Pode-se argumentar que, aos 82 anos de idade, a reputação literária do colombiano Gabriel García Márquez está estabelecida. Sua cotação na Bolsa de Valores Literários deverá sofrer oscilações ao longo do tempo, como a de qualquer escritor que não seja simplesmente esquecido, mas poucas vozes – como a do exilado cubano Guillermo Cabrera Infante, um desafeto político morto em 2005 – deram-se ao trabalho de lamentar seu ...
Não me lembro de outra época em que a imprensa literária mundial tenha se ocupado tão pouco de… literatura. No lugar dela, fala-se de: 1. Tecnologia do livro digital: iPad x Kindle x etc.; 2. Política da difusão de literatura: a Amazon brigando de foice com a editora Macmillan, que aproveitou a nova concorrência da Apple para impingir ao grande varejista um aumento no preço do livro digital, enquanto os independentes vislu...
Depois de J.D. Salinger, em rápida seqüência, vão-se o crítico literário Wilson Martins (nascido em 1921) e o escritor e jornalista argentino Tomás Eloy Martínez (1934). Está ficando cada vez mais difícil entender a filiação estética desse coletivo de bruxas. Pero que las hay, las hay....
O leitor Sérgio Luiz Fernandes pergunta: Caro xará, qual a origem desta palavra para designar alguém com o mesmo nome? Parece não haver dúvida de que o brasileirismo “xará” vem do tupi. Os filólogos Antônio Geraldo da Cunha e Silveira Bueno concordam nisso, embora apresentem notações um pouco diferentes: xa’ra, de xe rera, “meu nome”, de acordo com o primeiro; e che-rera-á, “o que é tirado do meu nome”, nas pal...
Depois de passar décadas enterrado voluntariamente em vida, J.D. Salinger, autor de “O apanhador no campo de centeio”, está morto. Segundo comunicado da agência literária que o representa, o escritor morreu ontem “de causas naturais” e “sem dor” na casa de campo em que se isolou há meio século, em Cornish, no estado americano de New Hampshire. Salinger é praticamente o inventor do adolescente m...
O iPad, tablete da Apple anunciado ontem, está apanhando mais que o Cristo do Mel Gibson na comunidade geek. Sem multitarefa e sem entrada USB, acusam-no basicamente de ser só um iPhone gigante que, para piorar, não faz fotos e nem telefone é. Para o que vem ao caso aqui – a leitura de livros digitais – não se pode negar que é interessante o esforço investido na criação da iBookstore, a associação com grandes edit...
Seria de imaginar que o rápido despejo da literatura das páginas das revistas comerciais fosse uma bênção para as revistas literárias, especialmente nos ambientes acadêmicos que se tornaram portos seguros para (e mecenas de fato de) escritores cujas obras não vendem o suficiente para gerar receita. Seria de esperar que os leitores leais de escritores estabelecidos promovessem um aumento na tiragem dessas pequenas revistas e que ...
Esta é para os leitores do Todoprosa que compartilham com o blogueiro a paixão pelo Kindle, um aparelho que, como se sabe, é tão brilhantemente bisonho e jurássico que não só se mantém cego, surdo e mudo diante do tumulto da internet como ostenta uma tela sem luz própria. Devemos estar mesmo na temporada dos acessórios engenhosos para leitura (pelo menos enquanto não chega o tablete da Apple, que, dizem, pode até dispensar o...
A chamada Técnica do Deputado Nordestino (denominação em que há inegavelmente uma dose de preconceito, visto que políticos de qualquer latitude dela lançam mão), ou apenas TDN, é a maior aliada do escritor que precisa preencher determinado espaço com suas letrinhas em prazo curto – o que a torna especialmente valiosa para cronistas. Trata-se, em resumo, de uma longa reiteração, de um incansável repisar da mesma idéia, com...
Um dos segredos mais bem guardados do mundo literário é que, embora possam ser, individualmente, pessoas até adoráveis, escritores em comunidade são tão interessantes quanto dentistas em congresso....
Foram as poucas linhas daquela carta de recusa que fizeram Lúcio Nareba, lenda da blogosfera literária nacional, perder a cabeça. Não fosse o veneno destilado – gratuitamente, gratuitamente! – pela famosa editora Bia Escarpin, o adorável Nareba estaria entre nós até hoje, esvaziando dois engradados e meio de cerveja por dia às custas de seus admiradores mais jovens, fumando pelos ouvidos, coçando a bunda agressivamente como...
Parece ser sério: uma empresa chamada Sarcasm, Inc. está vendendo (?) um sinal de pontuação chamado “ponto de sarcasmo”. Me lembrei do velho ponto de ironia, uma exclamação de cabeça para baixo, inventado – se não me engano – pelo Ziraldo. Não é difícil entender por que o ponto de ironia não pegou, apesar de sua aparente necessidade, confirmada a cada vez que milhares de leitores deixam de captar a piada e se enfurec...
Alho-poró é um eufemismo que parece ter conquistado a preferência dos falantes brasileiros. Acontece que porro e alho-porro, formas tradicionais de chamar em português a erva Allium porrum ou ampeloprasum, ganharam ressonâncias desagradáveis pela associação com “porra”. Uma associação que, longe de ser fortuita, vai fundo na história das palavras. Segundo Corominas, o filólogo eminente, tudo começou no latim, quando o a...
Num momento em que a humanidade está mesmerizada pela leitura eletrônica, uma surpreendente e rudimentar invenção mecânica para quem ama os livros de papel (que não, NÃO vão desaparecer): o Thumbthing, que o blog de livros da “New Yorker” chama de “revolucionário” – meio de brincadeira, mas só meio. A idéia, claro, é segurar confortavelmente o livro com apenas uma mão, mantendo abertos aqueles volumes que insistem...
Como no romance original, nossa história acompanha dois relacionamentos: o trágico caso de amor adúltero entre Anna Karenina e o Conde Alexei Vronsky e o casamento mais esperançoso de Nikolai Levin e a Princesa Kitty Shcherbatskaya. Esses personagens vivem num mundo de inspiração punk-retrô cheio de mordomos robóticos, autômatos desajeitados e aparelhos mecânicos rudimentares. Mas quando essas máquinas revestidas de cobre com...
– Tu tuíta? – Tuíto, e tu? – Tuíto, too....
Antes de ler “Flores azuis” e “Galiléia”, eu me perguntava por que as livrarias reservam uma parte toda especial, geralmente escondidinha e acanhada, para a literatura nacional. Confesso, envergonhado, que eu via isso com alguma revolta. Um resquício de patriotismo que não saiu no banho, talvez. “Flores azuis” e “Galiléia” me deram uma explicação para este fenômeno que não é só comercial. Na verdade, tudo é mu...

