Esta notícia não é lá muito nova, mas esteve longe de merecer a devida fanfarra, confinada a notinhas discretas aqui e ali. E os leitores deste blog que apreciam a seção “A palavra é…” vão entender que ela merece muito mais: no fim do mês passado, o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo pôs no ar em sua versão integral, para qualquer um consultar online e sem necessidade de cadastro, uma das obras mais cobiçadas por amantes de dicionários raros – o “Vocabulario Portuguez e Latino” do padre Raphael Bluteau, a primeira grande obra de lexicografia da língua portuguesa, publicada em dez volumes entre os anos de 1712 e 1728 (quando esta página abrir, clique em “dicionários on-line” na coluna da esquerda). É difícil exagerar o valor da notícia. Volta e meia, em meus escritos sobre palavras, recorro à obra pioneira, ambiciosa e deliciosamente imperfeita de Bluteau, seja para confirmar a antiguidade de um vocábulo ou acepção, seja para dar cores pitorescas a algum tópico mais árido de etimologia. Para tanto, eu contava até agora com um CD-ROM lançado há alguns anos pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em edição limitada e quase secreta, que consultava…
Depoimento de um famoso machadiano: Para mim, Capitu. Nos encontramos na casa de campo emprestada por um amigo meu, diplomata atualmente fora do país, adido cultural em Varsóvia. A casa fica no alto da Gávea e não poderia ser mais discreta, a fachada cochilando atrás de uma cerrada fileira de buganvílias. Faz três ou quatro meses que Escobar morreu no mar – tempo suficiente para que a saudade do adultério e suas vertigens, aliada à casmurrice do marido, empurre Capitu a esse encontro perigoso com alguém que mal teve tempo de conhecer. Fechada a porta, as poucas horas de que dispomos ganham imediatamente a plenitude de dias e a intensidade de segundos. Como descrever aquilo? Capitu se entrega e se nega ao mesmo tempo, cada negação explodindo numa entrega maior, como se lutasse consigo mesma. Dor, prazer, vergonha, febre. É mandona tanto na luxúria quanto no recato: aqui! pára! aperta! chega! mais! Saio exaurido, com um sorriso idiota nos lábios, feito um bebê farto do leite materno. Melhor que a encomenda. E você, que personagem da literatura levaria para a cama?
O modismo da juventude foi muito conveniente para jovens como eu, que fizeram dele seu ganha-pão, mas acho que está na hora da crítica adotar algum parâmetro mais significativo. O escritor inglês Evelyn Waugh escreveu essa frase em 1932, quando, beirando os 30 e já em seu terceiro livro, via-se como um ex-enfant terrible das letras britânicas. Poderia estar falando do Brasil dos últimos anos. Muita gente na literatura nacional – e nos arredores, sobretudo nos arredores – andou ocupada recentemente com o velho mito do jovem gênio, também conhecido, em sua encarnação 2.0, como escritor-blogueiro. Na falta de um mercado leitor significativo para a ficção escrita no país, criou-se uma espécie de bolha de marketing em que, uns por ingenuidade, outros por esperteza, parte da imprensa e da crítica empenhou-se em vender aos leitores uma mistura maluca de continente e conteúdo. De repente, dois únicos critérios pareciam nortear a busca de relevância literária: a idade (pouca) e a virtualidade (enorme). Bastava ler com olhos livres para perceber que, como é natural, raros daqueles nomes justificavam o burburinho. Não se revoga por decreto a severidade da relação ancestral entre quantidade e qualidade na arte. Acontece que olhos livres são mercadoria…
A tradução literal de investment grade por grau de investimento, embora ligeiramente desajeitada à primeira vista, não chega a soar estranha a nossos ouvidos lusofônicos porque a idéia de grau como nota que se tira numa prova está presente na linguagem comum, e no fim das contas trata-se disso mesmo – um conceito, uma posição em determinada escala de valores. No exame da banca financeira internacional, o Brasil foi bom aluno e deu mais um passo à frente, subiu um degrau, credenciando-se a uma recomendação firme de investimento. Não faltará quem considere a metáfora escolar um tanto humilhante para um país soberano. Paciência: assim caminha o mundo globalizado. Esse grau, no fundo, não é outro senão aquele que se usa para escalonar vários sistemas de medição – da temperatura à proximidade em relações de parentesco, do teor alcoólico das bebidas à potência das lentes dos óculos. O que muda, naturalmente, é o contexto, o sistema. Em todos eles, porém, o grau corresponde sempre a um passo da escala. E é exatamente do sentido de passo (gradus em latim) que a palavra vem. A presença de gradus em nossa língua é robusta, embora nem sempre se deixe detectar a olho nu….
A tradução literal de investment grade por grau de investimento, embora ligeiramente desajeitada à primeira vista, não chega a soar estranha a nossos ouvidos lusofônicos porque a idéia de grau como nota que se tira numa prova está presente na linguagem comum, e no fim das contas trata-se disso mesmo – um conceito, uma posição em determinada escala de valores. No exame da banca financeira internacional, o Brasil foi bom aluno e deu mais um passo à frente, subiu um degrau, credenciando-se a uma recomendação firme de investimento. Não faltará quem considere a metáfora escolar um tanto humilhante para um país soberano. Paciência: assim caminha o mundo globalizado. Esse grau, no fundo, não é outro senão aquele que se usa para escalonar vários sistemas de medição – da temperatura à proximidade em relações de parentesco, do teor alcoólico das bebidas à potência das lentes dos óculos. O que muda, naturalmente, é o contexto, o sistema. Em todos eles, porém, o grau corresponde sempre a um passo da escala. E é exatamente do sentido de passo (gradus em latim) que a palavra vem. A presença de gradus em nossa língua é robusta, embora nem sempre se deixe detectar a olho nu….
Quando decidiu que seria escritora, Maria Cândida descobriu que, sem saber, já vinha se preparando nos últimos anos para aquele momento: estavam a postos o ouvido bisbilhoteiro, o olho clínico, aqueles surtos mórbidos de introspecção a cada café-da-manhã, o cabelo mais curto de um lado que do outro, os óculos de antiquário, as camisetas pretas puídas, o desapego a modismos e coisas materiais. Aí, como já tinha computador, foi só descolar um bom corretor ortográfico em versão pirata e espetar em sua parede de cortiça uma coleção de frases sobre a arte de escrever, com aquela genial da Dorothy Parker encabeçando a lista, e esperar. Quando a espera começou a se prolongar além do razoável, Maria Cândida acrescentou à sua escrivaninha um porta-lápis com o logo da Granta e um exemplar de The art of fiction, de John Gardner, que, mesmo sem saber inglês, passou a abrir em páginas aleatórias e folhear preguiçosamente sempre que ameaçava se impacientar. Depois comprou uma cadeira de escritório com ajuste de altura, um pôster comemorativo dos 50 anos de O encontro marcado, duas dúzias de lápis coloridos, uma coleção de cadernos de capa dura, uma luminária verde-água totally anos 50, uma caneca de chá…
Os leitores deste blog já sabiam da novela. Agora ela chega oficialmente ao fim – e se isso não for motivo para gritar “parem as máquinas!”, não sei o que será. Trinta e um anos depois de sua morte, Vladimir Nabokov está lançando livro novo. Dmitri, seu filho, levou todo esse tempo para decidir contrariar o último desejo do pai, que queria ver o manuscrito queimado, e publicar, mesmo inacabado, o romance The original of Laura. Ingenuidade deste blogueiro? Por que não tratar o caso como mais um episódio daquela oportunista e interminável série “Os baús”? Bom, há algumas razões. Primeiro, Nabokov foi, acima de qualquer dúvida, um dos maiores escritores do século 20. Segundo, consta que ele apostava alto nesse livro. Terceiro, era um perfeccionista que trabalhava o texto num nível de acabamento tão estratosférico que seu primeiro rascunho tem tudo para ser mais polido que a maioria das versões finais que circulam por aí. E em quarto lugar – bom, não tem quarto lugar. A não ser, talvez, a resposta que Dmitri, 73 anos, deu em sua entrevista de ontem ao “New York Times” (em inglês, cadastro gratuito), quando lhe perguntaram se a principal motivação para sua decisão…
O vidro martelado da porta tem um letreiro em tinta preta trincada: “Philip Marlowe…. Investigações”. É uma porta razoavelmente decadente no fim de um corredor razoavelmente decadente, num edificio do tipo que era novo ali pelo ano em que o banheiro com azulejo até o teto se tornou a base da civilização. A porta fica trancada, mas ao lado dela há uma outra, com letreiro igual, que não fica. Pode entrar – não há ninguém aqui além de mim e de uma enorme mosca varejeira. Mas não se você for de Manhattan, Kansas. O início de “A irmãzinha” (The little sister, The Library of America, tradução caseira), de Raymond Chandler, o grande estilista da literatura policial americana hard boiled, já devia ser inesquecível quando foi publicado pela primeira vez, em 1949. Ainda mais inesquecível se tornou, porém, depois que milhares de escritores mundo afora fizeram questão de lembrá-lo, lembrá-lo e lembrá-lo de novo, numa avalanche de imitações, sátiras, pastiches, glosas e homenagens que encheriam bibliotecas. Um processo de lugar-comunização tão avassalador que, a esta altura, estará desculpado quem preferir esquecer o inesquecível. É estranho pensar que nunca mais será possível ler esse parágrafo sem ouvir os ecos de suas palavras…
A repercussão do caso de polícia que envolveu o craque Ronaldo e o travesti André/Andréa no Rio de Janeiro promete dar cores mais brasileiras a uma palavra francesa que, mesmo sendo um item de nossa pauta de importações lingüísticas, é vista em todo o mundo como coisa nossa, muito nossa. Mais ou menos como ocorre com o futebol. Travesti nasceu em francês no século 16 como adjetivo, particípio de travestir, verbo que a princípio tinha a grafia transvestir, mais próxima do original latino trans + vestire. A substituição de trans por tra foi uma influência do italiano travestire. De saída, travesti carregava o sentido amplo e ainda não especializado de “disfarçado, vestido com roupas de outra condição, idade ou sexo”. Essa largueza semântica também é possível hoje em português, mas apenas quando se trata do verbo: pode-se falar em “bandido travestido de deputado”, por exemplo. Travesti é outra história. No início do século 20, quando, já no papel de substantivo, travesti e seus termos irmãos se espalharam por diversas línguas, todos já levavam o sentido estrito de homossexual que se veste com roupas do sexo oposto e, especialmente, o de homem que tenta se parecer com mulher, inclusive recorrendo a…
No “Rascunho” de março, o bom escritor Rubem Mauro Machado, autor, entre outros livros, do premiado mas pouco conhecido romance “A idade da paixão”, investia contra a mistura de despreparo e descaso do jornalismo cultural brasileiro para lidar com o crescente volume de livros de autores nacionais: Vamos ser bem sinceros: a grande mídia (embora ela não possa ou não ouse confessar isso abertamente) está se lixando para a cultura brasileira e, dentro dela, especialmente para a literatura brasileira. (…) E no entanto é importante que se proclame: avaliar a obra de um autor brasileiro não é um favor que se faz a ele – é um direito legítimo que ele tem, do mesmo modo que o público tem todo o direito de saber que existe essa obra na qual ele poderá se refletir, ou não; o leitor deve ter acesso à informação, embasada e isenta, para decidir. Como os suplementos se transformaram em larga medida numa ação entre amigos (“você me elogia, depois retribuo”) ou numa extensão dos departamentos de mídia das editoras, a reproduzir releases, quase toda crítica que trazem vem hoje eivada de suspeição. Pode ser verdade, mas, como costuma ocorrer, não toda a verdade. Quem se…
A palavra madrasta está envolta em conotações negativas há tanto tempo que, pode-se argumentar, alguma elas devem ter aprontado. Além dos contos de fada, com Cinderela puxando a fila, ditos populares são testemunhas da antiguidade do problema. Rafael Bluteau, em seu dicionário do início do século 18, registrava os seguintes adágios portugueses: “Madrasta e enteada sempre andam em baralha” (isto é, em conflito, em joguinhos de intrigas); e o genialmente sucinto “Madrasta, o nome lhe basta”. Bastará mesmo? Será que o sentido negativo já estava lá no momento da criação da palavra? Madrasta saiu do latim popular matrasta, de significado idêntico: a nova mulher do pai. Trata-se de uma das derivadas de mater, vinda por sua vez da imemorial raiz indo-européia matr-, ancestral tanto do sânscrito mata quanto do inglês mother. A idéia de mater, mãe, matriz, é tão vital na língua que aparece embutida em lugares inesperados – na matéria, por exemplo, ou na madeira. Mas a madrasta, afinal, tem ou não tem um lado escuro desde sua formação? A maioria dos filólogos lava as mãos, mas Antenor Nascentes, nome clássico da etimologia brasileira, aposta que sim: segundo ele, a palavra latina nasceu como um “despectivo” – forma depreciativa,…
Crítica construtiva, tudo bem, mas eu gosto mesmo é de elogio, disse o jovem escritor do momento. A platéia riu. A boutade é boa, retrucou da poltrona ao lado o escritor de meia-idade, seu momento perdido em algum ponto remoto dos anos 80, mas eu sempre achei que elogio é que nem doce. Uma delícia, e te enche de energia. Mas não faz crescer. Críticas têm proteína, elogios têm açúcar. O escritor jovem que se esbalda nos primeiros elogios, se lambuza neles, principalmente acredita neles, está se recusando a crescer. O jovem escritor do momento ficou lívido. As juntas de seus dedos descoloriram em torno do microfone. Quem se recusou a crescer foi você, cara. Como disse? Quem se recusou a crescer foi você, você é que se recusou a ir além daquela lengalenga sub-mautneriana de marginais heróis e nonsense que eu li quando tinha quinze anos, como era mesmo o nome, Minhocas do asfalto? Não, agora lembrei: A cidade e os cupins. Li com quinze, achei razoável, com dezesseis já achava um lixo. Foi você que não cresceu, você que fracassou. Tudo bem, pode ser que eu não dê em nada também, é altamente provável, aliás. Mas tenha pelo…
Sobre “Como falar dos livros que não lemos?”, do francês Pierre Bayard (Objetiva): Faz diferença enfrentar Ulisses, algo que vai nos consumir meses ou anos, se o que “importa” é saber sobre o que o texto trata, qual sua relevância, quais foram suas inovações de linguagem, que lugar ele ocupa na história da literatura? Se tais perguntas fossem realmente a sério, uma crítica inevitável a Como falar… seria a de que seu autor esquece aquilo que move a maioria dos leitores. Ou seja, o prazer, o medo, o impacto, o encantamento e todas as sensações que tiramos de um livro em si, concomitantemente à sua fruição, o que é imediato e anterior a qualquer elaboração intelectual. É isso o que ficou para mim, por exemplo, dos romances de mistério da Coleção Amarela que li pelos 12 ou 13 anos, dos quais é difícil lembrar até os títulos. Ou dos gibis de terror da editora Vecchi. Ou de centenas de histórias de Tio Patinhas, Bolinha e Marvel que deixaram a infância gloriosamente autista e colorida. Mas Bayard está longe de ser tão óbvio. Mais que uma tese, seu livro é um exemplar acabado de prosa irônica, que usa um cinismo falso…
Adultescente é um neologismo jocoso de sentido óbvio, cruzamento de adulto com adolescente. No entanto, ainda não abriu caminho até os dicionários brasileiros e, mais do que isso, não parece ter vingado de verdade em nosso dia-a-dia. Tudo indica que vingará. Nascido no inglês americano como adultescent, registrado pela primeira vez em 1996 e eleito pelo dicionário Webster’s a “palavra do ano” de 2004, o termo já tomou assento firme pelo menos em espanhol, na forma adultescente, de grafia igual à nossa. Seu trânsito internacional deve-se ao fato de o novo tipo humano que nomeia ser encontrável em muitos países. É só olhar em volta: adultescentes não faltam na paisagem contemporânea. Talvez você tenha um ou dois dentro de casa. Talvez, meu Deus, você seja um. A palavra se difundiu como um daqueles rótulos que a cultura de massa adota para vender camisetas. Nesse sentido, é prima de expressões midiáticas como “geração X”, “metrossexual” etc. No entanto, “adultescente” tem consistência maior do que ajudar profissionais de marketing a bolar produtos destinados a esse novo nicho de mercado detectado no fim do século 20: o dos adultos “infantilizados”, consumidores de videogames e livros sobre magos mirins, que freqüentemente prolongam sua dependência…
Existe uma cidade, uma cidade belíssima, que está indo para as cucuias. Mas, coisa curiosa, a literatura que nela se produz não parece muito interessada em refletir isso. Consciência do próprio caráter de artifício, alergia a temas que possam ser considerados políticos, esteticismo, cinismo ou apenas vocação para outros tipos de olhar, o fato é que a maioria dos escritores do Rio (e eu me incluo aí) tem adotado um certo ar blasê enquanto o velho espírito carioca estrebucha na calçada. Como se, sei lá, precisássemos fingir que é dor a dor que deveras sentimos. Fernando Molica é uma exceção. Sendo também jornalista, e dos bons, há anos se ocupa de traduzir os signos mais vistosos dessa queda, que na imprensa são rasos e febris, ruído puro, para a linguagem saturada de sentido da literatura. Correndo os riscos embutidos em seu projeto – inclusive o de ser visto como herdeiro do populismo literário de um José Louzeiro, coisa que não é –, divide sua fé em doses iguais entre realidade e ficção, sem fazer caso excessivo da desconfiança que nossa época devota a ambas. A sobriedade desse olhar realista mas bem-humorado, que repudia esquemas absolutos e tramas mirabolantes, é uma…
Edições do tipo “baú do fulano”, que raspam as gavetas de defuntos ilustres para faturar uns cobres a mais, não costumam ter muita serventia – a menos que você seja um fã roxo, do tipo que compraria no eBay um lenço de papel usado por fulano, caso em que o “baú do fulano” é uma delícia. Mas toda regra tem exceção. A julgar por esse artigo de Steve Almond na revista eletrônica “Salon” (em inglês, acesso livre), o livro Armageddon in retrospect, coletânea póstuma de escritos de Kurt Vonnegut, dá ao leitor o raro vislumbre do momento em que um grande escritor encontra sua voz – mais especificamente a voz inconfundível, mordaz e cara-de-pau que conduz “Matadouro 5”. É nas cartas escritas para a família quando estava na Europa, lutando na Segunda Guerra, que Vonnegut soa mais parecido com o narrador de sua futura obra-prima, e não nos primeiros contos realistas e sérios que produziu após voltar para casa, determinado a se tornar escritor profissional. Não deixa de ser uma lição para jovens (ou nem tão jovens) escritores que estejam à procura desse tesouro fugidio chamado “voz própria”: depois de muito procurar, experimente ficar distraído.
A palavra dossiê – do francês dossier, “conjunto de documentos sobre determinado assunto ou pasta em que eles são agrupados” – é um bom exemplo de estrangeirismo que criou raízes rapidamente em nossa língua e parece disposto a se tornar eterno. Alcançou essa proeza graças à capacidade de, justamente por não pertencer ao velho vernáculo, se revestir de uma grossa camada de conotações excitantes, misteriosas e explosivas, que a literatura tratou de explorar. Com suas promessas de segredos cabeludos, seria um evidente empobrecimento trocar hoje a palavra dossiê por uma tradução técnica e convencional na linha de “documentação, processo, pasta”, como sempre pregaram os puristas, defensores de uma pureza (impossível) do idioma. Se alguma dúvida a respeito disso ainda persistia, o papel turbulento desempenhado pelos dossiês na política brasileira recente tratou de liquidá-la. O primeiro registro do vocábulo em nossa língua data de 1958, segundo o dicionário Houaiss. Muitos séculos, portanto, depois do surgimento dessa acepção de dossier em francês, derivada no fim das contas do latim vulgar dossum, “dorso, costas” – provavelmente em referência à pasta em que se agrupam os tais documentos, com sua etiqueta no dorso. Seja como for, após seu desembarque por aqui o dossiê não…

