Clique para visitar a página do escritor.
Começos inesquecíveis: Rodrigo Fresán

Começa com uma criança que nunca foi adulta e acaba com um adulto que nunca foi criança. Algo parecido. Ou melhor: começa com um suicídio adulto e uma morte infantil e acaba com uma morte infantil e um suicídio adulto. Ou com várias mortes e vários suicídios em idades variáveis. Não tenho certeza. Não tem importância. Como se sabe – se desculpa e se perdoa –, os números, os nomes, os rostos costumam ser os primeiros a ...

O desacordo ortográfico e a literatura
NoMínimo / 07/04/2008

Um capítulo decisivo dessas relações transnacionais foi a consagração de García Lorca em Buenos Aires, em 1932, não evitando, porém, que Jorge Luis Borges o antagonizasse e chamasse de “andaluz profissional”. Borges, por sua vez, freqüentava grupos literários argentinos de vanguarda, influenciados por Darío. Na ocasião, Lorca acolhia Neruda, que reconheceria a importância desse encontro em sua Ode a García Lorca. Nerud...

O sáurio
Sobrescritos / 04/04/2008

As livrarias pequenas ou decadentes eram as melhores. Sentimentalismo? Picas: ausência de câmeras. Esgueirava-se entre as estantes feito réptil, puro sangue frio em movimento. Sim, um lagarto. Com olho de ave de rapina para que nada lhe escapasse: localização da obra em foco, vendedores mais próximos, possibilidade de flagra por meio de traiçoeiros espelhos ou jiraus. Suích, suích, lá ia ele dobrando esquinas acolchoadas de be...

Maomé
A palavra é... / 02/04/2008

O reconhecimento, pelo Vaticano, de que a população muçulmana ultrapassou numericamente a católica fez toda a imprensa ocidental se voltar ao mesmo tempo para Meca, capital espiritual da religião fundada pelo profeta Maomé. Na hora de escrever o nome do pai do islamismo é que começou o descompasso: Maomé virou Muhammad em inglês, Mahomet em francês, Mahoma em espanhol e assim por diante. Como explicar isso? Numa palavra: tran...

De Steinbecks e Alencares
NoMínimo / 31/03/2008

Mas se toda a obra de Steinbeck está em catálogo quarenta anos depois de sua morte (em 1968), e apesar da dieta forçada de seus livros imposta a centenas de milhares de estudantes – e da canonização oficial pela Library of America –, por que será que ele está tão decisivamente excluído do mapa literário? Além de Brad Leithauser, que em 1989 publicou uma perspicaz homenagem ao qüinquagésimo aniversário de “As vinhas d...

Maiô
A palavra é... / 28/03/2008

A palavra “maiô” parecia destinada a ter sabor nostálgico para sempre. Nome de um traje feminino de banho inteiriço tornado conservador pela explosão mundial do duas-peças, ou biquíni, o maiô nunca desistiu de tentar rentrées periódicas. Foi necessária, porém, uma mudança de praia – ou piscina – semântica para que invadisse triunfalmente o século 21. Não mais como peça feminina, mas unissex. Não mais estrela em ...

Perdoem-nos por nos trairmos
NoMínimo / 26/03/2008

Não sei se o sobrenome tem algo a ver com isso, mas vira e mexe eu preciso tomar a bênção do Nelson. Começou quando publiquei em 2000, no livro “O homem que matou o escritor”, um conto chamado O argumento de Caim, que tem o cara como personagem. O primeiro conto do meu primeiro livro, que bandeira. Angústia da influência? Não, prefiro influência da angústia. Ou só brincadeira, como nesta crônica escrita de encomenda sema...

Literatura digital subindo a escada
NoMínimo / 24/03/2008

Fundir literatura e internet – uma fusão profunda que use as ferramentas digitais para revolucionar o próprio modo de narrar e não apenas para divulgar textos lineares – é, para muita gente, uma obsessão. É possível que esse caminho acabe levando cedo ou tarde a uma obra-prima. Embora eu não consiga ver o texto-texto se tornando obsoleto, nada impede que novas formas de contar histórias ganhem vida própria, sem precisar to...

Arthur C. Clarke e os limites da razão
NoMínimo / 22/03/2008

…quando se trata dos textos canônicos da moderna ficção científica, e da assombrosa geração de proféticos inovadores formada por seus contemporâneos – Isaac Asimov, Robert A. Heinlein e Ray Bradbury – os escritos do Sr. Clarke eram os mais bíblicos, os mais prontos a amplificar a razão com a convicção mística, os mais religiosos no sentido mais amplo da religião: especular sobre começos e fins, e como fazemos pa...

Engarrafamento
A palavra é... / 19/03/2008

Como ocorre nos engarramentos, que se espalham rapidamente embora sua origem nem sempre seja fácil de determinar, a idéia de que os carros retidos num congestionamento de trânsito estão presos como o líquido numa garrafa, ocupando todos os espaços e condenados a sair lentamente, por um gargalo estreito, é uma metáfora que se espalhou pelas línguas latinas ali pelo início do século passado. Provavelmente jamais saberemos com c...

Copa etc.
NoMínimo / 17/03/2008

Entrou no ar neste fim de semana o site da segunda edição da Copa de Literatura Brasileira. Como um dos jurados deste ano, tive direito a voto, mas nem por isso me considero suspeito para elogiar a lista dos dezesseis concorrentes, que me parece sensata, eclética e representativa. Não faltará quem torça o nariz, alegando que a literatura brasileira não produz dezesseis bons romances por ano. Concordo. Mas o que importa é que os ...

Milton Hatoum: ‘Órfãos do Eldorado’
Primeira mão / 14/03/2008

Um novo livro do amazonense Milton Hatoum é sempre uma notícia a ser festejada. Foram poucos desde que ele estreou em 1990 com “Relato de um certo Oriente”: até este “Órfãos do Eldorado” (Companhia das Letras, 112 páginas, R$ 29) eram apenas três romances, todos de alguma forma substanciais, carnudos no vocabulário e na simbologia, com algo de amazônico e transbordante em sua fé na arte de narrar – “como os romance...

Cachorro
A palavra é... / 12/03/2008

Os brasileiros que se queixaram de ter sido chamados de “cachorros” por agentes da imigração espanhola podem ter cometido um erro de tradução. Foi o que argumentou na terça-feira, em reunião com membros da comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, o embaixador da Espanha no Brasil. “Cachorro em espanhol é diferente, significa filhote”, afirmou Ricardo Peidró. Mais uma exibição do velho esporte dip...

Ah, a língua…
Posts / 10/03/2008

Autores como Guimarães Rosa, quando morrem fisicamente, morrem também literariamente. O Rosa não vai durar muito tempo, ele hoje só é lido nas universidades. Porque ele saiu dos trilhos, exagerou. Aconteceu isso também com o Mário de Andrade que, quando escreveu “Macunaíma”, queria ser o Dante da língua portuguesa. Quem me chamou a atenção para isso pela primeira vez foi o Graciliano Ramos. É possível saber tudo de lín...

Grátis
A palavra é... / 07/03/2008

Palavrinha adorável, “grátis” nunca saiu de moda, mas alguns anos atrás pouca gente teria sido capaz de prever que a internet a transformaria em carro-chefe. Mera – e antiga, já registrada em 1502 – transposição para o português do latim gratis, é derivada do adjetivo latino gratus, que tem sentido ativo (“que agrada, que delicia”) e passivo (“agradecido, reconhecido”). A gratuidade traz do berço, portanto, a id...

O caso dos escritores Jerominho
Sobrescritos / 05/03/2008

O que mais nos deve inquietar no chamado “escândalo dos escritores Jerominho” não é saber que eles – todos os sete – se sujeitaram a este triste papel, assinar seus nomes numa literatura que, se tem um autor, esse autor só pode ser o falecido Jerônimo Mayrink. Como se sabe, os escritores Jerominho, cujos nomes a recente notoriedade do caso me dispensa de declinar, compraram – por dez mil dólares a unidade – um produto ...

Fim de semana: sustos
NoMínimo / 03/03/2008

Lendo o Babelia (em espanhol, acesso gratuito), encontro uma reveladora entrevista de Ian McEwan: “Muitos acreditam que o romance perfeito é ‘Madame Bovary’. Eu o reli há dois anos e pensei: não é. ‘Madame Bovary’ morreu. (…) Dizem que quando Emma morre, Flaubert chorou. Agora entendo por que não gosto. Ele estava envolvido demais com a história. Deveria ter permanecido muito mais frio, distante, com algo de gelo...