos flagelados no trem de madeira que os levaria de volta para o Nordeste. Veria os guardas, soldados e investigadores tangendo-os com energia mas sem violência para dentro dos vagões. E veria que em pouco mais de quarenta minutos estavam todos guardados dentro do trem, esperando apenas a ordem de partida. E, a menos que estivesse comprometido com os acontecimentos, não compreenderia como o fogo começou em quatro vagões ao mesmo tempo. Apenas veria que o fogo surgiu do lado de fora dos vagões, já forte, certamente provocado. Assim começa, pegando fogo literalmente e num tom de “jornalismo literário” que logo será explicitado, o romance “A festa”, lançado em 1976 pelo mineiro Ivan Ângelo (Summus Editorial, 4a edição, 1978). Na página seguinte, a explicação: “Trecho da reportagem que o diário ‘A Tarde’ suprimiu da cobertura dos acontecimentos da praça da Estação, na sua edição do dia 31 de março de 1970, atendendo solicitação da Polícia Federal, que alegou motivos de segurança nacional”. Forte candidato a melhor retrato literário do Brasil nos anos da ditadura militar e…
A palavra ortografia vem do grego orthós + grápho, isto é, o modo correto de escrever. Quem determina que modo é esse sempre foi uma questão polêmica. Na tradição luso-brasileira, o papel tem sido desempenhado por legisladores, respaldados por comissões de sábios. É o que ocorre mais uma vez na atual reforma ortográfica. Um dos argumentos mais correntes contra o acordo – o de que ele é condenável por mexer apenas no modo de escrever as palavras, deixando de lado as divergências sintáticas e semânticas entre Brasil e Portugal – lembra a desculpa do capitão que negligencia a manutenção de seu navio porque não pode controlar o oceano. A não ser nos delírios de ditadores caricatos, o poder dos governantes sobre sintaxe e semântica é zero: não há o que eles possam fazer. Sobre a ortografia, verniz da língua, há. Se deveriam se meter nessa seara é outro debate. Na definição da ortografia, o poeta português Fernando Pessoa preferia o método da lenta decantação cultural ao das canetadas legislativas, o que o levou a se insurgir contra uma das reformas de espírito “simplificador” pelas quais o português passou. Em suas palavras, “um acto que, à parte ser desnecessário, ou, pelo…
Matéria de capa da Ilustrada de hoje revela (só para assinantes) que a excelente cantora Adriana Calcanhotto, por causa de um surto psicótico – induzido por medicamentos – que sofreu durante viagem a Portugal, descobriu-se escritora. Com objetivos terapêuticos, enquanto era sitiada por ataques de pânico e delírio, Adriana começou a escrever feito uma doida e quando reparou, olha só, tinha nas mãos um livro chamado “Saga lusa”. Um livro que está prestes a ser lançado por uma editora nanica. Adriana brinca, já se imaginando na Academia Brasileira de Letras, mas no fim volta a falar sério e decreta que a canção “é superior” à literatura. Tudo muito leve, divertido. Daria uma boa nota de coluna social, quem sabe até uma materinha de interesse humano, daquelas que os nacionalistas mais ferrenhos chamam de feature. Pena que, tendo ido parar no espaço nobre da capa da Ilustrada, o surto psicótico-logorréico de Adriana Calcanhotto em Portugal deixe de soar como uma anedota para se tornar sintoma de uma síndrome grave: a da transformação da arte, qualquer arte, num acessório cada vez mais desimportante – e às vezes até ridículo, merecedor de todos os achincalhes – no magnífico desfile da Fama. Vale a…
Sabe aquela tirada do sujeito do Nobel de que os escritores americanos não têm chance de ganhar o prêmio porque são “isolados demais” e “não participam do grande diálogo da literatura”? Ia comentar isso aqui, depois desisti. O que dizer? Certas afirmações são tão estúpidas que têm a capacidade de contaminar com sua burrice qualquer resposta, seja contra ou a favor. Em silêncio eu ficaria se não tivesse esbarrado há pouco num boato que, embora tenha um certo jeito de maluquice, ou talvez por isso mesmo, é a única coisa aproveitável que li em reação às declarações do síndico da Academia Sueca: todo esse antiamericanismo literário não passaria de um plano extremamente bem elaborado para desviar as atenções do fato de que J.D. Salinger é um dos favoritos ao prêmio este ano. Hein? Alguém mencionou “escritor isolado”?
Uma vez, falando aqui no blog sobre o escritor suíço (radicado em Londres) Alain de Botton, autor de “Como Proust pode mudar sua vida” (Rocco), eu disse que ele tinha praticamente inventado um novo gênero literário, que batizei de Auto-Ajuda Podre de Chique (AAPC). A leitura que se faz do gênero é a mesma da auto-ajuda mais rasteira, isto é, uma leitura utilitária: “Como este livro pode adiantar o meu lado?”. Ao mesmo tempo – eis o golpe de mestre – há uma aura de refinamento intelectual que impede o leitor de se sentir um filisteu. Contudo, estou reavaliando meu juízo sobre o homem depois que li esta notícia no “Mais!” do último domingo (só para assinantes). Alain de Botton é sócio de uma certa Escola da Vida, que acaba de ser inaugurada em Londres com uma proposta espantosa. Como diz o texto assinado por Pedro Dias Leite: A idéia é a seguinte: o cliente preenche uma ficha com informações sobre sua história, suas aspirações e seus hábitos e, a partir de uma consulta com um especialista, recebe indicações de leitura que o ajudem a enfrentar uma nova fase, encarar uma etapa importante ou simplesmente aproveitar um momento da vida….
Hoje, como todo mundo deve estar cansado de saber, faz cem anos que morreu Machado de Assis. Entre os incontáveis eventos comemorativos, cadernos especiais, exposições, tombamentos, livros sobre esse ou aquele aspecto de vida e obra do escritor genial, é bom tomar cuidado – o risco de enfado é grande. Vale a pena resistir a esse sentimento para ouvir a melhor notícia da temporada: o lançamento da nova – revista e ampliadíssima – edição das obras completas de Machado pela Nova Aguilar. O que antes cabia em três volumes agora precisa de quatro, depois do acréscimo de 66 contos (a melhor novidade), uma atualizada fortuna crítica (que corrige o maior defeito da edição anterior) e mais uma enormidade de crônicas, cartas e peças de teatro. Passada a espuma da efeméride, são esses quatro livros de capa dura que deixarão o Brasil melhor do que era antes de 2008. Pena que o pacote só seja vendido inteiro, nada de volumes avulsos, e custe R$ 550. Mais detalhes sobre o lançamento podem ser lidos no “Globo” de hoje – lamentavelmente, com acesso fechado no site do jornal. Mas para não deixar o blog alheio ao único assunto literário possível nesta segunda-feira, e…
Uma dobra no tempo traz de volta este post publicado em 18/10/2006: * Devo à conjunção de um espelho e uma enciclopédia o descobrimento de Uqbar. A primeira frase de “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, o primeiro conto da coletânea “O jardim de caminhos que se bifurcam”, lançada em 1941, resume Jorge Luis Borges. Ou pelo menos o Borges dos labirintos, da erudição absurda, lúdica e ardilosa, dos tempos paralelos – tudo aquilo que daria origem ao borgianismo. O livro ganhou três anos depois o acréscimo de outros contos fundamentais, entre eles “Funes, o memorioso”, e o nome de “Ficções”. O melhor título do escritor argentino, na minha opinião. (Cito aqui a tradução que consta das “Obras completas”, editora Globo, 1998, mas com uma liberdade: no título do livro, prefiro “caminhos” a “veredas”, que pode até ser uma tradução mais precisa do original senderos, mas soa meio pesado.)
Voto, do latim votum, é uma palavra que veio do vocabulário religioso para entrar no da política. Seu sentido original, que ainda conserva, é o de promessa, desejo íntimo, e por extensão o de oferenda com que se paga tal promessa, consagração. Do voto de castidade dos padres aos votos de boas festas, das velas votivas aos ex-votos com que os fiéis agradecem as graças que acreditam ter recebido de Deus ou de algum santo, não faltam exemplos da permanência desse núcleo semântico religioso na linguagem moderna. De forma menos evidente, as bodas (casamento) também têm a mesma origem, segundo a maioria dos etimologistas. E a própria palavra devoção é descendente de votum, particípio do verbo latino vovere (obrigar-se, prometer), um termo de raiz indo-européia aparentado de outros do sânscrito e do grego. Se a história do voto devocional vem de muito longe, seu sentido político hoje dominante – “modo de manifestar a vontade ou opinião num ato eleitoral ou assembléia”, segundo o Houaiss – é bem mais recente. Registrada em inglês a partir do século 15 ou 16, consta que essa acepção da palavra vote nasceu no parlamento da Inglaterra e logo foi importada pelas línguas latinas, a começar…
Imagine o processo de fazer um livro como se estivéssemos na indústria automobilística. Só faz sentido fabricar um carro se for para ele andar, certo? O livro também precisa andar, quer dizer, cumprir sua própria função. E qual é a função do livro, me diz? Vender? Que vender! Se fazer ler, é óbvio. Ser lido. Esta é a viagem, o passeio. Carros precisam andar. Podem se destacar por serem velozes, lentos mas confiáveis, elegantes, econômicos, seguros, bonitos, espaçosos, baratinhos, o escambau. O mundo dos quatro-rodas, como o da literatura, é infinitamente vário. Mas uma característica todos os carros compartilham: precisam andar. Se não andam, não são carros. Não são nada. Sei. O problema é que, quando você vai construir o seu carro, ou seu carrinho de rolimã, como quiser, ou puder, você tem que fabricar peça por peça. Tem o design, naturalmente: o projeto geral, a cara do bicho, a distância entre eixos, a, digamos, proposta. Isso é importante e até divertido. O problema que pouca gente leva em conta é que, para o carro andar, tem também um monte de parafusos e porcas e bielas e rolamentos e correias e engrenagens e travas e juntas e molas e rebites…
O choque, o luto e o avassalador sentimento de perda que dominaram a comunidade da Stock Car após a morte, aparentemente por suicídio, do escritor David Foster Wallace levou a NASCAR a cancelar o restante da temporada de 2008 em respeito ao aclamado mas atormentado autor de Infinite Jest, A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again e Brief Interviews With Hideous Men. (…) “Estou sendo invadido por sentimentos de – à falta de um conceito melhor – incongruência”, disse Jimmie Johnson, piloto do Chevrolet número 48 da equipe Lowe, que é conhecido no mundo das corridas por seu hábito de presentear os fãs com exemplares dos livros de Wallace. O trecho acima é do jornal satírico The Onion, um “Planeta Diário” americano que se recusa a morrer. Beirando o mau gosto, como de hábito, acerta, também como de hábito, na mosca ao ampliar pela lente da caricatura um sentimento generalizado de luto pela morte do escritor americano de 46 anos. O Arts & Letters Daily de hoje compila 22 links, entre eles o do “The Onion”, que dão uma idéia do alcance dessa epidemia de tristeza, confusão e – sim, parece ser o caso – leitura e releitura de…
O prêmio Jabuti de melhor romance foi anunciado agora há pouco para “O filho eterno”, de Cristovão Tezza, que sempre foi tratado aqui como o grande livro brasileiro do ano passado. A notícia merece comemoração: não é sempre que prêmios acertam assim. É meio chato lembrar isso, mas há menos de três semanas fiz um exercício besta aqui no blog, constatando que apenas três romances lançados no Brasil em 2007 eram finalistas tanto do idoso Jabuti quanto do jovem Portugal Telecom: além do de Tezza, favoritíssimo, eram eles “O sol se põe em São Paulo”, de Bernardo Carvalho, e “Antonio”, de Beatriz Bracher. Uma magra faixa de interseção em meio a tiros para todos os lados. E não é que o galardão quelônio escalou os três títulos no pódio, nessa ordem e tudo? O que isso prova? Talvez nada. Mas torço para que reflita uma revalorização da convergência crítica, da busca de um solo comum de referências em que o debate literário possa voltar a rolar direito. Nada a ver com consensos autoritários, mas, depois de tantos anos de w.o. acadêmico e pulverização blogueira, um idioma comum tem nos feito falta.
Com a partida entre “O amor não tem bons sentimentos”, de Raimundo Carrero, e “O sol se põe em São Paulo”, de Bernardo Carvalho, um clássico apitado por Nelson de Oliveira, começou finalmente a segunda edição da Copa de Literatura Brasileira.
Como esquecer o dia em que Marte atacou? Post publicado em 14/4/2007: * Ninguém teria acreditado, nos últimos anos do século XIX, que este mundo era atenta e minuciosamente observado por inteligências superiores à do homem e, no entanto, igualmente mortais; que, enquanto os homens se ocupavam de seus vários interesses, eram examinados e estudados, talvez com o mesmo zelo com que alguém munido de um microscópio examina as efêmeras criaturas que fervilham e se multiplicam numa gota d’água. O começo do clássico de ficção científica “A guerra dos mundos” (Alfaguara, tradução de Thelma Médici Nóbrega, 2007), romance lançado em 1898 pelo escritor inglês H.G. Wells (1866-1946), impressiona pela precisão “científica” da prosa. A frieza do tom torna ainda mais sinistra a ameaça de invasão marciana que prenuncia.
“Que crise?”, perguntou o presidente Lula. Bom, que tal essa crise-mamute que ameaça engolfar o mundo, levantando até especulações de que a de 1929, em comparação, pode acabar parecendo um piquenique? Provando que a interdependência global, embora tenha se acelerado nas últimas décadas, não é uma invenção contemporânea, a palavra saiu do grego krísis para o latim crisis e daí para o mundo. Chegou ao francês no século 15, ao inglês e ao alemão no 16, ao italiano no 17 e ao português no 18. Sem mencionar o sueco, o holandês, o turco etc. Globalização é isso. A diferença é que, hoje, a vertigem eletrônica tornaria o contágio lingüístico mais rápido, como tem tornado o financeiro. A palavra nasceu no vocabulário da medicina. Referia-se ao momento na evolução de uma doença em que se definia para o médico o caminho que o paciente tomaria numa encruzilhada: de um lado a cura, do outro a morte. O grego krísis quer dizer decisão, definição e, por extensão, momento decisivo. O que explica também o sentido da palavra crítico (de arte, por exemplo), um profissional encarregado de decidir, de julgar o mérito de algo (no caso, uma obra). Foi apenas no século 19,…
Na América Latina e na Espanha, o mais próximo que temos de um Deus da literatura se chama Paul Auster. Essa frase do escritor boliviano Edmundo Paz Soldán em seu blog no site “Boomeran(g)” me fez engasgar com a pipoca. Está certo que opinião é mercadoria baratinha – um dos dramas da blogosfera. Está certo também que, do ponto de vista literário, o Brasil não fica exatamente na América Latina, embora faça fronteira com ela. Por fim, não é menos certo que o escritor do Brooklyn merece mais respeito do que ultimamente tem recebido da crítica: mesmo tendo parado de acompanhar seus lançamentos há alguns anos, quando seu lado mais pesadamente alegórico – seu pior lado, a meu ver – começou a prevalecer, já tive minha fase austeriana compulsiva; até hoje considero “Leviatã” um grande romance e “Trilogia de Nova York”, um livro-chave para entender a literatura dos anos 80. Feitas todas essas ressalvas, estarei exagerando ou “Deus da literatura”, com inicial maiúscula e tudo, soa como um dos maiores despautérios dos últimos anos? Em tempo: um amigo meu, que de bobo não tem nada, gostou muito do último livro de Auster, “Homem no escuro” (Companhia das Letras). Estou coletando…
A elegante revista literária “Arte e Letra”, de Curitiba, estreou em maio deste ano e, como tem periodicidade trimestral, está apenas no número dois – ou edição B, como preferem os editores. Mas já é um desses milagres ou acidentes editoriais que, sendo inteiramente imerecidos por nosso mercado leitor, só nos resta torcer para que não se acabem depressa demais. (O critério alfabético sugere uma expectativa de vida de no máximo vinte e poucas edições, ou seja, em torno de seis anos. É coisa à beça no gênero, mas acho que eu consideraria a infinitude dos números mais reconfortante.) Embora o timing seja obviamente fortuito, o fato de a edição B trazer uma rara tradução de David Foster Wallace para o português é também eloqüente. Num momento em que o luto pesado pela morte prematura do talentoso escritor americano vai se espalhando para nublar o horizonte até de quem nunca o leu, os fragmentos do ensaio sobre o cineasta David Lynch (que consta do livro A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again), com tradução de Caetano Waldrigues Galindo, lembram a importância de uma coisa chamada edição inteligente – ou inteligência editorial, tanto faz. Nunca é demais lembrar que DFW…
Nem foi preciso citar Woody Allen entre os admiradores americanos de Machado de Assis. Outro Allen, o Ginsberg, cumpriu para minha surpresa esse papel, com uma frase de 1961 em que compara o escritor carioca a Kafka – no que discorda de Philip Roth, que prefere o paralelo com Samuel Beckett. A esses nomes bastou juntar os suspeitos de sempre, como Susan Sontag e Harold Bloom, além de algumas vozes brasileiras, e o resultado foi a honesta e otimista reportagem sobre Machado que o “New York Times” (cadastro gratuito, em inglês) publicou na última sexta-feira. Com o gancho da Semana Machado em Nova York, em que seminários se alternam com exibições de filmes para lembrar o centenário da morte do autor, o título “Depois de um século, uma reputação literária enfim floresce” anuncia um texto em que o correto Larry Rohter, o homem que Lula quis expulsar do Brasil, trata Machado como o gênio que ele é e especula sobre as razões de sua demora em penetrar no cânone internacional – por internacional entenda-se anglófono, of course. Quando digo que a reportagem é otimista, refiro-me à presunção de que a longa batalha esteja vencida, como se, um século depois, Machado…

